CAPÍTULO 6.1

- Oh meu Deus! Eu não acredito que você é a porra da Gi. Minha nossa! – Certo. Talvez eu realmente estivesse muito eufórica, mas enfim o grande dia havia chegado e alguém tinha que estar nas nuvens. Com certeza esse alguém não era Giovanna. Ela estava alheia a tudo, como esteve nos últimos dias. – O carro está aí – avisei, tentando animá-la. Em seguida, peguei a sua bolsa que estava sobre a penteadeira e entreguei a ela.

Ela deu uma última olhada no espelho. Estava bela, mas seus olhos tristes não combinavam com todo o resto. Seguimos para o evento em grande estilo, com chofer e tudo o mais. Quando chegamos ao local, já havia alguns repórteres que tiravam fotos e perguntavam qual de nós era a autora, e quando eu falo “nós” refiro-me a mim, a Giovanna e todas as outras meninas que vieram em carros idênticos para gerar certa confusão na imprensa. Tenho que admitir que em termos de marketing, Luci fez um belo trabalho com todo esse suspense.

Logo que entramos no prédio, Lucy nos arrastou para uma sala fechada. – Graças a Deus vocês chegaram. – Giovanna sentou-se em uma cadeira confortável no canto, enquanto eu andava de um lado para o outro do cômodo. Eu estava nervosa por tudo que aconteceria naquela noite, mas principalmente por tudo que vinha acontecendo nas semanas anteriores. Mais cedo, eu tive uma conversa com Lucy sobre as minhas preocupações em relação a Gi e toda essa tensão que pairava sobre ela, se eu estivesse correta, agora seria o momento em que Luci faria algum discurso motivacional para Giovanna – Como você está? – Lucy questionou. Correspondendo as minhas expectativas.

- Eu estou bem.

- Você não tem que me dizer isso. Eu sei que você não está bem coisa nenhuma, mas esse é o seu momento. Sua carreira. As pessoas que estarão aqui hoje querem te conhecer de verdade. Muitas delas estão te acompanhando há anos e estão curiosas para saber se aquela Gi com quem eles conversavam pelas redes sociais, embora nunca tenham visto a sua cara, seja a mesma pessoa. Eu sei que você está enfrentando uma barra e sei que você acaba de ter uma perda muito significativa na sua vida. É mais do que perder alguém, é perder a fé nas pessoas. Porém, você tem muitas razões para seguir adiante. Esse filho que você carrega aí dentro é a principal delas e esse outro filho que veio daí de dentro e que está nascendo hoje para o mundo é outra. Se agarre ao que você tem e siga em frente.

- Você está certa. Eu não estou bem, mas vou ficar e farei desta noite um sucesso.

- É assim que se fala.

Silenciosamente eu torcia para que isso de fato ocorresse. Fiz o que pude para mantê-la ao menos alimentada nos últimos dias, mas mesmo isso foi uma luta. Eu estava preocupada com ela e com o bebê.

Os pais de Gi chegaram e a cada minuto que se passava, meu coração batia um pouquinho mais rápido com a expectativa da chegada de Tony. Ele disse que viria, mas mesmo que ele não tivesse dito qualquer coisa, eu não pensaria diferente. Antony tem estado quase tão presente na vida de Giovanna como eu, de forma que é impensável que ele não estivesse presente hoje.

Contrariando tudo o que eu disse quando terminamos e mesmo depois quando conversamos, eu ainda o queria em um nível intenso. Cada célula do meu corpo ansiava pelo seu toque, pelo som da sua voz, pelo pulsar da veia em seu pescoço, pelo subir e descer do seu peito a cada respiração. Eu fracassara. Eu ainda o mantive longe. Tentei seguir adiante e me convencer de que o que aconteceu foi bom do ponto de vista sexual, mas não tinha como ser nada além disso. A verdade, embora, é que nada saiu como eu esperava. Eu me envolvi emocionalmente, mas a recíproca não foi verdadeira. Mesmo ele tendo se desculpado pelas bobagens que falou quando terminamos o breve relacionamento, a verdade era que eu, realmente, não era moldada para ser a submissa que ele esperava e nunca seria. É verdade também que Antony não espera nada além de uma relação DOM/SUB. Sem mais.

Tentei lembrar em quantos lugares Antony me levou e me apresentou como sua namorada pelo menos. E a resposta foi: Nenhum. Eu era a contratada de marketing, sua amiga, apenas sua, para os amigos do clube, mas nunca sua namorada ou qualquer coisa parecida. De alguma forma, nada disso era suficiente. Eu queria tudo.

Ou nada.

E era por essa razão que estávamos exatamente neste ponto.

