As quarenta e oito horas seguintes foram um martírio silencioso. O mundo continuou girando — Lorenzo indo à terapia com um desenho novo na pasta, Giulietta reclamando de lições de casa entre mordidas no sanduíche, Nicoletta tentando se adaptar à rotina rígida da mansão —, mas eu me movia por dentro como um fantasma, o peito apertado por uma culpa que ninguém via.Cada vez que Alessandro passava por mim, o estômago revirava. Ele falava de negócios casuais, de reforçar a segurança no porto, mencionou distraído que “a próxima carga é grande demais pra falha”. Quase vomitei ali mesmo, no corredor. O peso da traição me sufocava, mas eu sorria, assentia, fingia normalidade.Na noite da remessa, eu não dormi. Fiquei sentada na cama, abraçada aos joelhos, encarando a tela do celular como se o aparelho pudesse me dar, em tempo real, quantas vidas estavam em risco por causa de uma mensagem minha. Quando o relógio marcou duas, depois três da manhã, senti apenas um silêncio pesado. Nada explodiu.
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