Mundo de ficçãoIniciar sessãoGuilhermina
Não importava a hora que eu ia dormir. Eu sempre estaria de pé bem cedo no dia seguinte. Foi um hábito que eu adquiri vivendo na vinícola, embora parecesse mais como um hábito herdado. Meu pai era assim. Ele dormia cedo e acordava cedo para trabalhar nas vinhas. Antes de eu começar a trabalhar na casa principal dos Pienezzas eu acordava cedo para preparar o café para o meu pai e começar a cuidar do almoço para quando ele voltasse.
Em seguida eu ia para a escola. O patrão anterior tinha disponibilizado um veículo para me levar à escola, eu e outras crianças que eram filhas de trabalhadores que moravam na terra, e o Sr. Mazza manteve isso quando comprou a propriedade. Com o tempo todos foram embora para a universidade, decididos a não levarem a vida que os seus pais levavam ali, não era uma vida ruim, mas era relativamente simples.
Eu gostava da vinícola, de morar lá, das pessoas de lá, da vida pacata, do cheiro do mato e da terra molhada. Mais uma das razões que me levaram a nunca cogitar seguir meus estudos em uma universidade como os meus amigos fizeram, era que o meu pai estava doente e eu fiquei para cuidar dele.
Quando os Pienezzas ainda eram os proprietários, eu já ajudava na casa principal quando adolescente, mas quando o meu pai adoeceu eu pedi para assumir um emprego de verdade. Primeiro que eu queria ter a segurança de um emprego e, segundo, que eu tinha medo que fôssemos mandados embora por que não havia razão para que continuássemos morando na pequena casa que fora disponibilizada para o meu pai se este não trabalhava mais. Minha preocupação se fez totalmente descabida quando o Sr. Mazza chegou. Ele me tranquilizou sobre isso, mas como eu insisti no emprego ele me manteve lá empregada na casa.
Quando o meu pai morreu e não vi necessidade de manter uma casa ocupada quando outras famílias de trabalhadores poderiam usufruir, eu ofereci a casa de volta ao Sr. Mazza e me mudei para a casa principal. Até hoje. Era uma vida simples. Muito simples e eu gostava dela... até Luca Sartori aparecer na minha vida.
Ele era um homem rico e requintado, que se vestia bem e tinha gostos caros. Tinha um monte de homens que andavam atrás dele para fazer a sua proteção, o que só reiterava o quão rico e conhecido ele devia ser.
Então havia eu.
Eu nunca havia saído da vinícola a não ser para a escola, para o vilarejo próximo e raras vezes para Milão com os Mazza. Sim, eu tinha celular e tinha acesso à internet que me permitia não ser uma ignorante. Mas eu estava longe de ter a sofisticação que andar com um homem como Luca exigia. Eu não devia sequer pensar nisso. Mas ele parecia não se importar com nada disso. A pergunta era: Até quando?
Basta olhar para nós dois para saber que um relacionamento como o nosso não iria a lugar algum e foi por isso que eu tentei recusar o seu convite para o jantar.
Agora, depois do que aconteceu no parque, dos seus beijos, do seu toque e das palavras que ele disse eu não conseguia tirá-lo da minha cabeça. Eu precisava ter muito cuidado, por que era muito fácil se apaixonar por um homem como Luca, mas era praticamente impossível a recíproca ser verdadeira.
Eu amarrei meu cabelo em um coque alto e coloquei uma calça jeans e uma camiseta branca. Por cima, um casaco azul claro. O tempo tinha esfriado demais nos últimos dias. O inverno se aproximava e ficava cada vez mais difícil abrir mão de um agasalho, mesmo durante o dia. Uma vez pronta, deixei o quarto e segui para as escadas.
A mesa estava posta para o café da manhã, mas não havia ninguém por perto. Uma moça que trabalhava na casa se aproximou.
- Bom dia. Você pode tomar seu café se quiser. Nos finais de semana nós nunca sabemos a que horas as pessoas daqui vão aparecer.
- Nesse caso eu não vou esperar. Obrigada.
