No subsolo da mansão, o silêncio daquela sala blindada era pior do que qualquer ruído.Sua sinestesia, alimentada pela ansiedade, transformava a espera numa tortura visual em que Luísa via borrões vermelhos e estalos amarelos como descargas elétricas piscavam na sua mente a cada batida frenética de seu coração.— Senhora, por favor, beba um pouco d’água — pediu a governanta, oferecendo um copo com a mão trêmula.— Não quero — sussurrou Luísa. — Eu preciso ouvir o piano... Eu preciso de alguma coisa que me tire dessa escuridão.Ela encarou as próprias mãos de pianista, calejadas apenas nas pontas dos dedos, incapazes de segurar uma arma, incapazes de lutar. O sentimento de impotência era um tom menor, arrastado e grave, ressoando no fundo de sua alma.__________________No galpão em Japigia, Paolo não piscou. O cano do fuzil continuava erguido, mirado exatamente entre os olhos do ex-marido de Luísa.— Você está no meu território, miserabile — disse Paolo, num rosnado grave que fe
Ler mais