CAPÍTULO 3: A Entrevista

Sophia / Elena

Segunda-feira amanheceu fria e nublada, acordei às seis da manhã com o estômago embrulhado de nervosismo, hoje era o dia, a entrevista que poderia finalmente me dar respostas sobre quem eu realmente era.

Ethan já estava vestido para o trabalho quando saí do quarto, seu rosto tenso demonstrava preocupação, ele havia prometido me levar até a mansão Reynolds mas seu celular tocou insistentemente enquanto tomávamos café.

— Preciso ir ao hospital agora — disse desligando com expressão sombria — Um dos meus pós-operatórios complicou durante a noite, a paciente está com hemorragia, preciso intervir imediatamente.

— Vai, não se preocupe comigo, vou de táxi — respondi tentando parecer mais calma do que me sentia.

Ele hesitou visivelmente dividido, finalmente assentiu me abraçando apertado.

— Me manda mensagem assim que terminar, qualquer coisa estranha você sai de lá imediatamente, promete?

— Prometo — sussurrei sentindo meu coração apertar.

Depois que Ethan saiu terminei de me arrumar com cuidado excessivo, vesti o conjunto de calça alfaiataria preta e blusa de seda branca, prendi os cabelos loiros em coque baixo elegante, maquiagem leve realçando meus olhos azuis, quando me olhei no espelho vi uma mulher sofisticada e profissional, perfeita para o papel de babá de elite.

O táxi me deixou às dez horas em frente a uma das mansões mais imponentes que já havia visto, cinco andares de pura elegância atemporal, fachada em calcário bege claro impecável, janelas altas com esquadrias pretas, sacadas com grades de ferro forjado trabalhadas em padrões delicados, o portão principal era obra de arte em ferro preto com detalhes dourados, além dele via-se jardim meticulosamente cuidado com topiarias perfeitas, fonte de mármore ao centro.

Respirei fundo, subi os degraus de mármore até a porta principal, apertei a campainha ouvindo o som ecoar dentro, uma mulher de meia idade abriu, cabelos castanhos sem brilho presos em coque severo, rosto comum, uniforme de governanta impecável.

— Srta. Morgan, imagino, a Sra. Catherine Reynolds a aguarda — disse com voz neutra.

Entrei no hall e quase perdi o fôlego, espaço monumental, lustre de cristal imenso, piso de mármore italiano polido até brilhar, escadaria curva majestosa com corrimão de mogno, nas paredes papel adamascado champagne, quadros enormes com molduras douradas, tudo gritava poder estabelecido há gerações.

Segui a governanta até uma sala de estar espaçosa, móveis clássicos em tons de azul marinho e dourado, sofás de veludo, lareira de mármore branco, tapete persa autêntico, sentada em poltrona elegante estava uma mulher de sessenta e cinco anos, postura ereta perfeita, cabelos loiros platinados em corte chanel sofisticado, olhos azuis claros me avaliando, conjunto Chanel, pérolas ao pescoço, a personificação da matriarca da alta sociedade.

— Srta. Morgan, que prazer, sou Catherine Reynolds, avó de Benjamin, sente-se por favor — disse com voz educada mas fria.

Sentei tentando parecer confiante, ela estudou meu currículo fazendo perguntas sobre os idiomas, experiências, disponibilidade, respondi tudo com segurança surpreendente.

— Você é bem qualificada, e sua aparência é adequada, educada, sofisticada — ela disse finalmente — A posição oferece doze mil mensais, você usará roupas sociais discretas em tons escuros, um quarto ficará disponível caso precise ficar, horário das oito às seis segunda a sexta, pode começar imediatamente?

— Sim, posso começar hoje mesmo — respondi sentindo alívio e apreensão.

— Excelente, está contratada — Catherine disse com sorriso frio — Deixe-me mostrar o quarto para deixar seus pertences.

Subimos a escadaria, observei retratos de família nas paredes, fotos formais de pessoas lindas e sérias, o quarto ficava no terceiro andar, pequeno mas luxuoso, cama de solteiro com roupa branca impecável, banheiro privativo, janela com vista para os fundos.

— Deixe sua bolsa, depois voltamos — Catherine disse.

Descemos de volta, atravessávamos o hall quando senti algo pequeno segurar minhas pernas por trás, vozinha aguda me chamando.

— Mãe, você voltou!