A família Mazza – desfalcada pelo traste do Mateo, obviamente – chegou e foi direcionada para a sala onde nós estávamos. Ele cumprimentou a todos os presentes e eu falei com todos os recém-chegados. Apenas depois que ambos não tínhamos mais com quem falar permitimo-nos um cumprimento estranho. Ele estava estranhamente quieto e eu estranhamente tensa. Se eu fosse honesta, diria que apenas no meu caso não havia nada de estranho, já que a tensão ocupou o meu corpo nas últimas semanas. Mas ainda tinha o que aconteceu há dois dias na Mazza. Ele não ligou para anular o nosso contrato ou qualquer coisa parecida. Então eu supunha que o que eu fiz não teria grandes consequências. Pelo menos eu esperava por isso. Nada foi dito sobre as fotos. Também, nada foi perguntado por mim.

Giovanna faria primeiro um pronunciamento, depois uma rodada de perguntas e respostas, que segundo Lucy era para acalmar os repórteres e só então, a sessão de autógrafos e fotos. Na tentativa de ser útil, somada à tentativa de evitar Antony, eu mesma fui diversas vezes até o salão em busca de notícias sobre a movimentação no salão principal. Estava lotado. No horário combinado, Giovanna foi levada para a parte de trás do palco montado para o evento e todos nós tomamos nossos lugares no salão.

- Nervosa? – A voz rouca chamou minha atenção para o assento ao meu lado. Ele estava se acomodando à minha esquerda. Sentados à minha direita estavam os pais de Giovanna e à esquerda de Antony estavam os Mazzas.

- Sim. É impossível não ficar. É inacreditável que ela seja... bem, a minha autora predileta. Falei olhando para o local onde ela apareceria em breve, evitando contato visual com Tony.

- É mesmo incrível. Bem ali, embaixo do nosso nariz e no entanto...

- É – Sem saber mais o que dizer e me lembrando da maneira que ele me olhou quando eu agredi o seu irmão bem dentro da sala de reuniões da sua empresa, eu tomei coragem e olhei diretamente em seu rosto, pela primeira vez desde que ele sentou-se. Seus olhos estreitaram-se como se tentassem ver além do que eu estava demonstrando.

- Como você está?

- Bem.

- Não parece.

- Uau! Isso foi um elogio? – ele não respondeu. Seus olhos não se moviam do meu rosto – Por que você diz isso?

- Você está tensa, Penélope. Eu posso dizer isso só de olhar pra você.

- Se você está falando isso por causa do que aconteceu com o seu irmão...

- Não tem nada a ver com isso. Eu até acho que ele merecia isso. Mas você está diferente. Eu me pergunto se é por minha causa ou se tem outro motivo.

- Precisa de mais motivos? Já não é o suficiente tudo que está acontecendo a minha volta? E só pra deixar claro, não é sobre você. Pelo menos não diretamente. – Eu estava praticamente sussurrando. Agradecida pelo burburinho dos convidados que nos davam uma sensação de que não estávamos sendo ouvidos.

- Está falando de Giovanna?

- Também. Tudo isso que está acontecendo com ela me deixou preocupada. Ela está sofrendo e dói não poder fazer nada sobre isso. Além do mais, tem a saúde dela, do bebê, as incertezas pelo que está por vir... eu não consigo e nem quero estar de fora disso. Mas eu estou esperançosa que as coisas melhorem com esse evento e ela possa se ocupar da carreira dela e do bebê apenas. Até lá eu quero estar perto e disponível pra o que ela precisar.

- Também? O que mais a preocupa?

- Você sabe.

- As fotos? – ele arqueou as sobrancelhas, mas não afastou os olhos dos meus.

- Sim.

- Aconteceu algo mais desde a última vez que falamos?

- Não. Justamente por isso. É horrível viver na expectativa de que algo ruim vai acontecer a qualquer momento. Às vezes eu me pego desejando que essa pessoa, seja quem for, aja de uma vez independentemente das consequências.

Ele suspirou audivelmente – Eu estou trabalhando nisso, querida – querida? Faz um tempo, desde que ele me chamou por nomes carinhosos. Sua mão cobriu a minha, que descansava sobre a minha perna – Não se preocupe. – seus olhos estavam em um tom de verde intenso, escuro, e pareciam querer falar por ele, mas o quê? Eu queria segurar a sua nuca e puxá-lo para mais perto, onde os meus lábios pudessem alcançar os seus.

- Senhoras e Senhores. – A voz de Luci quebrou o clima e eu fiquei consciente do quão perto eu estive de perder o controle. – Nós gostaríamos de agradecer a presença de todos vocês aqui esta noite. É compreensível que estejam ansiosos por conhecer a nossa talentosa escritora de romances. Romances esses que foram verdadeiros sucessos de venda. Ao ponto de um deles ser selecionado para uma adaptação para a telona... – Luci continuou falando e eu tive que fazer um esforço para esquecer a proximidade dele.

