Mundo de ficçãoIniciar sessãoCapítulo 4: Adam...
Por um breve momento, pensei que ela pudesse ter armado tudo isso, mas a garota não era como as outras mulheres que passaram por aqui. Estava sentada com a postura ereta, mas os dedos entrelaçados denunciavam o seu nervosismo e ansiedade. Analisei o currículo com uma atenção forçada, tentando me agarrar à formalidade para não me perder no impacto de sua presença. A tranquilidade que eu acreditava ter construído com tanto esforço estava prestes a ruir. Porque curiosamente o destino havia acabado de entrar no meu escritório, pedindo uma chance. Pedagogia? Indaguei em pensamento, franzindo o cenho e relendo o currículo.... graduação completa, cursos complementares e experiência com crianças. — É formada em pedagogia? — perguntei, erguendo o olhar. — Sim! — respondeu com um sorriso contido que fez eu perder o ar. Confesso que fui pego de surpresa, essa não combinava com a imagem que havia criado na cabeça desde que a vi na boate. Uma dançarina sensual, provocante, envolta em fumaça e luzes artificiais. E agora, a mulher a minha frente era diferente... simples, natural e havia algo genuíno nela que me desarmava por completo. — Não posse deixar de perguntar, senhorita Lídia! Por que trabalhar em uma boate? — questionei, sendo bem direto. — Não parece coerente! Ela respirou fundo antes de responder, como se estivesse acostumada a esse tipo de julgamento. — Por que contas não esperam por oportunidades! Nunca tive chance de exercer minha profissão no meu país! Faltavam indicações e em concursos... bom, sempre inventavam algo e passava o tempo! Sobrou a necessidade e dançar era o que pagava o aluguel e a dignidade! A honestidade de sua resposta me atingiu em cheio. — Vim de uma família humilde... as portas nunca se abriram para mim e quando surgiu a chance de vir para cá, aceitei qualquer trabalho honesto que aparecesse! Não me orgulho, mas também não me envergonho! Lídia continuou falando sobre a mudança para os Estados Unidos, sobre a vontade de recomeçar, sobre a esperança de finalmente, poder trabalhar com crianças. E cada palavra dela parecia contrastar com a imagem que a minha mente insistia em proteger. Confesso que eu mais a observava do que ouvia. O formato do rosto, a curva suave do pescoço, os lábios cheios que se moviam com cuidado ao falar. As curvas femininas marcadas sem esforço e o seu perfume leve que chegava até mim. Engoli em seco ao perceber que o meu coração batia ainda mais acelerado, algo que eu não permitia a anos. Ela não era a Núbia! E perceber isso era libertador, mas também assustador. Núbia carregava fogo, manipulação e caos, mas aqui em minha frente está Lídia. Há doçura em seus gestos, humildade em sua postura, uma calma que me confunde e, ao mesmo tempo me atraía perigosamente. Balancei a cabeça discretamente, afastando esses pensamentos perigosos! Eu a queria por perto, a constatação veio clara, direta e impossível de ignorar, mas ao mesmo tempo, o medo se infiltrou. Os meus filhos são as jóias mais preciosas da minha vida e o impacto que aquela mulher poderia ter sobre eles e sobre mim era preocupante. Não podia misturar desejo com responsabilidade. — Você entende que este trabalho exige muito mais do que cuidar das crianças? É uma casa grande, dois adolescentes, uma criança de nove e uma bebê... — Entendo e sei que não será fácil, mas sei lidar com crianças... gosto delas e tenho muita paciência! Paciência! Algo que já não tenho há anos! Observei-a por mais alguns segundos, analisando cada detalhe, tentando encontrar algo que justificasse dizer não... um erro, uma falha, qualquer coisa que me livrasse daquela confusão interna. Ainda assim o medo falava mais alto. — Bem, senhorita Souza... entraremos em contato! — disse devolvendo o currículo e assumindo um tom profissional. — Vou analisar os currículos com calma! — menti. Ela levantou-se, os olhos brilhando com algo que parecia esperança. — Obrigada pela oportunidade dessa entrevista, senhor Carter! De verdade! — disse com uma sinceridade que me combaliu. — Independentemente da decisão! Lídia virou-se e saiu do escritório, deixando para trás um silêncio ensurdecedor. Fiquei ali imóvel, encarando a porta fechada e a minha mente estava como um campo de batalha. A imagem dela se mistura às lembranças do passado, às falhas como pai, às escolhas que havia feito para me proteger da dor e talvez estivesse prestes a cometer um erro. Ainda assim, a idéia de deixá-la ir me incomodava mais do que deveria. Afundei-me na cadeira, encarando o teto, quando a porta se abriu novamente sem aviso. — Então é por isso que está com essa cara de quem viu um fantasma? — indagou Adriel. Ergui o olhar e Adriel estava encostado no batente da porta sorrindo com um olhar curioso e ao seu lado o nosso irmão do meio Adrian, um pouco mais centrado do que Adriel. — Desde quando entram em minha sala sem bater? — indaguei indireitando-me na cadeira. Ele sorriu despreocupado. — Desde sempre e pelo visto chegamos num momento bem interessante! — O que querem? — perguntei impaciente. — Vimos a moça saindo e reconheci o rosto... Fechei a cara. — Não comece! Sentaram-se na cadeira a minha frente e contei-lhes sobre a boate, sobre a coincidência absurda de encontrá-la bem ali, diante de mim, como candidata a babá dos meus filhos. Ouviram tudo com atenção e depois soltaram uma risada. — O mundo dá voltas engraçadas, hein? — comentou Adriel. — Alguns chamam isso de coincidência... outros de destino! — zombou cutucando Liam e riram ainda mais. — Não acredito nessa baboseira e francamente, não sei porque ainda perco o meu tempo com vocês dois! — Ei, calma aí irmão... só estamos tirando uma casquinha! Mas diz aí, não acha isso muito estranho? — No ínicio sim, mas depois que conversamos... pude ver a sinceridade em seu olhar! Nem todos conseguem ser tão transparentes quanto ela... — Acredite ou não, mas essa mulher já bagunçou sua cabeça mais do que qualquer uma em anos! talvez seja extamente disso que você precise... — comentou Adriel. Olhei novamente para a porta por onde ela havia saído e o meu coração se apertou. Destino ou não, uma coisa é certa... se eu a trouxer para dentro da minha casa, nada permaneceria como antes. E, pela primeira vez em minha vida, não sabia se isso me assustava... ou me atraía. — Vai fingir que isso é normal, cara? — provocou Adriel. — Uma mulher idêntica à sua ex-esposa aparece numa boate no Brasil, te enlouquece, desaparece... e dias depois b**e à sua porta pedindo emprego como babá? — Não é idêntica! — retruquei, seco. — E isso não significa nada! — Claro que significa, isso se chama destino! — Não existe destino! — Decidiu se vai ou não dar essa vaga a ela? — indagou Adrian. — Não vou contratá-la! — Na casa tem câmeras... por que não tentar? — questionou Liam se colocando de pé. De nós três, ele é o mais parecido comigo. O único que foi criado com mais liberdade para curtir foi Adriel, ele não sofreu tanto quanto nós dois nas mãos do nosso pai. Adriel casou-se por vontade própria, mas tenho pena da pobre coitada. Ao final do expediente, fomos os três sair para beber e relaxar um pouco.






