Capítulo 03: Carona Forçada

Se a segunda-feira já era meu dia menos favorito da semana por natureza, ela conseguiu ficar dez vezes pior logo às sete horas da manhã.

Estava no meio do corredor, terminando de colocar meus brincos e ajeitando a alça da minha bolsa de couro sobre o ombro. Usava uma calça jeans justa que valorizava minhas curvas e um top cropped branco de alcinhas finas. Tinha uma aula importante na faculdade às oito, e meu planejamento era simples, pegar o carro na garagem, enfrentar o trânsito do início da manhã.

Um plano perfeito, até eu descer as escadas e encontrar meu irmão Matheus na sala, vestido de pijama e com a cara amassada de quem tinha acabado de acordar.

— A empregada disse que o pneu do seu carro tá totalmente murcho. — disse, antes mesmo que eu pudesse dar bom-dia.

— O quê?! Eu tenho prova hoje! Como assim o pneu tá murcho? — esbravejei, sentindo a raiva subir no mesmo instante. — E agora? Como eu vou?

— Relaxa, estressada. Pedi pro Daniel tá levar. A faculdade dele fica do lado da sua mesmo.

Minha mandíbula quase caiu no chão.

— Ficou maluco? Prefiro ir a pé debaixo de chuva do que entrar no carro daquele insuportável!

— Então vai a pé, ué. — respondeu, virando as costas e caminhando de volta para a cozinha.

Soltei um grunhido de frustração. Olhei para o relógio no meu pulso: vinte para as oito. Se eu chamasse um carro por aplicativo àquela hora da manhã, demoraria vinte minutos só para chegar na minha rua. Não tinha escolha.

Peguei minha bolsa com tanta força que os zíperes tilintaram e marchei em direção à porta da frente.

Parado na calçada, encostado na porta de um Onix preto, estava o Daniel. Ele vestia uma camiseta preta, óculos escuros de armação fina e tinha o cabelo penteado para trás. Ele segurava um copo de café para viagem.

Quando me viu sair de casa fumegando de raiva, abaixou os óculos escuros até a ponta do nariz, revelando aqueles olhos claros e provocadores.

— Bom dia para você também, flor do dia — disse, com aquele sorriso de canto irresistível que me dava vontade de socar e beijar ao mesmo tempo.

— Vamos logo antes que eu mude de ideia — resmunguei, passando por ele sem olhar diretamente nos olhos dele.

— Onde foram parar os seus modos? Um "por favor, Daniel lindo" não faria mal a ninguém — debochou, destravando o carro.

Entrei no banco do passageiro e me afundei no estofado de couro escuro. O interior do carro exalava aquele perfume amadeirado marcante dele, impregnando o ar de um jeito sufocante e gostoso. Daniel entrou no lado do motorista, deu a partida no motor e o som grave da nave ecoou pela rua quieta.

Fiquei encarando a janela, mantendo os braços cruzados bem apertados contra o peito para delimitar o meu espaço.

— Pode relaxar, chatinha. Eu não mordo... a menos que você peça — disse, engatando a marcha e acelerando.

— Dirige e fica quieto, Daniel — rebati, sem me virar para ele.

— Nossa, quanta agressividade logo cedo. O que foi? O leite condensado de sábado acabou?

Virei o rosto para encará-lo com o meu melhor olhar de desprezo. Daniel estava descansando a mão direita no câmbio de marchas. A posição colocava o braço forte dele extremamente perto da minha coxa direita. A pele bronzeada, marcada pelas veias saltadas e pela tatuagem que subia pelo pulso.

A cada troca de marcha que ele fazia, as costas da mão dele roçar "sem querer" no tecido da minha calça jeans, bem perto do meu joelho.

Na primeira vez, achei que tinha sido um acidente. Na segunda, percebi a intenção. Na terceira troca de marcha, os dedos dele propositalmente se abriram um pouco mais, o polegar dele deslizando pela parte interna da minha coxa antes de voltar para a alavanca.

Uma descarga elétrica desceu direto para a minha barriga. Minha respiração falhou.

— Dá para você prestar atenção no trânsito e tirar a mão de perto da minha perna? — disse, tentando manter a voz firme, mas falhando miseravelmente na entonação.

Daniel deu um risinho baixo, rouco. Ele aproveitou um sinal vermelho que fechou à nossa frente para se virar completamente na minha direção. Apoiou o cotovelo no volante e se inclinou sobre o console central, invadindo o meu lado do carro. O rosto dele ficou a poucos centímetros do meu.

— O espaço no carro é meu, Ly. Se a minha mão incomoda tanto aqui... — sussurrou, a voz caindo para aquele tom grave que fazia minhas pernas virarem geleia, enquanto o olhar dele descia direto para a minha boca. — Por que você não tira?

Eu podia ter empurrado o peito dele. Podia ter mandado ele se afastar. Mas o cheiro dele, a proximidade daquela boca carnuda e a intensidade com que aquele filho da puta me encarava travaram todos os meus músculos.

— Você é insuportável... — murmurei, o peito subindo e descendo rápido.

— E você adora — respondeu, com uma confiança irritante.

O sinal abriu. Daniel deu um último olhar demorado para a alcinha do meu top cropped antes de voltar a posição para frente e acelerar o carro. Mas a mão dele não voltou inteiramente para o câmbio; ele deixou os dedos descansando levemente sobre a borda do banco, a milímetros da minha perna.

O restante do caminho foi feito em um silêncio carregado de uma tensão sexual absurda. Nenhum de nós falou mais nada, mas o ar dentro do carro parecia que ia pegar fogo a qualquer segundo.

Quando ele finalmente encostou o carro em frente ao portão da minha faculdade, soltei o cinto de segurança quase em desespero para sair dali.

— Entregue em segurança — disse, destravando as portas.

Peguei minha bolsa e abri a porta. Antes de botar o pé para fora, me virei para ele uma última vez.

— Obrigada pela carona. Mas na próxima eu venho de táxi.

Daniel tirou os óculos escuros e me deu aquele sorriso maroto que acabava com o meu juízo.

— Nem pensar, chatinha. Amanhã eu venho te buscar de novo.

Saí do carro batendo a porta com força, ouvindo a risada gostosa dele se perder no barulho do trânsito enquanto caminhava para a aula com o coração batendo no ritmo de um tambor.

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