Eu me servi de uma xícara de café, um pãozinho e queijo. Meu pão estava na metade quando Giovanna apareceu. – Bom dia, Guile. – ela parecia exausta.
- Bom dia. Noite difícil?
- Sim. Ele teve cólicas esta noite.
- Pobrezinho. Onde está agora?
- Dormindo com o pai. Matteo se recusou a dormir ontem e acabou passando a noite em claro comigo. Eu expliquei pra ele que era melhor se algum de nós dormisse assim poderíamos nos revezar, mas ele sugeriu que eu fosse dormir. É claro que eu não poderia ir dormir e deixar o meu bebê doente. Resultado: ficamos os dois. Felizmente o pequeno Teo dorme pacificamente agora, e eu faria o mesmo se não fosse pela fome que eu estou.
- Você deve descansar. Eu posso ficar com ele se você quiser.
- Não se preocupe. Eu vou só comer alguma coisa e vou para a cama. Além do mais há uma fila de pessoas inscritas para ficar com ele no caso de eu precisar. Você não teria a menor chance. – Eu sorri. O pequeno Teo era como o príncipe da família e como ele ficava a maior parte do tempo na vinícola, os avós e tios queriam aproveitar ao máximo o tempo que ele estava em Milão. – Agora você vai me contar sobre a sua noite?
- Fomos jantar em um restaurante Tailandês e depois fomos caminhar no parque aqui ao lado.
- Por que você não parece tão entusiasmada? Ele fez alguma coisa de errado?
- Ele foi perfeito.
- Então?
Eu tomei um gole do meu café e devolvi a xícara ao pires. – Não sei. Tem muita coisa estranha, sabe? Primeiro de tudo: Por que eu?
- Por que não você? – ela devolveu.
- Eu fiz uma pesquisa rápida sobre a vida dele e o cara é podre de rico. Ele é inteligente e elegante. Uma única peça de sua roupa vale o suficiente para pagar por todo o meu guarda-roupas. Ele é lindo, sofisticado e pode ter a mulher que ele quiser. Então, porque eu?
-Eu repito: Por que não você? Guile, você se subestima demais. Você é linda e doce. É inteligente e tem um coração de ouro. Pra mim você é a materialização do bem nesta terra e talvez Luca precise de algo assim na sua vida. – ela fez uma pequena pausa para bebericar o seu café – Além do mais, que homem não ficaria louco por você com esse corpo e esses olhos lindos? Quanto a ele poder ter qualquer mulher... Bem, isso pode ser verdade, mas o fato de mesmo assim ele preferir você diz muito sobre o que ele sente.
- Eu não sei, Giovanna... ele é tão estranho às vezes. Várias vezes ele me disse que devia manter-se longe de mim para o meu próprio bem, mas que ele não conseguia. Falou algo sobre eu não aceitar se descobrisse algo sobre ele. Você pode ver o quão estranho isso soa? É assustador. Minha cabeça fica trabalhando a cada instante pensando no que isso poderia ser – Giovanna mudou desconfortável na cadeira e algo em sua postura me disse que ela sabia do que se tratava. – Você sabe do que se trata?
- Eu creio que sim, mas eu acho que ele é o único que deve falar com você. Não é o meu negócio, Guile. Na verdade, é meu negócio de certo modo se ele não fizer a coisa certa. Ele tem um prazo pra fazer isso. Se a coisa entre vocês avançarem o suficiente e ele ainda não tiver falado, eu mesma vou contar, por que eu não quero você às cegas nisso. Tudo o que eu vou dizer a você é: Eu confio nele. Ele me resgatou e me trouxe de volta com vida. Ele fez algo semelhante para Penélope e eu devo a ele a minha vida e a vida do meu filho. Então, não importa o que Luca diga de si mesmo, no fundo ele é uma boa pessoa.
- Nossa Senhora! Você não tem ideia do que acontece com os meus batimentos cardíacos quando você fala algo assim. É assustador.
- Eu entendo. Mas nós não vamos deixar isso ir longe demais sem que ele nos dê garantias sobre o relacionamento de vocês. Nós vamos cuidar de você, Guile, por que você é como nossa família.
