John A paz nunca chega sem fazer barulho antes de ir embora. Aprendi isso cedo demais, quando tudo o que parecia sólido desmoronava sem aviso, deixando apenas o instinto de vigiar, antecipar, endurecer. Ainda assim, naquela manhã, eu tentei acreditar. Tentei convencer a parte mais antiga de mim de que o silêncio ao redor não era armadilha. Que não havia ameaça se reorganizando nas bordas. Que, pela primeira vez em muito tempo, as coisas estavam simplesmente… bem. O sol atravessava a janela da cozinha em faixas douradas, recortando o ar em pequenos mundos suspensos. Partículas de poeira dançavam sem pressa, como se o tempo tivesse decidido caminhar mais devagar ali dentro. Aurora estava sentada à mesa, concentrada em um desenho, a língua presa entre os dentes — aquele gesto antigo, quase automático, que sempre fazia quando queria acertar tudo. Clarice mexia o café no fogão, cantarolando baixinho. Um som discreto, contido, como se ainda testasse o chão antes de confiar o peso do corpo
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