Mundo de ficçãoIniciar sessãoAura Keller
Eu fechei a mala com força. Só duas. Nada além do essencial. Roupas, documentos, o notebook e a pasta preta com o contrato de divórcio já assinado por mim e por Miguel. Não queria levar mais nada que me lembrasse dessa casa. Não queria levar mais nada que me lembrasse dele.
Olhei ao redor do quarto de hóspedes uma última vez. Desci as escadas devagar, arrastando as duas malas. O coração batia pesado no peito, mas eu não chorava mais. Eu só queria ir embora.
Quando cheguei na sala, meus olhos foram direto para a parede acima do sofá. Lá estava a foto do nosso casamento. Eu de branco, sorrindo como uma idiota. Miguel me olhando como se eu fosse o amor da vida dele. Eu parei na frente da foto. Por um segundo, quis acreditar que aquilo tinha sido real. Que ele realmente me amou um dia.
Mas eu sabia a verdade agora.
Virei para a cozinha, abri a gaveta e peguei uma faca grande. Voltei para a sala e, sem hesitar, enfiei a lâmina no meio da foto. Rasguei de cima a baixo. Depois cortei mais uma vez, e mais outra. Pedaços do nosso sorriso, do nosso "felizes para sempre", caíram no chão.
"Menina, o que você está fazendo?!"
Dona Sônia apareceu correndo da cozinha, assustada.
Eu soltei a faca na mesa e respirei fundo.
"Acabando com o meu sofrimento." respondi, a voz cansada.
Ela olhou para os pedaços da foto no chão e depois para mim. Seus olhos marejaram.
"Aura..."
"Eu só posso te agradecer por tudo, Sônia. Por ter cuidado de mim todos esses anos. Por ter sido mais mãe do que qualquer outra pessoa nessa casa. Mas eu estou indo embora. Pra mim já deu. Eu não posso mais lidar com isso. Não quando agora ele também trás a amante para debaixo do nosso teto."
Dona Sônia deu um passo à frente e segurou meu rosto com as duas mãos.
"Você está fazendo o certo, minha filha. Eu sabia que um dia isso ia acontecer. Eu só não sabia se você ia ter força pra ir. Mas você tem. E se um dia precisar de mim, pode ligar. A qualquer hora."
Eu a abracei forte. Foi o abraço mais sincero que eu dei em muito tempo.
"Obrigada por tudo."
Saí pela porta da frente sem olhar para trás. O Uber já estava esperando. Coloquei as malas no porta-malas e entrei no carro.
"Cartório Central, por favor." pedi.
O motorista assentiu e seguiu. Eu segurei a pasta contra o peito. Precisava registrar o divórcio o quanto antes. Depois eu mesma iria cuidar da separação das empresas. Eu seria minha própria advogada. Eu não confiava mais em ninguém.
Quando o carro parou em frente ao cartório, desci arrastando uma das malas. Caminhei em direção à entrada, quando senti a mala escorregar da minha mão e quando fui abaixar para pegá-la, acabei esbarrando em alguém e quase caí no chão. Uma mão forte me segurou.
"Cuidado."
Eu levantei o rosto e congelei.
Era ele.
O homem do hotel. O homem que me escondeu dos dois caras que Beatriz mandou atrás de mim. O homem que me salvou.
Ele me olhou por um segundo e depois sorriu de lado, como se tivesse me reconhecido imediatamente.
"Eu fiquei esperando você me ligar." disse ele, a voz baixa e calma.
Eu arregalei os olhos, sem conseguir formar uma frase coerente.
"Eu... eu... me desculpa. Eu não tive tempo... Muita coisa aconteceu depois que eu acordei..."
Ele olhou para a mala que eu arrastava, depois para a pasta preta que eu segurava contra o peito, e depois para o meu rosto inchado de tanto chorar.
"Está de viagem?" Perguntou, curioso, mas sem pressão.
Eu engoli em seco.
"Eu... saí de casa. Depois do que aconteceu ontem. Vim só protocolar meu divórcio e depois vou para um hotel. Não tenho mais pra onde ir."
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, as mãos dentro dos bolsos do terno. Observava-me com atenção.
"Advogada." disse ele, quase como se estivesse falando consigo mesmo. "Interessante."
Eu franzi a testa.
"Como você sabe que eu sou advogada?"
Ele deu de ombros.
"Você fala dormindo. Falou que era advogada e que ia resolver tudo sozinha."
Eu não lembrava de ter dito isso. Mas também não lembrava de muita coisa.
Ele continuou, agora olhando direto nos meus olhos:
"Se precisar, posso te ajudar com a hospedagem. Tenho um apartamento vazio em um bom prédio. Bem seguro. Você pode ficar lá o tempo que precisar."
Eu o encarei, desconfiada.
"E o que você quer em troca?"
Ele sorriu de novo. Dessa vez o sorriso era diferente. Mais sério.
"Eu preciso me casar em um mês."
Eu pisquei, certa de que tinha ouvido errado.
"O quê?"
"Eu preciso me casar em um mês" repetiu ele, calmo. "E como eu te salvei ontem, achei que você poderia retribuir o favor."
Eu dei um passo para trás, ainda segurando a mala.
"Você está me pedindo pra me casar com você?"
"Sim."
Eu ri, incrédula. Um riso nervoso, quase histérico.
"Você nem me conhece. Eu mal sei seu nome. Ontem você achou que eu estava louca ou drogada. E agora você quer que eu case com você? Anda, onde está a pegadinha. Você também foi contratado pela Beatriz?"
Ele deu de ombros novamente, como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.
"Eu sei o suficiente. Você é advogada. Está saindo de um casamento ruim. Precisa de um lugar pra ficar. E eu preciso de uma esposa de fachada por um tempo. É só por um ano. Depois a gente se divorcia. Sem drama. Sem complicação."
Eu fiquei olhando para ele, sem conseguir processar.
"Por quê?" Perguntei, a voz baixa. "Por que você precisa se casar tão rápido?"