Eu fiquei emocionada com a sua declaração. – Obrigada. Isso significa muito pra mim. – Nós voltamos a comer e quando eu recuperei a compostura e soube que eu podia dizer algo sem fazer papel de tola, informei – Ele quer que eu passe o dia com ele hoje.
- E o que você disse?
- Nada. Ele vai ligar hoje pra combinar, mas diante de tudo, confesso que não sei se devo ir.
- Você quer?
Eu queria, mas temia – Eu adoro estar com ele, mas eu não quero criar expectativas e me decepcionar.
- Bem, sinto te informar que não existe tal coisa de relacionamento sem decepções. Nós criamos expectativas sobre as pessoas e eventualmente vamos nos decepcionar de uma maneira ou de outra. Apenas quando você passa a aceitar as pessoas como elas são, com suas qualidades, mas também com seus defeitos, as coisas entram nos eixos e tudo fica bem. Você viu quão complicado eu e Teo fomos no início. Mas aqui estamos nós, juntos e felizes. Ele não é perfeito, eu tampouco, mas nos amamos e tudo vai ficar bem. Por isso, se você gosta de estar com Luca, siga o seu coração. Quanto ao que ele quer contar pra você... ouça tudo e tente ter uma mente aberta. Eu sempre achei que não havia ninguém mais convencional do que eu, mas você não me vê expulsando-o da minha casa, vê? Ele é querido e bem recebido por todos nós. Eu tento não julgar... faça o mesmo. Porém, se depois que ele te contar tudo você decidir que não pode viver com isso, então eu estou aqui pra você.
Nós mudamos para temas mais leves, como a festa de ontem e os planos para o casamento de Penélope – eu realmente acho que você deve ficar aqui em Milão até o casamento de Penélope. Não há necessidade de voltar para a vinícola. Não tem nada lá e as meninas podem dar conta de tudo por um mês.
- Eu não sei...
- Pense sobre isso. Você pode conhecer a cidade, sair um pouco, viver além dos limites daquela vinícola. Você é jovem Guile e linda. Eu vivi tanto tempo isolada escrevendo, lendo, que quase deixei passar a oportunidade de conhecer Teo. Veja, eu estou muito feliz agora. Mais do que eu jamais havia sido.
- Eu vou pensar a respeito.
Depois do café da manhã eu voltei para o quarto e me deitei para pensar um pouco sobre isso tudo. As palavras de Giovanna ao mesmo tempo que foram importantes ao reiterar o quanto eles me querem bem e que eu não estou sozinha, serviu também para me deixar mais preocupada. O que seria isso que Luca não queria que eu soubesse ainda?
Meu telefone tocou na mesinha lateral e eu me apressei para ver quem era. Salvar o seu número de telefone foi a primeira coisa que eu fiz quando entrei a noite passada, assim, era o seu nome que aparecia agora na tela do meu smartphone.
- Alô – atendi.
- Oi, linda.
- Oi.
- Eu acordei você?
- Não mesmo. Eu acordo muito cedo.
- Eu estou indo buscar você daqui à pouco.
- Pra onde?
- Minha casa. É melhor por que não temos que ter os rapazes em volta se eu estou em casa. O mais próximo que Demétrius vai ficar é no apartamento dele que fica no andar de baixo.
- Tudo bem. – concordei de pronto. Primeiro por que eu realmente queria estar com ele e, segundo, por que eu tinha esperanças de que ele me contaria tudo hoje.
Vinte minutos depois, Luca enviou uma mensagem avisando que havia chegado. Eu desci as escadas o mais rápido que eu pude e fiquei feliz de não encontrar ninguém pelo caminho. Ele estava de pé, encostado na lateral do seu carro com as mãos no bolso. Eu parei um instante, querendo aproveitar ao máximo a visão. Ele abriu um belo sorriso quando me viu e assim que eu me aproximei me agarrou em um abraço, que se transformou em um beijo terno e longo. – Eu senti sua falta – sussurrou quando conseguiu uma pausa do beijo. – Venha, vamos embora. Eu estou ansioso para que você conheça a minha casa.