Quando Giovanna apareceu, foi um completo frenesi. A imprensa estava enlouquecida para ter uma imagem da misteriosa Giovanna Greco. Eu a conhecia o bastante para identificar seu nível de ansiedade, mas a medida em que ela começou a falar, era como se ela estivesse descobrindo um lado dela que nem ela mesma conhecia. Depois de cumprimentar os presentes ela discursou para nós

- Bem, eu gostaria de começar agradecendo a cada um de vocês por estarem aqui hoje. Vocês não têm ideia do quanto isso significa pra mim. Mas eu quero agradecer não apenas por isso. Durante os últimos anos, muitos de vocês acompanharam o meu trabalho e, apesar de não terem visto meu rosto ou ouvido a minha voz, eu posso dizer que vocês viram a melhor parte de mim. Quando eu decidi publicar o meu primeiro livro, tudo o que eu queria era que ele fosse lido e que as pessoas gostassem dele. Mas vocês superaram todas as minhas expectativas e fizeram isso acontecer. Vocês já devem ter percebido o quão tímida eu sou, no entanto, vejo que o que nos une é muito maior. Maior que eu, maior até que a minha timidez. Mas eu não deveria me surpreender, afinal, não é isso que fazem os livros? Eles nos mostram o mundo, unem as pessoas, mudam o mundo... Então, eu gostaria de dizer que eu estou feliz de estar aqui hoje e é um prazer conhece-los... de novo. Obrigada.

Mais uma onda de aplausos e os repórteres se aproximaram para fazer as perguntas. Uma equipe os organizou e Lucy colocou nossa estrela sentada diante de uma mesa retangular de vidro, em seguida, acomodou-se ao seu lado. À direita de Giovanna estava um representante da indústria cinematográfica que estava cuidando do filme inspirado em um dos livros da minha amiga.

– Srta. Greco – começou o primeiro repórter – primeiro eu quero parabeniza-la por todo o sucesso. Em seguida, você deve imaginar o quanto nós estamos surpresos com esta revelação. Você tem uma coluna fixa no nosso blog e não tínhamos ideia de que trabalhávamos com ninguém menos que a escritora mais badalada do momento. Eu estou impressionado. Agora, quanto a minha pergunta, qual foi o real motivo de você ter se mantido anônima por tanto tempo.

 - Olá Gerard. Bem, como eu disse, quando eu publiquei o meu primeiro livro, eu só queria que as pessoas gostassem dele. Nunca esteve nos meus planos uma publicidade pessoal. Claro que todo mundo quer o seu trabalho reconhecido e eu tinha isso, mesmo não aparecendo. Eu me sentia realizada com a recepção que a obra teve, com os recadinhos que eu recebia e ainda recebo dos meus leitores. O feedback que fez com que eu aprimorasse meu trabalho ao longo do tempo... As pessoas amaram as histórias e isso era tudo o que eu queria. Eu sou uma pessoa muito reservada. Então, eu diria que timidez foi o principal ingrediente. Além disso, eu devo acrescentar que a segurança para escrever veio aos poucos. À princípio era um prazer... um escape... algo para me satisfazer. Como eu disse, eu sou muito tímida, então o primeiro livro é o oposto de como as pessoas me vêm. A Meg é desinibida, ela fala o que tem vontade e nada fica sem uma resposta dela. Só pra vocês terem uma ideia, muitas das falas da Meg, são coisas que eu queria ter dito em determinadas situações e não disse...

- Ela está se saindo muito bem – comentou Tony, chamando a minha atenção pra ele, justo quando eu tinha conseguido me concentrar na entrevista,

- Sim.

As perguntas continuaram ainda por um longo tempo. Tanto Luci com o cara do cinema responderam algumas delas e então chegou o momento tão esperado para os leitores. Todo mundo queria ter algum tempo, por menor que fosse, com Giovanna. Ela seguiu para a parte dos autógrafos, enquanto eu, os Grecos e os Mazzas agrupamo-nos em um canto próximo para comentar sobre a noite.

Em um determinado momento eu, que estava ao lado de Tony, senti sua respiração mudar repentinamente e quando olhei pra ele vi que a sua atenção estava em outro lugar. Meu coração pulou uma batida quando eu vi de que se tratava. Matteo estava parado diante de Giovanna. Ele estava tão horrível quanto esteve há dois dias e por um instante, ínfimo na verdade, eu senti um pouco de compaixão pelo seu estado. Mas logo passou quando eu olhei para Giovanna.

Assisti paralisada quando ele disse algo e empurrou um exemplar do livro pra ela. Eles trocaram algumas palavras. A tensão entre eles era clara, mas felizmente não era notória para quem não sabia de tudo.

Surpreendeu-me a tranquilidade que Giovanna manteve em seu semblante enquanto falava com ele. Eventualmente ele se afastou um pouco. Parecia surpreso. Não. Abalado descreveria melhor. Seu rosto tinha uma expressão de espanto, como se tivesse levado um soco. Ela empurrou o livro de volta pra ele, disse algo mais, então ele agarrou-o, virou-se e saiu.

- Merda! – Antony exclamou e foi em direção à saída.  

Eu achei que o próximo passo seria Giovanna desabar em lágrimas na frente de todo mundo. Mas ela me surpreendeu demonstrando autocontrole e a noite seguiu conforme o planejado.

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