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Uma desconhecida

Capítulo 4

O bar estava mais cheio do que Manuela esperava.

Ainda assim, não era barulhento.

Um piano tocava em algum ponto próximo ao restaurante, misturando-se às conversas baixas e ao som ocasional de copos tocando o balcão.

Ela escolheu um banco na extremidade.

Sozinha.

Exatamente como queria.

— Boa noite.

O bartender se aproximou.

— Boa noite.

— O que gostaria?

Manuela quase respondeu vinho.

Era o que sempre bebia.

Vinho branco no jantar. Espumante em comemorações. Uma taça de tinto quando queria fingir que entendia alguma coisa sobre taninos.

Henrique sempre brincava com isso.

O pensamento surgiu sem permissão.

Ela o empurrou para longe.

— Escolhe para mim.

O bartender sorriu.

— Alguma preferência?

— Algo que eu provavelmente nunca pediria.

— Arriscado.

— Essa é a intenção.

Ele começou a preparar o drinque.

Manuela apoiou os cotovelos no balcão e observou o movimento ao redor.

Estranhamente, estar cercada de desconhecidos era confortável.

Ninguém ali sabia que seu casamento tinha acabado naquela tarde.

Ninguém sabia que existiam cento e vinte bem-casados com os nomes dela e de Henrique impressos em dourado.

Ninguém sabia que, dali a sete dias, ela deveria estar usando branco.

Ali, ela era apenas uma mulher de vestido preto bebendo sozinha.

O bartender colocou a taça diante dela.

— Experimente.

Manuela tomou um gole.

Forte.

Levemente cítrico.

Um amargor no final.

Ela fez uma pequena careta.

— Isso é bom ou ruim? — perguntou uma voz masculina à sua direita.

Manuela virou o rosto.

O homem estava dois bancos adiante.

Ela não sabia se ele tinha acabado de chegar ou se simplesmente não o notara antes.

Provavelmente a segunda opção.

Porque era difícil imaginar alguém não percebendo aquele homem.

Alto.

Cabelos escuros.

Camisa branca com as mangas dobradas até os antebraços.

Relógio discreto.

Nenhuma gravata.

Devia ter perto de quarenta anos.

Talvez menos.

Era o tipo de homem que parecia completamente confortável ocupando espaço sem precisar chamar atenção.

Manuela olhou novamente para a taça.

— Ainda estou decidindo.

— Então ele corre risco de perder um cliente.

O bartender apontou para ele.

— Não escuta esse aí. Reclama de tudo e continua voltando.

— Isso é fidelidade.

— Isso é falta de opção — respondeu o bartender.

Manuela riu.

Foi pequeno.

Mas riu.

O estranho olhou para ela.

— Pelo menos consegui ajudar.

Ela arqueou uma sobrancelha.

— Você?

— Indiretamente.

— Convencido.

— Realista.

O bartender se afastou para atender outro cliente.

Manuela tomou mais um gole.

Dessa vez gostou mais.

— Então? — perguntou o homem.

— Aprovado.

— Ótimo. Minha reputação estava em jogo.

— Você nem escolheu o drinque.

— Detalhes.

Ela balançou a cabeça.

O homem pegou o próprio copo.

Uísque.

Claro.

Parecia exatamente o tipo de homem que beberia uísque sem gelo em um bar de hotel.

Por alguns segundos ficaram em silêncio.

Não aquele silêncio desconfortável de duas pessoas tentando encontrar assunto.

Apenas silêncio.

Manuela percebeu que gostava disso.

Ninguém perguntando.

Ninguém querendo saber como ela estava.

Ninguém dizendo que tudo ficaria bem.

— Está hospedada aqui? — ele perguntou.

Ela virou devagar.

O homem pareceu perceber a expressão imediatamente.

— Essa foi uma pergunta ruim?

— Hoje, quase todas são.

Ele assentiu.

— Justo.

E não insistiu.

Manuela olhou para ele novamente.

— Desistiu fácil.

