Três anos tinham passado.Não de forma silenciosa, nem leve o tempo todo, porque a vida real jamais se movia assim. Tinha havido trabalho, noites mal dormidas, choros de bebê às três da manhã, reuniões adiadas, febres, risadas, sustos pequenos, aniversários, aprendizados, quedas bobas, primeiros passos, birras épicas e o tipo de rotina caótica que, vista de fora, parecia exaustiva, mas, por dentro, tinha gosto de milagre cotidiano.E, ainda assim, o tempo tinha feito o que sabia fazer de melhor quando recebia amor suficiente: tinha colocado cada coisa em outro lugar.A dor já não sangrava do mesmo jeito. A guerra já não morava em cada esquina. Os fantasmas tinham ficado menores. E a felicidade, antes tão difícil de tocar sem medo, agora aparecia em cenas simples demais para parecerem grandiosas — o riso de Bernardo correndo pela casa, o peso do corpo dele dormindo no colo de Valentina, o jeito como Rafael aprendera a trabalhar com um carrinho de brinquedo abandonado no meio do escritó
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