O quarto do hospital estava mergulhado naquela quietude peculiar que só existe depois do caos, quando tudo parece mais lento não porque o mundo tenha parado, mas porque o corpo ainda está tentando entender como sobreviveu. A luz era baixa, discreta, dourando de leve as superfícies frias, e por trás da porta fechada havia o movimento distante de enfermeiros, carrinhos e vozes abafadas. Ali dentro, porém, só existiam eles dois, o ar pesado de adrenalina que ainda não tinha ido embora e a lembrança crua do que quase lhes fora arrancado.Valentina permanecia recostada na cama, os ombros cansados, a pele um pouco pálida, os cabelos espalhados sobre o travesseiro como se até eles tivessem sido obrigados a atravessar uma batalha. O susto ainda vibrava dentro dela. Não mais como pânico, mas como um resíduo fundo, silencioso, alojado no peito, nas mãos, no jeito como os dedos repousavam sobre a barriga numa proteção instintiva, possessiva, feroz. Era curioso como o corpo sabia antes da mente.
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