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Capítulo 5: O Silêncio da Argila e o Ritmo das Sombras

Os termos haviam sido ditados, e a realidade daquela prisão de luxo cobrou o seu preço logo nos primeiros dias. Clara não era de se entregar ao desespero, mas a matemática do contrato pré-nupcial pesava em sua mente a cada amanhecer. Cinco milhões de reais. Era o valor da sua liberdade ao fim daqueles três anos. Se quisesse caminhar para longe dos Albuquerque e dos Mendes sem carregar correntes ou depender da caridade de ninguém — já que seu pai jamais pagaria por sua saída —, ela precisava conseguir aquela quantia por conta própria. Deitada na cama de solteiro do quarto de hóspedes, ela começou a traçar metas silenciosas, calculando cada centavo que poderia economizar ou gerar através de sua única paixão: a escultura.

Na rotina da casa, a presença de Marta revelou-se uma surpresa ambígua. Clara sabia, pelos olhares atentos e pelos relatórios telefônicos discretos que a governanta fazia no final da tarde, que a mulher era a espiã oficial de sua sogra, Regina. No entanto, Marta operava com uma cortesia profissional impecável. Ela não interferia na vida pessoal de Clara, não fazia perguntas invasivas e mantinha o triplex em perfeita ordem, limitando-se a relatar o óbvio para a matriarca dos Albuquerque. Havia um pacto velado de não agressão entre as duas.

Uma semana após o casamento, o isolamento de Clara foi quebrado por uma visita surpresa que trouxe o primeiro vislumbre de cor à sua nova existência. A campainha tocou e, ao abrir a porta, Clara deparou-se com Alice e a tia-avó Leonor. A velha senhora, embora debilitada, exibia um sorriso terno que cheirava a alfazema, enquanto Alice liderava dois entregadores que carregavam caixas pesadas de madeira.

— Nós viemos trazer o seu coração de volta, meu girassol — disse a tia-avó Leonor, abraçando a sobrinha-neta com toda a força que seus braços cansados permitiam.

O presente que as duas haviam planejado em segredo era a reconstrução do ateliê de Clara. Alice usara sua influência e recursos para resgatar todos os materiais de escultura, argila, ferramentas de modelagem e até mesmo o torno elétrico que Clara deixara na mansão Mendes. Para evitar os olhos curiosos de Marta e manter o seu refúgio totalmente protegido, Clara escolheu uma imensa despensa isolada, localizada no sótão do triplex. Era um espaço de teto baixo, iluminado por uma claraboia solitária, mas perfeito. Ali, entre o cheiro de terra úmida e o silêncio do topo do edifício, Clara começou a passar suas tardes moldando suas angústias em formas de barro.

Enquanto isso, a mecânica de seu casamento de fachada seguia um roteiro estrito. A cada quinze dias, Arthur cumpria o protocolo visual exigido e passava a noite na cobertura. Ele sempre chegava extremamente tarde, com o semblante exausto de quem comandava um império corporativo, e saía antes mesmo que os primeiros raios de sol tocassem as vidraças da sala. Nas primeiras semanas, os dois raramente se cruzavam pelos corredores.

A esperança juvenil de Clara de que eles pudessem desenvolver um convívio pacífico e resgatar a cordialidade dos tempos do ensino médio caiu definitivamente por terra. Não havia espaço para conversas na quadra ou trocas de olhares gentis; ele era um estranho de terno que habitava o quarto trancado ao fim do corredor.

Diante disso, Clara conformou-se. Ela compreendeu que a melhor maneira de honrar o acordo e proteger a si mesma era respeitar a ferro e fogo a vontade dele de ficar só. Com o passar das semanas, Clara refinou a sua própria ausência. Sempre que os dias da visita quinzenal de Arthur se aproximavam, ela jantava mais cedo e se recolhia imediatamente para o quarto de hóspedes ou subia para o sótão, onde passava noites inteiras imersa em suas esculturas. Ela parou de esperá-lo na sala e evitou, de todas as formas, acompanhá-lo em qualquer refeição.

Arthur, no entanto, começou a notar o sumiço deliberado da esposa. O apartamento, que ele esperava encontrar tenso ou cheio de cobranças silenciosas, estava sempre imerso em uma calmaria sepulcral. Ele percebeu que Clara não cruzava o seu caminho, não fazia exigências e parecia ter aceitado o papel de fantasma com uma dignidade impressionante.

Essa ausência de atrito provocou uma mudança sutil no comportamento do CEO. Percebendo que não seria confrontado ou incomodado, Arthur passou a chegar um pouco mais cedo em suas visitas quinzenais. A rigidez mecânica de suas saídas de madrugada também cedeu; ele começou a estender a sua permanência, permitindo-se tomar o café da manhã preparado por Marta antes de seguir para a presidência da holding. Eles ainda não conversavam, mas a presença mútua na mesma casa começava a perder o caráter de urgência defensiva.

O tempo, que antes parecia arrastar-se como uma tortura, encontrou o seu próprio ritmo mecânico naquela rotina de silêncio, argila e passos calculados. Quando menos se viu, as folhas do calendário correram sem aviso, e seis meses já haviam se passado desde a noite em que ela assinara o pré-nupcial. Um sexto da sua pena estava cumprido.

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