ClariceEu não planejei aquele momento. Não pensei nas palavras antes, não ensaiei diante do espelho, não organizei o coração. Ele simplesmente escorreu de mim, como coisas que ficam tempo demais guardadas e, quando encontram fresta, não pedem licença para sair.Era noite. A casa estava em silêncio — não o silêncio tenso que eu aprendi a temer, mas aquele outro, macio, que envolve sem apertar. Aurora já dormia, encolhida do jeito que sempre faz quando se sente segura, o rosto meio escondido no travesseiro, a respiração profunda. Fiquei alguns minutos parada na porta do quarto, observando, como se ainda estivesse aprendendo que aquilo era real. Que ela estava ali. Que eu estava ali. Que ninguém ia entrar para quebrar aquele instante.Fechei a porta devagar e caminhei até a sala.John estava no sofá, mexendo no celular sem realmente prestar atenção. Reconheci aquele gesto — a tela acesa mais como desculpa do que como interesse. Ele percebeu minha presença antes mesmo de eu falar. Sempre
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