Congelei, virei devagar, um menino de cinco anos me abraçava apertado de costas, cabelos pretos bagunçados, quando me virei completamente ele parou, olhou para meu rosto e seus olhos azuis imensos se arregalaram confusos.

— Oh, desculpa — disse envergonhado dando passos para trás — Pensei que era minha mãe, você tem o mesmo cheiro dela.

— Deve ser o perfume querido — Catherine disse com voz suave — Mas veja, essa é Elena e a partir de agora ela ficará com você te ajudando e fazendo companhia.

Ajoelhei ficando na altura dele, sorri tentando parecer calorosa.

— Oi Benjamin, prazer em conhecer você, vamos ser grandes amigos — disse suavemente.

Ele sorriu tímido mas interessado, então me surpreendeu completamente falando em francês perfeito.

— Você realmente fala francês? — perguntou esperançoso.

— Oui, bien sûr — as palavras saíram automaticamente, fluentes e naturais, antes mesmo que pudesse pensar, respondi em francês perfeito como se tivesse falado a língua a vida inteira.

Minha mente congelou por um segundo processando o que acabara de acontecer, meu Deus, como consigo falar francês fluentemente se não lembro de nada da minha vida, a língua simplesmente fluiu de mim sem esforço, sem pensar, como se estivesse gravada profundamente em algum lugar que a amnésia não conseguiu apagar, habilidades linguísticas devem estar em parte diferente do cérebro das memórias autobiográficas, pensei fascinada e assustada ao mesmo tempo.

— E espanhol e italiano também — completei tentando não demonstrar o choque que sentia internamente.

Os olhos de Benjamin brilharam empolgados, ele começou a falar rapidamente em francês sobre coisas que gostava, seus brinquedos, aulas de tênis, respondi automaticamente no idioma dele, era surreal e maravilhoso ao mesmo tempo descobrir essa capacidade escondida.

— Vó, quando minha mãe volta? — Benjamin perguntou de repente voltando ao inglês, alegria sumindo — Ela está fora há muito tempo, sinto saudade.

Catherine ficou visivelmente tensa, sorriso forçado.

— Logo meu amor, sua mãe está apenas viajando, sempre ocupada com projetos — respondeu vagamente — Agora deixe-me mostrar onde Elena guardará as coisas e então você pode ficar com ela.

Catherine me mostrou rapidamente a casa, biblioteca enorme, sala de música com piano de cauda, sala de jantar formal, cozinha profissional, playroom no segundo andar cheio de brinquedos educativos, tudo impecável, perfeito demais.

— Preciso sair para compromissos — Catherine se despediu no playroom — Benjamin, comporte-se.

Passei horas brincando com ele, ensinando palavras em italiano que descobri falar tão fluentemente quanto francês, lendo histórias, ele era inteligente demais para a idade, curioso sobre tudo, enquanto organizávamos brinquedos vi porta-retrato em prata na estante, peguei curioso.

A foto mostrava homem incrivelmente bonito segurando Benjamin bebê, alto claramente, ombros largos, terno impecável, cabelos pretos perfeitamente penteados, mas era o rosto que me prendeu, mandíbula forte, traços marcados, olhos azuis intensos penetrantes, ele sorria mas havia algo intimidador apesar da beleza absurda, algo dentro de mim reagiu visceralmente, medo misturado com raiva misturado com algo indefinível.

— Esse é meu pai, Alexander Reynolds — Benjamin disse orgulhoso — Ele é muito importante, trabalha muito.

Fiquei olhando fixamente para aquele rosto, as mãos tremendo levemente ao devolver o porta-retrato.

— Ele é bonito — comentei tentando soar casual.

— É o homem mais bonito do mundo segundo minha mãe — Benjamin disse inocentemente — Ela sempre dizia isso.

Sempre dizia, passado, onde estava a mãe dele afinal, antes que pudesse pensar mais ouvi passos firmes subindo escadaria, passos pesados, masculinos, decididos.

— Pai! — Benjamin gritou empolgado correndo para a porta.

Virei instintivamente, e então ele estava lá, congelei completamente vendo aquele homem das fotos em carne e osso, ainda mais imponente pessoalmente, alto demais, ombros largos sob terno grafite impecável, cabelos pretos brilhantes, e aqueles olhos, olhos azuis penetrantes demais.

Benjamin correu até ele gritando animado.

— Pai, pai, essa é Elena, minha nova babá, ela fala francês, espanhol e italiano, e pai, ela tem o mesmo cheiro da mãe!

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