Mundo ficciónIniciar sesiónSophia / Elena
Três meses, noventa dias exatos desde que acordei naquela maca sem saber quem era, e a memória continuava sendo um abismo vazio e aterrorizante, cada manhã acordava esperando que algo tivesse voltado, algum fragmento, mas nada, apenas o vazio constante me acompanhando como uma sombra inescapável.
Me olho no espelho todos os dias e só vejo uma estranha, lindíssima mas não a reconheço, meus cabelos loiros platinados com luzes caríssimas caem em ondas perfeitas pelos ombros, já precisam de retoque nas raízes que começam a escurecer, minha pele de porcelana é impecável sem uma única imperfeição, maçãs do rosto altas e delicadas, nariz pequeno perfeitamente proporcionado, lábios cheios e rosados naturalmente, mas são meus olhos que mais me hipnotizam, azuis intensos como o oceano em tempestade, emoldurados por cílios longos e escuros, profundos demais, como se guardassem segredos que nem eu mesma consigo acessar.
Morar com Ethan nos últimos três meses havia sido a única constante em minha vida caótica, ele me acolheu em seu penthouse luxuoso no Tribeca, trezentos metros quadrados com vista panorâmica para o Hudson River, decoração moderna sofisticada, obras de arte nas paredes que provavelmente custavam fortunas, ele separou um dos quartos de hóspedes especialmente para mim, mandou decorar com tons suaves de azul e branco, encheu o closet com roupas de grife sem nem consultar meus gostos.
Ethan trabalhava incansavelmente no consultório particular na Park Avenue atendendo a elite de Manhattan, tinha clientes que pagavam para ele voar até eles em seu jatinho particular, mas sempre voltava para casa no horário do jantar quando possível, jantávamos juntos conversando sobre tudo, ele tentando me fazer sentir normal apesar do caos da amnésia.
Nos fins de semana me levava para lugares diferentes tentando despertar memórias, visitamos museus, caminhamos por Central Park, fomos a concertos de jazz, mas nada despertava reconhecimento, era como experimentar tudo pela primeira vez.
O momento mais especial foi três semanas atrás quando ele viajou a trabalho para Miami e me levou junto, voamos no jatinho dele, eu fascinada olhando pela janela enquanto ele pilotava com segurança absoluta, ficamos no Faena Hotel, caminhamos descalços pela praia ao pôr do sol, jantamos em restaurantes cubanos, foi libertador, mágico.
Foi naquela viagem que percebi algo mudando dentro de mim em relação a Ethan, meu coração acelerava quando ele sorria daquele jeito despreocupado, observava detalhes pequenos, como passava a mão pelos cabelos quando pensativo, como seus olhos azuis claros brilhavam quando falava de cirurgias complexas, como era gentil com todos demonstrando caráter genuíno, estava me apaixonando sem poder controlar.
Mas Ethan mantinha distância respeitosa sempre, carinhoso sim, atencioso, protetor, mas nunca cruzava linhas invisíveis, eu não sabia se não sentia nada além de compaixão ou se estava sendo profissional demais, a incerteza era torturante mas não tinha coragem de arriscar perguntar.
Naquela manhã de sábado acordei quase dez horas, Ethan estava no consultório finalizando papelada, tomei banho demorado, vesti um vestido azul petróleo que realçava meus olhos, prendi os cabelos em coque bagunçado, estava na cozinha preparando um smoothie quando ouvi o elevador privativo.
— Elena, chegaram seus documentos — Ethan apareceu segurando envelope pardo, sorriso largo iluminando seu rosto — Perfeitos como sempre.
Peguei com mãos trêmulas, abri cuidadosamente, lá dentro estava minha vida inteira como Elena Morgan oficialmente documentada, carteira de motorista com minha foto mostrando aquela mulher loira linda, passaporte novinho, cartão de seguro social, certidão de nascimento.
— Agora você existe oficialmente — Ethan disse suavemente — Tem liberdade.
Passamos o resto da manhã relaxando, pedimos comida japonesa para o almoço, conversamos evitando o elefante na sala que era minha memória perdida, estava começando a me sentir confortável quando meu celular tocou na mesa de centro, número desconhecido de Manhattan, olhei para Ethan confusa antes de atender.
