Mundo de ficçãoIniciar sessãoLeila respondeu, guardando sua pasta com uma segurança que Leon ainda não conhecia.
- Eu descobri que sou muito boa em construir futuros, Leon. Pena que você preferiu ficar cuidando apenas do seu. Naquela noite, Leila não chorou. Pela primeira vez, o silêncio da casa não a inquietava, ela estava ocupada demais ouvindo o eco dos próprios passos em direção a uma vida que ela mesma desenhara. Leon começou a reclamar com ela pela ausência em casa quando ele estava. Leila evitava brigas, mas se sentiu magoada pois a vida toda o apoiou nas coisas dele e além de não apoiá-la, reclamava. A casa, que antes era o refúgio de Leon após seus longos dias de trabalho, agora recebia um marido impaciente e uma esposa que chegava tarde, com a mente fervilhando de projetos. Leon não sabia lidar com o vazio. - Outra vez, Leila? Ele perguntou, batendo o garfo no prato vazio quando ela entrou pela porta às oito da noite. - Eu cheguei há uma hora. Esta casa parece um hotel. Leila parou na entrada da cozinha, segurando uma pilha de planos de aula. O cansaço físico era real, mas a mágoa que subiu pela garganta era mais forte. - Engraçado, Leon. Durante alguns anos, eu esquentei o seu jantar, silenciei a casa para você descansar e adiei meus planos porque você "estava construindo o nosso futuro". Agora que eu estou construindo o meu, a sua paciência durou menos de um mês? - Não é a mesma coisa! Ele alterou a voz, levantando-se e deixando ela assustada. - Eu faço isso por segurança. Você está fazendo isso por... por vaidade? Por uma "escolinha"? Leila deixou as pastas sobre a mesa e caminhou até ele, mantendo a voz baixa, mas cortante como nunca. Ela evitava brigas, mas o silêncio acumulado por anos estava se transformando em palavras. — Vaidade, Leon? Eu estou coordenando uma instituição, formando professores e, acima de tudo, sendo feliz. O que te incomoda não é a minha ausência. É o fato de que eu não estou mais aqui ao redor do seu cansaço. Ela se lembrou de todas as vezes que abriu mão de viagens, cursos e descansos para que ele pudesse brilhar. A falta de reciprocidade era um abismo que Leon insistia em ignorar. - Eu te apoiei em cada degrau que você subiu. Eu vibrei com cada bônus que você recebeu, mesmo quando esse dinheiro significava que você passaria menos tempo comigo. E agora, no meu primeiro grande vôo, você tenta cortar minhas asas porque o jantar não está na mesa? Leon tentou usar a velha tática da defensiva, cruzando os braços e desviando o olhar. - Você está sendo dramática. Só estou dizendo que as coisas mudaram demais. Você nem parece mais a mesma mulher. - Ahhh, nisso você tem razão. — ela respondeu, com uma calma que o desarmou. - Eu não sou a mesma. A mulher que aceitava promessas de um "depois" morreu junto com a esperança que você enterrou. Leila não esperou resposta. Ela subiu para o quarto, mas não para chorar. Ela abriu seu notebook e começou a responder os e-mails da escola. A mágoa ainda estava lá, mas não era mais paralisante. Pela primeira vez, Leila percebeu que o apoio que ela tanto buscou em Leon, ela já havia encontrado em si mesma e nos seus novos horizontes. Os amigos deles em comum percebiam, a família deles, os pais dele e Leila cada vez mais estava desmotivada em seu casamento. Ela acreditava e Leon até falava disso, que casamento era para a vida toda, mas ela não estava mais suportando tantas coisas. Não era mais possível esconder que algo não estava bem. Nos jantares de domingo na casa dos pais de Leon, o silêncio entre o casal era mais barulhento que qualquer discussão. Os amigos em comum, que antes viam neles um símbolo de estabilidade, agora trocavam olhares cúmplices quando Leon reclamava do "excesso de trabalho" de Leila, ou quando ela apenas sorria educadamente, sem brilho nos olhos, ao ouvir os planos de viagem dele para um futuro distante. A sogra de Leila, num momento a sós na cozinha, tocou seu braço com pesar: - Ele sempre foi teimoso, minha querida. Mas casamento é renúncia, é para a vida toda. Leila sentiu um peso nos ombros. "Renúncia", pensou ela, "mas quem está renunciando a quê?". Enquanto Leon se agarrava a longevidade do matrimônio para manter o controle, Leila sentia que o "para sempre" estava se transformando em uma sentença de prisão perpétua. Leon usava o conceito de "casamento eterno" como um escudo. Sempre que a tensão subia, ele encerrava o assunto com a frase: - "Nós fizemos uma promessa, Leila. Casamento é na alegria e na tristeza". Mas a tristeza havia se tornado a moradora principal daquela casa, e a alegria só aparecia quando Leila cruzava o portão da escola. - Não é só sobre durar, Leon. Ela disse uma noite, enquanto ele assistia TV e ela revisava relatórios de alunos. - É sobre como a gente se sente enquanto dura. Eu estou exausta de ser a única a tentar consertar o que você nem admite que quebrou. Ele nem se deu ao trabalho de olhar para ela. — Você está desmotivada porque está focada demais nas coisas lá fora. Reze um pouco, peça paciência. O casamento é sagrado. A desmotivação de Leila não era preguiça, era luto. O luto por um parceiro que não a via, que não a apoiava e que usava a tradição para justificar o egoísmo. Ela olhava para Leon e não reconhecia mais o homem por quem se apaixonou. O Leon que prometia "curtir a vida" tinha sido substituído por um homem defensivo, que preferia a casa silenciosa e uma esposa infeliz a uma mulher vibrante e independente. Cada vez que ele reclamava de sua ausência ou de suas conquistas na coordenação, uma fibra do laço que os unia se rompia. Leila começou a perceber que a frase "casamento é para a vida toda" só fazia sentido se houvesse vida dentro do casamento. E na deles, a única coisa que pulsava era o sucesso dela fora daquelas paredes. Ela não gritou, não chorou. Apenas fechou o notebook, olhou para as paredes frias da sala e sentiu um vazio maior do que o medo de partir. - Tem sido insuportável, e o pior é quando ele fica sem falar comigo, me ignorando dentro da nossa própria casa, no meio da família dele.






