Mundo de ficçãoIniciar sessãoPeguei meu celular sobre a mesinha de cabeceira; duas e quinze da manhã.
Não conseguia dormir. A imagem do Daniel na festa de faculdade na noite anterior, os olhos escuros de desejo sob a luz vermelha, a mão firme na minha cintura e aquele sussurro quente no meu ouvido, rodava na minha cabeça. Sem conseguir pregar os olhos, desci as escadas na ponta dos pés, vestindo apenas uma camisola curta de cetim preto com alças finas que mal cobria metade das minhas coxas, e descalça. Tudo o que eu precisava era de um copo de água gelada para acalmar as ideias e voltar para a cama. Abri a geladeira, peguei a jarra de vidro e sirvi um copo longo. Dei o primeiro gole devagar, sentindo a água fria descer pela garganta, tentando espantar a sensação de sufocamento que me perseguia desde a noite anterior. — Perdeu o sono também? O susto me fez dar um pulo. A jarra de vidro quase escorregou da minha mão. Virei-me rápido e dei de cara com a figura alta do Daniel encostada no batente da porta da cozinha. Meu coração disparou tanto que pareceu que ia rasgar meu peito. Daniel vestia apenas uma calça moletom cinza folgada que ficava perigosamente baixa no quadril, deixando a barra da cueca à mostra e o tórax completamente nu. O cabelo dele estava desalinhado, caindo de um jeito bagunçado sobre a testa. — Meu Deus, garoto! Quer me matar do coração? — protestei baixinho, colocando o copo no balcão de mármore e tentando disfarçar a tremedeira nas mãos. — Dormiu aqui de novo? — O Matheus me chamou pra ver o jogo, acabou ficando tarde então decide ficar — respondeu com a voz arrastada pelo sono, mais grave e rouca que o normal. Ele caminhou devagar para dentro da cozinha, foi direto para o balcão central, ficando a poucos centímetros de mim. O corredor estreito entre a ilha da cozinha e a geladeira já era pequeno por si só. Com o corpo grande dele ali, o espaço simplesmente desapareceu. — Precisava mesmo me assustar desse jeito? — murmurei, me encolhendo um pouco contra a borda do balcão e cruzando os braços sobre o peito, ciente de como a camisola de cetim devia estar marcando meu corpo. — Eu não fiz nada, chatinha. Você que é medrosa — provocou, soltando um risinho baixo. Ele deu mais um passo à frente para pegar um copo no armário suspenso logo acima da minha cabeça. Ao se esticar para alcançar a prateleira superior, o corpo nu e quente dele se colou quase por inteiro no meu. A pele do torso dele roçou no meu ombro desnudado, e o braço forte passou a milímetros do meu rosto. O perfume dele, invadiu meu espaço de um jeito avassalador. Prendi a respiração. Um arrepio desceu por toda a minha espinha, fazendo cada pelo do meu corpo se arrepiar de uma vez. — Licença... — sussurrou perto do meu ouvido, mas não fez movimento algum para se afastar depois de pegar o copo. Em vez disso, Daniel baixou a mão lentamente. Na descida, as costas dos dedos dele roçaram de forma "acidental" na lateral da minha cintura, deslizando devagar pelo tecido liso de cetim da minha camisola até parar no quadril. O toque parecia queimar. Minhas pernas fraquejaram por um segundo. — Daniel... — alertai, a voz saindo quase como um suspiro involuntário. — Quê? — perguntou, a voz extremamente baixa, os olhos claros agora fixos nos meus lábios. — Foi sem querer. O espaço aqui é apertado. — Mentira. Você fez de propósito — rebati, encarando-o de frente, embora a proximidade da boca dele estivesse destruindo qualquer capacidade minha de raciocinar. Ele deu meio passo para o lado, prendendo meu corpo entre ele e o balcão. Daniel colocou o copo de lado e subiu as duas mãos, posicionando as palmas quentes nos dois lados da minha cintura. — E se eu tiver feito de propósito? — um sorriso maroto surgiu no canto dos lábios dele. — O que você vai fazer, Ly? — desafiou, se inclinando até que a ponta do nariz dele roçasse na curva do meu pescoço. O hálito quente dele encontrou a minha pele, soltei um gemido abafado que tentei engolir a todo custo. Minhas mãos, que deveriam empurrá-lo para longe, subiram sozinhas e pousaram no peito nu e firme dele. Sentia o coração dele batendo forte e rápido debaixo da minha palma. — Eu vou... gritar pro meu irmão — menti, a respiração totalmente desregulada, enquanto meus dedos se cravavam levemente na pele quente do tórax dele. — Vai nada — murmurou contra a minha pele, subindo os lábios devagar pelo meu pescoço até alcançar a linha do meu maxilar. — Você tá tremendo todinha... Ele segurou meu queixo com firmeza, virando meu rosto suavemente para encará-lo. Nossos lábios ficaram a menos de um centímetro de distância. Eu conseguia sentir o calor da respiração dele contra a minha boca. Meus olhos se fecharam sozinhos, esperando pelo impacto inevitável daquele beijo. — Daniel? Você tá aí embaixo, cara? A voz do Matheus ecoou lá do alto da escada, quebrando o silêncio da noite como uma bomba. Abrimos os olhos no mesmo instante. Daniel soltou meu queixo devagar, mas não recuou imediatamente. Ele me encarou por mais um segundo com o olhar denso, escuro de frustração, antes de dar um passo para trás e pegar o copo de água sobre o balcão. — Tô aqui pegando água, Matheus! Já tô subindo! — respondeu para o alto, a voz perfeitamente controlada. Ele se virou para mim uma última vez. Deu um gole na água, passou a língua pelo lábio inferior de um jeito absurdamente provocador e piscou pra mim. — Dessa vez você escapou, chatinha... — murmurou, inclinando-se um pouco na minha direção. — Mas não pense que vou esquecer o que quase aconteceu aqui. Ele piscou para mim e se afastou, seguindo em direção à escada. Fiquei parada junto ao balcão, tentando recuperar o ar e controlar o coração que parecia querer saltar pela boca. Levei a mão ao peito, sentindo as batidas aceleradas sob a palma. — Insuportável... — sussurrei, embora um sorriso involuntário insistisse em surgir no canto dos meus lábios. Só então percebi que ainda estava tremendo. E o pior de tudo era saber que, se Matheus não tivesse aparecido, eu provavelmente teria deixado aquele beijo acontecer.