— Alô?
— Boa tarde, posso falar com a Srta. Elena Morgan? — voz feminina profissional perguntou.
— Sou eu — respondi cautelosa.
— Excelente, aqui é Sharon da Agência Elite Staffing, estamos ligando sobre sua candidatura para a posição de babá em tempo integral — ela disse e meu mundo parou, candidatura, quando, por quê, não lembrava de nada — Desculpe a demora no retorno, mas seu currículo impressionou muitíssimo, especialmente suas qualificações linguísticas, fluência em francês, espanhol e italiano é extremamente rara e exatamente o que a família procurava, eles ficaram muito interessados em conhecê-la pessoalmente.
Minha mente girava processando, então algo estranho aconteceu, uma imagem flash rápida, eu sentada em café digitando em laptop, preenchendo formulário online, mãos tremendo de nervosismo e determinação, era uma lembrança, fragmentada mas real.
— Srta. Morgan, você ainda está aí?
— Sim, desculpe, você me pegou de surpresa — admiti tentando manter voz firme — Pode me dar mais detalhes?
— Claro, a família Reynolds reside em Upper East Side, têm um filho de cinco anos chamado Benjamin, a posição oferece salário de doze mil mensais mais benefícios, suas responsabilidades incluiriam cuidados gerais e principalmente tutoria em idiomas já que a família quer que a criança seja exposta ao francês, espanhol e italiano desde cedo, você voltaria para sua casa todas as noites mas teria um quarto disponível na propriedade caso precise ou prefira ficar.
Família Reynolds, Upper East Side, o nome ecoou despertando algo profundo e perturbador, não era memória clara mas sensação visceral, medo misturado com determinação férrea, raiva antiga pulsando, algo intenso demais para ignorar, senti Ethan se aproximar colocando a mão no meu ombro em apoio silencioso.
— A família gostaria de entrevistá-la segunda-feira às dez da manhã na residência deles — Sharon continuou profissionalmente — Posso confirmar sua presença Srta. Morgan?
Deveria dizer não, era óbvio que havia algo perigoso nisso, olhei para Ethan buscando orientação, vi preocupação em seus olhos mas também compreensão, ele sabia que aquela era minha única pista sobre quem eu tinha sido.
— Sim, estarei lá — respondi antes que coragem falhasse.
— Perfeito, vou enviar o endereço e detalhes por e-mail imediatamente — Sharon disse satisfeita — Boa sorte na entrevista Srta. Morgan, a família Reynolds tem padrões muito altos mas acredito que você os impressionará.
A ligação terminou deixando silêncio pesado na sala, minha mão ainda segurava o telefone tremendo levemente, Ethan se ajoelhou na minha frente segurando meu rosto com as duas mãos me forçando a olhar para ele.
— Esse nome significa algo para você? — perguntou com voz tensa.
— Não sei explicar — admiti sentindo aquela sensação estranha crescendo no peito, engolindo em seco — Não é memória clara, não consigo ver nada concreto, mas quando ela disse Reynolds senti algo aqui — toquei meu peito onde o coração batia descompassado — Medo, muita raiva, alguma coisa que não consigo nomear, é intenso demais para ser coincidência, Ethan, esse nome significa alguma coisa para mim, só não sei o quê.
Vi seu rosto empalidecer, a preocupação se intensificando, ele me puxou para abraço apertado, senti seu coração batendo acelerado contra meu ouvido.
— Não precisa ir, pode ser perigoso, pode ser exatamente o lugar de onde você estava fugindo — murmurou contra meus cabelos, havia medo real em sua voz.
Mas eu já sabia que iria, não tinha escolha, aquela era minha única chance de descobrir a verdade, de recuperar os pedaços perdidos de quem eu era, e nada, nem mesmo o medo, nem mesmo o conforto daquele abraço seguro, me faria desistir agora.
— Preciso saber quem sou — sussurrei contra seu peito — Essa é minha única pista, não posso desperdiçar.
Ethan suspirou pesadamente mas não tentou me convencer do contrário, apenas me abraçou mais forte como se tentando me proteger de algo que ainda estava por vir.







