A pior parte

Capítulo 2

— Você não pode decidir isso em cinco minutos.

Manuela virou lentamente para Henrique.

— Não?

— Não foi isso que eu quis dizer.

— Então escolhe melhor as palavras. Você já teve oito meses para pensar nelas.

Henrique passou as mãos pelo rosto.

A sala continuava exatamente igual.

As flores que a mãe de Manuela enviara pela manhã estavam no vaso.

As lembrancinhas ocupavam uma cadeira.

O vestido que ela usaria no jantar de ensaio estava pendurado na porta do escritório.

Nada tinha mudado.

E tudo tinha acabado.

— Eu errei — disse Henrique.

— Percebi.

— Foi uma única vez.

Manuela fechou os olhos.

Aquela frase começava a irritá-la mais do que deveria.

— Você quer mesmo usar isso como argumento?

— Não. Deus, não. Eu só estou tentando explicar.

— Então explica.

Ele ficou em silêncio.

Manuela cruzou os braços.

— Por que você me traiu?

Henrique abriu a boca.

Fechou.

— Eu estava bêbado.

Ela riu.

— Impressionante como o álcool continua sendo responsabilizado por coisas que não consegue fazer sozinho.

— Eu sei.

— Brigamos?

— Não.

— Estávamos separados?

— Não.

— Você achava que nosso relacionamento tinha acabado?

— Não.

Cada resposta parecia pior.

— Então por quê?

Henrique afundou no sofá.

— Eu não sei.

Finalmente alguma verdade.

Manuela sentiu os olhos arderem.

— Pelo menos agora você conseguiu ser sincero.

— Eu me arrependi no segundo seguinte.

— E decidiu não contar.

— Porque sabia que perderia você.

Ela o encarou.

Ali estava.

A parte que realmente a destruía.

— Então você decidiu por mim.

— Não.

— Decidiu, sim. — Manuela apontou para ele. — Você sabia que, se eu soubesse, talvez não continuasse com você. Então tirou de mim o direito de escolher.

— Eu estava tentando proteger o que a gente tinha.

— Não. Você estava protegendo você.

Henrique ficou calado.

E o silêncio respondeu.

Manuela pegou o próprio celular.

Quarenta e sete notificações.

Grupo das madrinhas.

Cerimonialista.

Mãe.

Sogra.

Fornecedor.

Faltavam sete dias.

Como se cancelava um casamento?

Existia um botão?

Um formulário?

Uma opção escrita o noivo destruiu sua confiança, clique aqui?

Henrique se levantou.

— Não faz nada agora. Dorme. Amanhã a gente conversa.

Ela olhou para ele incrédula.

— Dormir aqui?

— Eu durmo no sofá.

— Henrique, você ainda não entendeu.

Manuela caminhou até o quarto.

Pegou uma mala pequena.

— O que está fazendo?

— Indo embora.

— Essa casa também é sua.

Ela parou.

Era verdade.

E aquela era talvez a parte mais cruel.

Aquela cozinha tinha sido escolhida por ela.

A luminária, por ele.

O sofá fora a primeira compra grande que fizeram juntos.

Existiam fotografias deles espalhadas pela sala.

Uma vida inteira não desaparecia no mesmo instante em que um relacionamento acabava.

— Então você vai embora — respondeu.

Henrique a encarou.

— Manu...

— Por favor.

A palavra saiu baixa.

Aquilo foi pior que gritar.

Ele pareceu entender.

Pegou a carteira, as chaves e o celular.

Antes de sair, parou junto à porta.

— Eu amo você.

Manuela sentiu uma lágrima escapar.

A primeira.

— Esse é exatamente o problema.

Henrique fechou os olhos.

Depois foi embora.

A porta fechou.

Manuela permaneceu em pé no meio da sala.

Sozinha.

E só então desabou.

Isabela chegou vinte e três minutos depois.

Não tocou a campainha.

Entrou usando a chave reserva e encontrou a melhor amiga sentada no chão do banheiro.

— Meu Deus.

Manuela estava segurando a aliança.

— Oito meses, Isa.

A amiga se ajoelhou.

— O quê?

— Ele me traiu oito meses atrás.

Isabela não respondeu imediatamente.

— E não me contou.

A voz de Manuela falhou.

— Eu provei meu vestido enquanto ele sabia. Escolhi os votos enquanto ele sabia. Convidei pessoas enquanto ele sabia.

Isabela puxou-a para um abraço.

— Vem cá.

— Eu não quero que ninguém saiba ainda.

— Tudo bem.

— Minha mãe vai perguntar.

— Eu cuido da sua mãe.

— O cerimonial...

— Eu cuido.

— As pessoas...

— Dane-se as pessoas.

Manuela soltou uma risada molhada pelas lágrimas.

— Ótimo plano.

— É o melhor que tenho.

Ficaram alguns segundos em silêncio.

Depois Isabela se afastou.

— Você quer ficar na minha casa?

Manuela negou.

— Minha mãe vai procurar lá.

— Então onde?

Manuela não sabia.

Só sabia que precisava desaparecer.

Não para sempre.

Por dois dias.

Talvez três.

Tempo suficiente para conseguir respirar sem alguém perguntar se estava bem.

Pegou o celular.

Abriu um aplicativo de reservas.

Isabela observou.

— O que você está fazendo?

— Fugindo.

— Para onde?

Manuela passou pelas opções.

Até uma fotografia chamar sua atenção.

Um hotel sofisticado a pouco mais de uma hora de distância.

Piscina.

Spa.

Restaurante.

Bar.

Disponibilidade imediata.

Ela selecionou cinco noites.

— Para algum lugar onde ninguém saiba quem eu sou.

Isabela levantou uma sobrancelha.

— Quer companhia?

Manuela olhou para a aliança em sua mão.

Depois fechou os dedos ao redor dela.

— Não.

Pela primeira vez na vida, queria descobrir quem era quando não precisava ser metade de um casal.

Confirmou a reserva.

E não percebeu que, ao fazer aquilo, estava colocando em movimento uma história que tornaria impossível voltar a ser a mulher que tinha sido naquela manhã.

Sigue leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la APP
Explora y lee buenas novelas sin costo
Miles de novelas gratis en BueNovela. ¡Descarga y lee en cualquier momento!
Lee libros gratis en la app
Escanea el código para leer en la APP