Mundo de ficçãoIniciar sessão
Leila tem 35 anos e é professora de Educação Infantil já alguns anos. Foi casada com Leon por 14 anos e não tiveram filhos. Sonhava em ser mãe e Leon sempre insinuava sua insatisfação com isso. Por fim, fez vários exames, mas não encontrava qualquer diagnóstico que a impedisse de ter filhos e nada convencia Leon a fazer exames também e saber se não era com ele o problema. E isso sempre tornava motivo de discussão entre eles. Quando tinham sete anos de casados, ela engravidou, mas a gravidez não seguiu adiante. Isso os deixou muito tempo tristes e frustrados.
No início do casamento era tudo maravilhoso, os dois sempre apaixonados e trabalhando para organizarem e se estabilizarem em suas vidas e Leon sempre dizia que depois eles curtiram bastante. Os anos passaram e isso não aconteceu. Eram poucas as viagens no que ela gostaria e esperava, saiam mais com os familiares e amigos e uma viagem aqui ou acolá, das coisas que Leon curtia. Juntos, conquistaram a sua casa própria, cada um tinha seu transporte, até porque não dava para dividirem um só devido suas rotinas profissionais. Ela trabalhava naquilo que mais gostava, cuidar e ensinar crianças. Ele era administrador de uma empresa na cidade onde moravam, juntamente com o seu irmão mais velho. Com isso viajava constantemente para outras cidades. Ele sempre dava um jeito de saírem vez ou outra para se curtirem, mesmo sendo por perto. Leila sempre falava que gostaria de conhecer alguns lugares, fazer alguns passeios. E Leon nunca achava graça no que ela gostava e eles faziam mais passeios e viagens dos gostos deles e Leila não conseguia argumentar ou reclamar, muitas das vezes para evitar estresse e discussões. Quando elas aconteciam, eles chegavam a ficar dias sem se falar. Leila foi perdendo o brilho pelo relacionamento deles. E Leon se afastava com seus compromissos e seus sonhos, com isso, estava cada vez mais distante. De dois anos para cá, as viagens a trabalho se tornaram constantes e até os amigos em comum deles percebiam a distância e a mudança de temperamento. Leila não tinha mais aquele sorriso tão evidente e eles pouco saiam juntos. Apesar de situações que só ela sabia, os amigos deles os tinham como um casal exemplo. Apaixonados, parceiros e amigos. E foram, por um tempo. Leila estava aborrecida porque Leon começou a discutir com ela por coisas que normalmente nunca brigavam. Era como se não tivesse mais paciência na vida deles, a rotina deles. começou a esquecer datas e quando eram as coisas dele, sempre eram muito importantes, mas as dela, tinha pouco valor. Isso também foi magoando Leila que aos poucos estava crescendo profissionalmente e sempre estava sozinha nas suas conquistas, quando nas dele, sempre incentivou e esteve junto. Ela começou a dar aulas em outras cidades para novos professores, era uma renda extra e quando menos esperava foi convidada por um casal de amigos pedagogos para juntos abrirem uma escola. Apesar de ser um desafio grande, e Leila não ter muito dinheiro seu guardado para investir, seus amigos a queriam na área de coordenação. Ela conversou com Leon para saber sua opinião, se poderia ajudar também, mas ele nem deu muito valor e então resolveu aceitar o desafio, da forma que podia e que seus amigos proporam, mas não abria mão de ter uma turminha para não se afastar totalmente de suas crianças. Trabalhava um horário na coordenação e em outro em sala de aula. E dava um show nas duas áreas, era muito elogiada e requisitada para aulas e orientações. A ascensão profissional de Leila trouxe um novo brilho ao seu olhar, as havia a frieza que ainda habitava sua casa. A rotina de Leila se expandiu para além das fronteiras da cidade. Suas aulas para novos professores tornaram-se um refúgio de inspiração, ao ensinar outros a ensinar, ela curava um pouco de si mesma. Foi em um desses encontros que o casal de amigos, também pedagogos, lançou a proposta que mudaria tudo: — Leila, nós temos o espaço e o capital, mas não temos o seu olhar. Queremos você como sócia e coordenadora da nossa nova escola. O coração dela disparou. Era o "depois" que ela mesma estava criando, sem esperar pelas promessas de Leon. No entanto, o medo da falta de recursos financeiros a assombrava. Ao chegar em casa, tentou compartilhar o entusiasmo com o marido, buscando não apenas apoio financeiro, mas validação emocional. - Uma escola? Leon mal desviou os olhos do notebook. - Leila, o mercado está difícil e você já tem seu emprego estável. Para que se meter em dívidas e dor de cabeça agora? O desdém dele foi o empurrão final. Leila percebeu que, se esperasse pela permissão ou pelo investimento de Leon, seu sonho morreria na gaveta junto com os sapatinhos brancos. Sem o apoio de Leon, Leila aceitou o desafio nos termos de seus amigos: entraria com sua experiência e força de trabalho. Ela impôs uma condição inegociável, não abandonaria a sala de aula. A rotina tornou-se exaustiva, mas revigorante. Pela manhã, Leila era a coordenadora estratégica, organizando currículos e orientando professores. À tarde, ela se tornava a "Profe Leila", cercada pelo cheiro de giz e pela energia vibrante de sua turminha. A escola começou a ganhar fama. Os pais disputavam vagas apenas para ter seus filhos sob a orientação dela. Leila descobriu que, embora não tivesse o dinheiro de Leon, possuía uma moeda muito mais valiosa: a autoridade de quem transforma vidas. O sucesso de Leila tornou-se impossível de ignorar. Ela passou a ser convidada para palestras e orientações em diversas instituições. Em um desses eventos, enquanto era aplaudida de pé por uma platéia de educadores, ela procurou Leon na primeira fila, mas a cadeira estava vazia. Ele alegou uma "reunião de última hora". Ao voltar para casa, ela encontrou Leon jantando sozinho, cercado pelo silêncio de sempre. - Me contaram que sua palestra foi um sucesso. Ele disse, num tom que misturava surpresa e um estranho desconforto. - Foi sim, uma pena você não estar comigo.






