Atravessei Montanhas, Mas Você Já Tinha Partido
Henrique conseguia ouvir os alertas do meu sistema.
Certa vez, o sistema me perguntou:
[Hospedeira, seu nível de afeição atingiu o máximo. Deseja eliminar seus sentimentos e retornar ao mundo real?]
Ele ouviu cada palavra. Seu semblante se fechou na mesma hora e, naquela noite, ele me tratou com uma frieza que eu nunca tinha visto antes.
O que ele não ouviu foi a resposta que dei logo em seguida, com a voz embargada:
— Eu não vou embora. Quero ficar com ele.
Por isso, no dia do nosso casamento, Henrique me deixou sozinha diante de todos e foi embora sem sequer olhar para trás.
E não parou por aí.
Ele levou consigo a única Flor Sagrada de Cura existente naquele mundo para tratar Isabela, embora ela tivesse apenas um arranhão superficial.
Henrique acreditava que, se reduzisse meu nível de afeição e me fizesse fracassar na missão, eu perderia para sempre a chance de partir.
Para me manter presa àquele mundo, passou a ignorar repetidamente tudo o que Isabela fazia comigo.
Nem mesmo reagiu quando ela destruiu meu núcleo mágico.
No dia em que Isabela enfrentaria a Provação Sagrada, Henrique também permaneceu indiferente enquanto ela quebrava a espada do pacto, ligada diretamente à minha alma.
Isabela pisou sobre a lâmina partida e sorriu com uma inocência cruel.
— Lívia, o Henrique não aguenta me ver sofrendo. Ele precisou usar a sua vida para suportar uma parte da provação por mim.
E, só para deixá-la tranquila, Henrique me prendeu com grilhões capazes de selar minha magia, imobilizando-me no centro do Altar da Tempestade.
No instante seguinte, relâmpagos rasgaram o céu e caíram sobre o altar em meio a estrondos ensurdecedores.
Desabei ali, coberta de sangue, sentindo a vida escapar de mim a cada respiração.
Foi então que o sistema, silencioso havia tanto tempo, voltou a soar:
[Hospedeira, seu nível de afeição está prestes a chegar a zero. Deseja reabrir o caminho de volta?]
Desta vez, não hesitei.
Reunindo o último fio de força que ainda me restava, respondi:
— Sim.