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CAPÍTULO 5 — O Confronto e a Viagem Sem Volta

Levei o Noah para o treino de futsal de carro, mantendo um sorriso forçado nos lábios o caminho inteiro para que ele não percebesse o quanto o meu mundo estava desmoronando por dentro. A Maria, minha filha mais nova de apenas dois anos, estava na creche de período integral. Pelo menos duas vezes na semana ela ficava lá o dia todo, e esse era o único tempo que eu tinha para conseguir respirar, ir ao supermercado, organizar a casa e, querendo ou não, dar uma atenção extra para o Noah. Uma criança pequena demanda cada segundo de nós, e o Noah também precisava de mim; ele estava em uma fase com muitos temas de casa, tarefas complexas e provas difíceis para estudar. Eu tentava me desdobrar em mil para ser a mãe perfeita, já que a figura paterna naquela casa era apenas decorativa.

Deixei meu filho no treino, engoli o choro no carro e voltei para casa. O silêncio das paredes me sufocava, mas a raiva que queimava no meu peito era maior do que qualquer medo. Eu precisava olhar nos olhos do homem com quem dividia a vida. Caminhei até o corredor do andar de baixo, parei em frente à porta de madeira maciça e bati no escritório dele.

— Entra — a voz de Marcos ecoou, fria e distante como sempre.

Girei a maçaneta e entrei. Olhei para ele sentado naquela cadeira de couro importada. Meu coração parecia uma bateria descompassada no meu peito. Pensei, pensei por um breve segundo se deveria me calar e planejar tudo em silêncio, mas o choro engolido do meu filho na mesa de almoço ainda ardia na minha garganta. Resolvi seguir os meus instintos mais profundos. Dei um passo à frente e o questionei:

— Marcos, eu quero saber o que está acontecendo. Isso não é jeito de tratar o seu filho. Por que você está agindo dessa maneira com ele?

Ele tirou os olhos do monitor lentamente, transbordando arrogância, e me encarou com desdém.

— Tá ficando louca? O que é agora, Isabela?

— O que é agora, Marcos? Você foi um ignorante completo com o seu filho! Você disse que não podia assistir ao treino dele porque tinha muitas coisas para resolver na empresa, e agora você está sentado aqui no seu escritório, fazendo absolutamente nada, só olhando para a tela do computador? O que é, Marcos? O que está acontecendo com você? E me diz... você não tem nada para me contar? Você não está escondendo nada de mim? Eu sinto, Marcos. Me fala a verdade. A gente ainda tem tempo de consertar. Os nossos filhos são novos, são crianças. Você realmente quer colocar tudo a perder?

As minhas palavras, carregadas de uma última e dolorosa tentativa de fazê-lo ser honesto, pareceram atingir um nervo. Marcos se levantou abruptamente da cadeira, escorando as mãos na mesa e inclinando o corpo na minha direção. O olhar dele era puro fogo e desprezo.

— Tu só pode estar ficando louca! — ele esbravejou, a voz subindo de tom. — Tanto tempo enfiada dentro de casa está te deixando entediada, é? A ponto de precisar vir aqui puxar briga comigo por nada? O moleque sabe muito bem que hoje eu não tenho tempo para essas bobagens. E quem é você para dizer que eu não estou fazendo nada? Eu estou trabalhando, trazendo dinheiro para essa casa! Ou será que eu preciso te lembrar o motivo de você ter uma vida tão boa?

Ele deu a volta na mesa, aproximando-se de mim com passos pesados, apontando o dedo na minha direção.

— Você e essas crianças não merecem o luxo que eu ganho, não dão o menor valor ao meu esforço. E eu não estou escondendo nada, que inferno! De onde você está tirando essas ideias idiotas? Pare de encher o meu saco e me dá um tempo, porque você só tem me incomodado desde o exato momento em que eu cheguei de viagem!

A máscara dele era perfeita. Se eu não tivesse visto aquela mensagem de Catherine com os meus próprios olhos, eu quase teria acreditado na sua encenação de marido injustiçado. Mas a frieza dele já não me machucava mais; apenas solidificava o meu nojo.

Marcos arrumou o paletó com um puxão violento, desviou de mim e caminhou até a porta do escritório, parando antes de sair para desferir o golpe final.

— Ah, e só para te avisar: às 18:30 eu pego um voo. Vou para Buenos Aires, na Argentina. Tenho um cliente extremamente importante para tratar lá e, por isso, vou demorar pelo menos três dias para voltar para casa. Até lá, vai te dar um tempo excelente para botar essa cabeça no lugar e parar de agir desse jeito maluco.

Ele saiu batendo a porta com força, deixando-me sozinha no meio do escritório. Respirei fundo, sentindo o perfume adocicado da amante dele que ainda parecia impregnado no ar. Olhei para a cadeira vazia dele e um sorriso gelado brotou nos meus lábios. Buenos Aires. Três dias.

Ele achava que estava me deixando no castigo, mas o que Marcos acabou de me dar foi o álibi perfeito e o tempo livre que eu precisava. Peguei o celular no meu bolso, desbloqueei a tela e encarei o aplicativo aberto na minha frente.

"Vênus Oculta", eu li mentalmente. Marcos ia viajar para os braços da outra, achando que me deixaria chorando em casa. Ele mal sabia que, quando voltasse da Argentina, encontraria uma mulher completamente diferente. A contagem regressiva para a minha libertação tinha acabado de começar.

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