— Você acabou de dizer que não gosta de perguntas.

— E você sempre obedece tão rápido?

— Depende da regra.

Alguma coisa naquela resposta fez Manuela sorrir.

— Ainda não existem regras.

— Então estou em vantagem.

— Não conte com isso.

Ele ergueu o copo de leve.

— Vou me preparar.

Ela deveria ter encerrado a conversa.

Estava cansada.

Fragilizada.

Recém-traída.

Conversar com um desconhecido bonito em um bar provavelmente entraria em qualquer lista de decisões questionáveis para aquela noite.

Mesmo assim, continuou ali.

Talvez justamente porque ele era um desconhecido.

— Cinco noites — disse.

O homem franziu levemente a testa.

— Perdão?

— Você perguntou se estou hospedada aqui.

— Perguntei.

— Cinco noites.

— Eu não perguntei quantas.

— Eu sei.

Um sorriso apareceu devagar no rosto dele.

— Então você responde perguntas que eu não faço.

— Não se acostume.

— Vou tentar.

Manuela girou a taça entre os dedos.

— E você?

Ele inclinou a cabeça.

— Isso foi uma pergunta?

— Pode considerar um teste.

— Estou hospedado aqui.

— Quantos dias?

— Agora você está abusando.

Ela riu novamente.

Mais fácil dessa vez.

— Não precisa responder.

— Talvez eu goste de contrariar regras que ainda não existem.

— Você fala muito em regras.

— Você parece uma mulher que gosta delas.

A frase tocou em algum lugar que ela não queria examinar.

Manuela olhou para o drinque.

— Talvez eu esteja de férias delas.

O homem ficou alguns segundos em silêncio.

Dessa vez não houve piada.

— Parece uma boa razão para viajar.

Ela levantou os olhos.

Ele não parecia curioso.

Parecia apenas atento.

Isso era diferente.

— Você sempre conversa com desconhecidas em bares?

— Só com as que fazem cara de arrependimento depois do primeiro gole.

— Então tenho que agradecer ao bartender.

— Provavelmente.

Ela estendeu a mão.

— Manuela.

Ele olhou para a mão por uma fração de segundo.

Curto demais para significar alguma coisa.

Ou pelo menos foi o que ela pensou.

Então segurou.

— Vicente.

A mão dele era quente.

Firme.

O aperto durou apenas o necessário.

Manuela retirou a mão primeiro.

— Agora deixamos de ser desconhecidos.

— Saber um primeiro nome é muito pouco para isso.

— Ótimo.

Vicente ergueu uma sobrancelha.

— Ótimo?

— Gosto da ideia de continuar quase desconhecida.

— Interessante.

— Não transforma isso em pergunta.

— Estou aprendendo.

Ela sorriu.

Por alguns minutos conversaram sobre coisas absolutamente irrelevantes.

A música do piano.

A iluminação excessivamente sofisticada do bar.

Um casal que claramente discutia perto de uma coluna enquanto fingia sorrir quando alguém passava.

Manuela percebeu que estava relaxando.

Pouco.

Mas estava.

Até Vicente baixar os olhos.

Para a mão esquerda dela.

Mais especificamente para o dedo anelar.

A marca clara continuava ali.

A aliança tinha ido embora.

A pele ainda não recebera o aviso.

Manuela acompanhou o olhar dele.

Quando voltou a encará-lo, algo na expressão de Vicente havia mudado.

Muito pouco.

Mas ela percebeu.

Como se aquela pequena faixa mais clara tivesse confirmado alguma suspeita silenciosa.

Ela pousou a taça no balcão.

— Vai perguntar?

Vicente levantou os olhos.

— Ainda estou decidindo.

— Decide rápido.

Ele apontou discretamente para o dedo dela.

— Parece que está faltando alguma coisa.

Manuela olhou para a marca.

E sentiu o passado inteiro tentar voltar para aquele banco.

Quando ergueu os olhos novamente, sua expressão estava diferente.

Mais fechada.

Mais firme.

— Isso é passado.

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