2 - O cofre para malfazejos

            – Espera, deixa eu ver se eu entendi. Dessa vez não é só um passeio? A gente... a gente vai ser pago?

            – Isso. Lena não deu todos os detalhes, mas parece que convenceu o tio dela de que a gente pode se livrar de um problema para o amigo de um amigo dele. E que esse amigo é alguém importante no sindicato dos quitandeiros da Redinha, e que...

            – Tá, tá, informação demais. Eu só quero ter uma noção, mais ou menos, de quanto vai dar pra cada um.

            – ...

            – Você não faz ideia, né?

            – Eu não perguntei. Achei que seria indelicado.

            – Puta que pariu, Laura.

            Nandini segurava o isqueiro sobre a caixinha de metal com uma das mãos e derretia uma vela com a outra. A cera pingava sobre uma pequena fenda no topo, lacrada precariamente com um curativo descartável, daqueles que se vendem em farmácias. A tinta da caixinha estava descascada no formato de desenhos e símbolos estranhos, como se alguém a houvesse riscado com uma faca. A frente da caixinha tinha uma portinha, usualmente trancada com um cadeado. Não hoje. Ela estava aberta, e dentro havia um chumaço de algodão meio amassado e úmido de sangue, como se tivesse acabado de ser pressionado meio de qualquer jeito contra um ferimento. Não muito, apenas suficiente para que o sortilégio funcionasse.

            Sangue não era material desperdiçável.

            Enquanto a cera sobre a fenda coberta com curativo endurecia, Nandini seguia falando alto para o telefone celular, ligado no viva-voz, pousado sobre um livro escolar grosso:

            – Onde a gente se encontra?

            – No terminal da Redinha. – Laura respondeu. – Eu e o Daniel já estamos quase prontos.

            – Preciso levar alguma coisa comig... ah, bosta!

            Na tentativa de se fazer ouvir, espichou demais o corpo e fez um pouco da cera líquida pingar na coxa desprotegida.

            – O que foi? – Laura perguntou, do outro lado.

            – Me queimei com cera.

            – Acontece muito comigo, também. Mas é isso ou usar cera fria, e eu não conheço ninguém que tenha feito depilação com cera fria mais de uma vez. Neném, a depiladora que eu sempre chamo para...

            – Não, porra. – Nandini interrompeu. Se deixasse, Laura engataria uma história longa e totalmente desnecessária. – Cera de vela. Estou no meio de uma coisa aqui.

            – Um ritual? Hoje? A gente tem um trabalho, Nandini! – Laura a censurou. – Se você for chegar exausta, é melhor nem vir.

            – Eu vou ficar bem. Estou aproveitando que Daniel deixou o amuleto comigo e preparando reservas para emergências. Nada muito cansativo.

            – O que você está fazendo?

            – Um cofre. Daqueles de prender malfazejos.

            – Essas coisas não requerem um monte de sangue para serem feitas, Nandini?

            – Se for de animal. Humano, basta um pouquinho.

            – Não é uma ideia boa ficar se cortando antes de um trabalho.

            – Ninguém falou em se cortar. Estou de Chico. Tenho um pequeno suprimento de sangue até quarta que vem.

            – Eca, Nandini!

            – A alternativa era matar um gato, ou um pombo. Não é você que é toda ambientalista?

            – Você podia tentar umas coisas mais esotéricas. É mais seguro, e mais limpo.

            – A gente discute quando você começar a fazer magia de verdade, e não essas merdas da Nova Era que você insiste em tentar me empurrar goela abaixo.

            – Daniel está dizendo que o ônibus está na esquina. A gente vai para o terminal do zero-oito. Não esquece o amuleto, senão, nada de trabalho.

            – Acho que chego em uma hora, uma hora e meia.

            O telefone desligou, e Nandini afastou o isqueiro e a vela. Embalou com papel filme o cofrinho de metal, daqueles que se compra bem baratinho na feira, agora todo riscado de faca e com a entrada de moedas lacrada com cera. Estava quase transformado em uma Relíquia Espiritual, mas ainda faltava um ou dois detalhes.

            Pegou um pedacinho de papel previamente manchado de sangue e tentou copiar com um lápis, da melhor forma possível, um desenho que estava ilustrado na cópia xerocada de um livro que Lena havia lhe emprestado semanas antes. O formigamento nas pontas dos dedos lhe deu o sinal de que precisava para saber que estava funcionado. Depois, segurou o amuleto preso em uma correntinha no pescoço com uma das mãos e amassou o papel com a outra.

            Agora vinha a parte difícil.

            “Concentre-se, Nandini.”

            Começou a repetir as palavras que passara a última semana decorando. Não fazia ideia do que significavam, nem de que idioma eram, mas ao menos havia se certificado de que aprendera a pronúncia correta. O amuleto ajudaria também.

            Forçou uma lembrança muito ruim. Um mendigo, chapado, havia se jogado em cima dela, no meio da madrugada, em uma época na qual ela ainda não havia se acostumado a dormir durante o dia para ficar alerta à noite. Ele havia se deitado por cima dela e a abraçado. Não fizera mais nada, nem tentara qualquer outra coisa. Mas para uma moradora de rua recém-chegada, ainda desabituada ao medo, ao frio e ao fedor, foi aterrorizante. Tentou se desvencilhar, em vão. O homem imundo era muito maior e mais pesado que ela. Por mais que se debatesse, ele mal se movia. Tinha adormecido sobre ela, e a impedia de se libertar. O calor infernal, o cheiro choruminoso, e o desespero de não conseguir fazer nada para sair daquela situação. Estava enclausurada.

            Enjaulada.

            Havia conseguido. A lembrança havia trazido à tona o sentimento que precisava evocar para fazer o feitiço funcionar. Ainda com os olhos fechados, pronunciou as palavras mais alto, segurando mais forte o amuleto e o papelzinho com o desenho amaldiçoado. O cheiro de suor, sujeira e álcool inundou o quarto e suas narinas. Aguentou. Segundo o livro, quanto mais intensa a agonia do conjurador, mais forte o feitiço. Esperou se tornar tão sufocante que mal conseguisse respirar, e só quando a ânsia de vômito se tornou insuportável, abriu os olhos e atirou o papel dentro do cofrinho, fechando imediatamente a portinha com o ferrolho.

            O cheiro sumiu imediatamente. O único sinal residual do feitiço era a adolescente meio despida, ofegante e empapada em suor, com o coração palpitante e olhos marejados. Sentada sobre as pernas, pousou as mãos, que tremiam violentamente, sobre as coxas. Estava feito. Da próxima vez que abrisse aquele cofre e jogasse algo dentro, o que quer que trancasse lá estaria magicamente lacrado até que a portinha fosse aberta novamente.

            Ofegando, olhou para a mão que segurava o amuleto, dolorida do esforço de apertá-lo. Na palma, um vergão vermelho, nada sério. Os braços brilhavam das pequenas gotículas de suor sobre a pele branca. A camiseta, única peça de roupa que vestia, grudava no corpo e cheirava a uma longa aula de educação física.

            Antes que pudesse se acalmar totalmente, porém, o alarme do telefone anunciando vinte horas a fez correr para o banheiro, ignorando o caos de papel rasgado, algodão, faca de pão, pingos de sangue e uma caixa de esfirras vazia e engordurada com o rosto sorridente de um árabe impresso na tampa. Sem problemas. O irmão só ia chegar às duas da manhã, altura em que ela já teria voltado para casa e empurrado tudo aquilo para debaixo da cama.

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