Mundo de ficçãoIniciar sessãoNunca imaginei que começaria a semana resgatando uma mulher grávida perdida no meio da estrada, mas ali estava eu, estacionando minha caminhonete velha — que, diga-se de passagem, ainda rodava melhor do que a maioria dos carros modernos da cidade — bem na entrada do Snowfall Creek Ranch, com uma desconhecida de vestido floral ocupando o banco do passageiro como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
Alice observava tudo pela janela com atenção demais para alguém que ainda não fazia ideia de onde estava se metendo. Os olhos dela percorriam cada cerca, cada chalé, cada pedaço de terra como se aquilo fosse um cenário bonito — não um lugar que exigia trabalho duro todos os dias para continuar de pé.
Baixinha. Loira. Delicada demais para aquele tipo de rotina.
Parecia saída de uma propaganda cara.
E, ainda assim, tinha uma teimosia irritante.
Bonita demais para o próprio bem.
Meu cérebro insistia em fazer perguntas que não me diziam respeito. Quem era o pai? Onde ele estava? Por que diabos não estava ali? Mas empurrei cada pensamento para o fundo da cabeça antes que ganhassem espaço.
Não era problema meu.
Não queria que fosse.
Assim que desliguei o motor, ela soltou um “uau…” baixo, quase reverente.
Franzi o cenho.
— Não faça essa cara de quem chegou ao paraíso — resmunguei, abrindo a porta. — É só um rancho.
— É lindo — ela respondeu, ainda olhando ao redor. — Muito mais do que eu imaginei.
Revirei os olhos, mas a verdade era que aquele tipo de reação sempre me deixava… desconfortável. Gente que via beleza demais ali normalmente não ficava o suficiente para entender o que aquilo custava.
Desci da caminhonete e fui até a caçamba buscar as malas.
A maior caiu no chão com um baque pesado.
— Cuidado! — ela se aproximou rápido demais para alguém usando salto naquele terreno. — Tem coisas importantes aí dentro.
— Você realmente acha que isso aqui é um spa na cidade? — perguntei, olhando diretamente para os pés dela. — Se pisar na lama, vai afundar.
Ela cruzou os braços, me encarando como se eu fosse um problema interessante.
— Eu não recebi um manual de como me vestir para… isso.
Soltei um breve sopro pelo nariz.
— Próxima vez, traz bota.
— Próxima vez, você pode tentar ser um pouco mais educado.
Ignorei.
Já estava cansado demais para discutir com alguém que claramente não fazia ideia do que era viver ali.
O Snowfall Creek Ranch se abria ao nosso redor, espalhado em hectares de terra que eu conhecia melhor do que qualquer cidade. Cercas de madeira delimitavam os pastos, trilhas levavam aos estábulos e os chalés se espalhavam pelo terreno, todos com varandas simples e cadeiras de balanço que rangiam com o vento.
As luzes de Natal já estavam acesas, espalhadas entre as árvores e telhados, criando aquele clima que encantava hóspedes… e me lembrava demais de coisas que eu preferia não lembrar.
A casa principal dominava a entrada, grande, sólida, com a varanda larga e janelas altas. Aquela casa tinha sido do meu avô. Depois do meu pai.
Agora era minha.
E eu faria qualquer coisa para mantê-la assim.
Quando meu pai morreu, muita gente apareceu com propostas. Dinheiro fácil. Reformas. Transformar aquilo em um resort moderno, cheio de luxo e sem alma.
Nunca considerei.
Enquanto eu estivesse ali, aquilo continuaria sendo o que sempre foi.
A recepção estava tomada pelo Natal — culpa da Rosa, como sempre. Uma árvore enorme ocupava o centro, cheia de enfeites feitos à mão, laços vermelhos e luzes quentes. O cheiro de canela e biscoito recém-assado preenchia o ambiente.
— MARCO! — a voz dela ecoou antes mesmo que eu pudesse falar qualquer coisa.
Ela surgiu atrás do balcão com um suéter vermelho exagerado demais até para ela.
— Achei que só voltaria depois de cuidar dos cavalos.
— Encontrei isso no meio da estrada — falei, apontando para Alice com a cabeça.
Alice me lançou um olhar que, se fosse físico, teria me acertado em cheio.
— “Isso” tem nome.
Rosa riu, se aproximando.
— Claro que tem. Bem-vinda ao Snowfall Creek Ranch, querida. Eu sou Rosa.
O sorriso de Alice mudou imediatamente. Mais leve. Mais… verdadeiro.
— É um prazer. O lugar é maravilhoso.
— Ela é a nova gerente de marketing — acrescentei, antes que aquilo virasse só mais uma hóspede encantada.
O silêncio que veio depois foi rápido… mas suficiente.
Alice virou o rosto lentamente para mim.
— Você podia ter mencionado isso antes.
Dei de ombros.
— Não achei relevante.
— Não achou relevante me dizer que você é meu chefe?
Rosa olhou de um para o outro, claramente interessada.
— Ah, isso vai ser bom — murmurou, mais para si mesma.
— Você é a gerente? — ela perguntou, agora olhando para Alice com atenção redobrada.
— Sou — respondeu, firme.
Rosa sorriu ainda mais.
— Então vamos cuidar de você direitinho. Marco, deixe as malas aqui. Eu levo ela até o chalé.
Assenti, largando as malas ao lado da árvore.
— Se precisar de alguma coisa, fala com a Rosa — disse, limpando as mãos na calça. — Ela resolve.
Alice me encarou por um segundo… e então assentiu.
— Obrigada por me ajudar — disse, mais calma. — Mesmo quase me abandonando na estrada.
— Eu não ia te abandonar — respondi, direto. — Só estava considerando minhas opções.
Um sopro de riso escapou de Rosa.
— Vá, Marco. Já implicou o suficiente por hoje.
Saí antes que a situação se tornasse… qualquer coisa além do que deveria ser.
O ar frio me atingiu assim que pisei do lado de fora, e caminhei pela trilha que levava aos chalés dos funcionários, mais afastados, perto do estábulo. O meu ficava no final, simples, silencioso.
Do jeito que eu precisava.
Entrei, tirei as botas e as deixei no chão. Acendi a lareira, mesmo sem precisar tanto. Gostava do som da madeira queimando. Preenchia o espaço.
O silêncio ali dentro era diferente.
Controlado.
Seguro.
Me aproximei da lareira e encarei a foto no topo da prateleira.
Ela.
Minha esposa.
A mulher que eu amei desde os dezessete anos.
A mulher que eu perdi.
No Natal.
Passei o polegar pela moldura, como se ainda pudesse sentir algo além do vidro frio.
— Mais um — murmurei, baixo. — Mais um Natal sem você.
O fogo estalou.
E, por um segundo, eu pensei no sorriso da mulher de vestido floral parada na recepção.
Afastei o pensamento imediatamente.
Problema.
Ela era um problema.
E eu já tinha o suficiente.







