Mundo de ficçãoIniciar sessãoCapítulo 3: Adam...
No dia das entrevistas para a nova babá, acordei mais irritado do que o normal. Talvez pela falta de sono ou pela sensação incomoda de que algo estava prestes a acontecer e sair do meu controle. Acordei com zero paciência... a última babá pediu demissão sem aviso, alegando que o ambiente é emocionalmente pesado. Uma definição ridícula, afinal, eu pago muito bem, ofereço estabilidade, estrutura e o restante não é problema meu. A mansão estava silenciosa, provavelmente ainda dormiam. Os funcionários se moviam em silêncio, evitando o meu olhar como sempre... Bastaram poucos segundos para o caos se apresentar... Paralisei com o que eu vi. — O que é isso nas suas orelhas, Erick? — vociferei ao ver o meu primogênito descendo as escadas. Erick me encarou com desafio, brincos nas duas orelhas e aquela expresão provocativa em seu rosto... É sempre assim! — Primeiramente, bom dia, senhor Carter! E segundo isso é apenas brincos... — respondeu como se falasse com uma pessoa qualquer. — Tire isso imediatamente! Ele sorriu, um riso curto. — Claro... porque você manda em tudo, não é ? — Enquanto viver sob este teto, exijo que respeite as regras! — rebati. — Tire isso imediatamente! Ele riu, uma risada debochada que fez o meu sangue ferver. — Engraçado falar em regras... porque presença nunca foi uma delas para para o senhor, não é? Suas palavras me atingiram como um golpe e antes que eu pudesse responder, ele prosseguiu, com a voz carregada de ressentimento. — O senhor nunca esteve aqui... nunca foi pai de verdade! Sempre terceirizou tudo. Funcionários, babás e principalmente os filhos e o amor! Cerrei os punhos. — Não fale o que não sabe! — Eu sei perfeitamente, senhor Carter! Todos sabemos, a diferença é que Ella ainda tenta te defender e encontrar justificativas para o seu sinismo! Dói ouvir a verdade não é? O senhor nunca foi pai de verdade, sempre ausente, trabalhando... a mamãe morreu sozinha e você nem estava lá! O meu punho se fechou instintivamente, a dor veio misturada a culpa e a fúria. — Cala a boca! — gritei. — Viu? É sempre assim... não sabe conversar... só sabe mandar! Antes que a discussão piorasse, Ella apareceu no topo da escada. Doce como sempre, os olhos grandes e cheios de preocupação. — Papai... por favor, não briga com ele! — pediu segurando a minha mão. — Por favor! Respirei fundo, sentindo o peso do momento e sabendo que ela era doce demais para aquele tipo de ambiente. Diferente o irmão gêmeo, que parecia fazer questão de me desafiar a cada oportunidade. — Lucas, para! Não vale a pena... Ele revirou os olhos, claramente irritado, mas deu um passo para trás. — Você sempre defende ele! — Vá para o seu quarto! Conversaremos depois! — ordenei sem alterar a voz. Subiu irritado indo para o seu quarto. Ella permanceu ao meu lado, ainda segurando a minha mão. — Ele só está machucado, papai! Sentimos falta da mamãe e também a sua... — disse baixinho. Engoli em seco, não sabia o que responder. Pousei um beijo em sua testa e me afastei antes que aquela conversa me desmontasse. Minha mãe pediu para Ella nos deixar a sós e após deixar um beijo em meu rosto subiu para o quarto. — Até quando vai continuar agindo assim com os seus filhos, Adam? — Só passei aqui para avisar que hoje mesmo vou contratar uma nova babá! Ela aproximou-se de mim e acariciou o meu rosto. — Me perdoa, filho! Tudo isso é culpa minha e do seu pai... se não tivessemos sido tão duros e pensado apenas nos negócios... nada disso estaria acontecendo! Ignorei suas palavras e saí da mansão. No escritório, a pilha de currículos parecia interminável. Uma mulher após a outra entrava, sentava, sorria e se insinuava. Os olhares eram prolongados, as pernas cruzadas de próposito e vozes manhosas para chamar a minha atenção. Extremamente cansativo! Quero alguém para cuidar dos meus filhos, não para disputar espaço na minha cama. E depois da quinta tentativa constrangedora, fechei a pasta com força e afrouxei um pouco a gravata. — Chega por hoje! — anunciei a secretária. — Não vou entrevistar mais ninguém! Ela assentiu, aliviada, e se virou para sair. No entanto, antes que alcançasse a porta, alguém bateu. — Com licença! — disse com um tom de voz doce e sereno. — Não! — respondi impaciente. — As entrevistas acabaram! Houve um breve momento de silêncio, até que a voz soou mais baixa em tom quase suplicante. — Por favor, me dê apenas um minuto! Preciso muito dessa oportunidade... prometo que não vai se arrepender! Prometo não tomar muito do seu tempo! Respirei fundo e irritado. Estava mentalmente exausto, emocionalmente em frangalhos... mesmo que eu jamais admitisse isso em voz alta. — Entre! — disse sem levantar os olhos. — Mas não espere muito! A secretária se retirou, a porta se fechou e passos suaves aproximaram-se da minha mesa. Ainda analisava alguns papéis quando um arrepio estranho percorreu a minha pele. Levantei o olhar e naquele momento o mundo parou... era ela! A mesma garota da boate, o mesmo rosto que me perseguia desde o Brasil. Os mesmos traços que me transportavam diretamente para o passado, para um amor que havia me destruído. A semelhança absurda com o meu primeiro amor fez o meu coração errar as batidas. Por breves segundos, tive a sensação cruel de que o passado havia atravessado o tempo apenas para me assombrar. Ela encarou-me com surpresa, os olhos arregalados e respiração levemente descompassada. — Você... — sussurrou, quase para si mesmo. O meu coração acelerou, a boca ficou seca e o estômago revirou. Malditas sensações para alguém que se orgulha de não sentir nada. O silêncio que se seguiu era denso, carregado de tudo o que não havia sido dito naquela maldita noite, do desejo, da recusa e da obsessão que eu me recusava a admitir. Ela engoliu em seco, recompondo-se. — E... eu não sabia que... — parou e respirou fundo. — Desculpa... se soubesse quem era, talvez não tivesse vindo! Talvez? A palavra ecoou em minha mente como uma provocação. Ela levantou-se e antes que pudesse sair ordenei: — Sente-se! Não queria uma oportunidade... estou lhe dando! — disse, apontando para a cadeira a minha frente. — Ela voltou a se sentar sem graça. — Qual é o seu nome? Trouxe currículo? Ela hesitou por um segundo antes de responder: — Lídia... Ela estendeu o currículo com as duas mãos, como se aquele pedaço de papel carregasse mais do que simples informações profissionais, mas sim a própria esperança. Peguei-o sem desviar o olhar dela, sentindo um incômodo estranho espalhar pelo peito. Os meus dedos tocaram os dela por breves segundos, o suficiente para provocar um choque por todo o meu corpo.






