Capítulo Cinco

O jantar foi uma sinfonia de talheres batendo em pratos de porcelana e histórias que Gus e Abby já conheciam de cor. Robert e Daniel discutiam a potência de um novo motor de barco, enquanto Susan e Eliza relembravam passagens da faculdade que faziam as duas rirem até as bochechas ficarem vermelhas. Para os adultos, o tempo parecia não ter passado; para Gus, cada minuto naquela mesa, sob a luz forte do lustre da sala de jantar, parecia um teste de resistência.

Ele buscava o olhar de Abby por cima da travessa de peixe grelhado. Ela estava quieta, apenas sorrindo educadamente para as perguntas de Susan sobre a escola em Salem. Suas tranças maria-chiquinha estavam um pouco mais frouxas agora, e ela brincava com o guardanapo de linho sob a mesa — um sinal de que a inquietação dela era igual à dele.

A salvação veio na forma de um barulho de motor potente estacionando na brita lá fora, seguido pelo som de música alta que diminuía gradualmente.

— Não pode ser... — Susan disse, deixando o garfo de lado com um sorriso surpreso. — Ela disse que só viria no fim de semana!

A porta da frente se abriu com um estrondo alegre e Sarah, a irmã mais velha de Gus, entrou na casa como um furacão de energia de Boston. Ela usava óculos de sol na cabeça, uma jaqueta jeans sobre um vestido curto e trazia consigo o cheiro de perfume caro e liberdade.

— Sentiram saudades da pessoa que realmente anima este lugar? — Sarah exclamou, sendo imediatamente cercada pelos abraços da família.

A chegada de Sarah quebrou o protocolo do jantar. Em meio à confusão de servirem um prato extra, Anthony aproveitou a brecha. Ele deu um chute leve por baixo da mesa na canela de Gus e sussurrou: — Cara, eu não aguento mais ouvir falar de motores. Vamos dar o fora?

Gus olhou para Abby, que assentiu quase imperceptivelmente. — Mãe, a gente vai dar uma volta na vila, tudo bem? — Gus anunciou, levantando-se antes que Susan pudesse protestar sobre a sobremesa.

— Levem a Sarah! — gritou Eliza. 

— Nem pensar! — Sarah respondeu, já roubando um pedaço de pão do prato do pai. — Acabei de dirigir três horas. Vão vocês, crianças. Só não se metam em confusão.

Gus, Abby e Anthony saíram pela porta dos fundos como se fugissem de um cativeiro. O ar da noite estava mais gelado agora, mas a sensação de estarem longe dos olhos vigilantes dos pais era como um combustível.

— E aí, o que vamos fazer agora? — Anthony perguntou, esticando os braços e chutando uma pedrinha no caminho. — O píer é legal, mas eu preciso de movimento. Tem uma fogueira rolando na Praia das Dunas. O pessoal do time de futebol de verão disse que estaria lá.

Gus olhou para Abby. Ele sabia que ela não era muito fã de multidões barulhentas, mas viu nela o mesmo desejo de explorar aquela nova versão de si mesmos que o verão estava despertando.

— Por mim, tudo bem — Abby disse, ajeitando os óculos. — Desde que o Anthony não tente entrar no mar às onze da noite.

— Não prometo nada! — Anthony riu, já começando a correr em direção à trilha que cortava as dunas.

Caminharam pela trilha estreita, onde a areia entrava nos sapatos e o som do mar ficava cada vez mais alto. Gus e Abby ficaram um pouco para trás, deixando Anthony liderar o caminho com a lanterna do celular.

— Você está bem? — Gus perguntou em voz baixa, sua mão roçando levemente no braço dela enquanto saltavam um tronco caído. — Estou. Só... é estranho como tudo parece igual e completamente diferente ao mesmo tempo — Abby confessou. — Dois anos atrás, a gente estaria jogando tabuleiro na sala. Agora, estamos indo para uma fogueira com desconhecidos.

— O que você quer fazer, Abby? De verdade? — Gus parou por um momento, forçando-a a parar também.

O brilho da lua refletia nas lentes dela. Abby olhou para a trilha à frente, onde a luz de Anthony já estava distante, e depois voltou para Gus. — Eu quero descobrir quem somos nós quando não estamos sendo observados pelos nossos pais. Quero ver se as histórias que a gente contava ainda fazem sentido.

Gus sentiu um impulso de segurar a mão dela, mas o grito de Anthony lá na frente o interrompeu: — EI! CASALZINHO! DÁ PRA APRESSAR O PASSO? EU JÁ CONSIGO VER A FOGUEIRA!

Eles riram, a tensão se dissipando no ar salgado. Quando chegaram à Praia das Dunas, a cena era típica de Cape Cod: uma fogueira imensa estalava no centro, cercada por cerca de vinte adolescentes. Música saía de uma caixa de som portátil, misturando-se ao som das ondas.

— O que vamos fazer agora? — Gus repetiu a pergunta de Anthony, mas desta vez, olhando nos olhos de Abby.

— Vamos viver, Gus — ela respondeu, com uma coragem que ele ainda não tinha visto. — Pelo menos por esta noite.

Ela deu o primeiro passo em direção à luz do fogo, e Gus a seguiu, sabendo que aquele era o ponto de não retorno. O verão de quatorze anos tinha ficado definitivamente para trás.

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