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7 correntes invisíveis

Deyse, sentada no banco de trás do carro, encostou a cabeça na janela. As lágrimas escorriam pelo seu rosto, enquanto uma tristeza imensa preenchia seu coração. Casar-se com alguém que não conhecia parecia um pesadelo, e agora seus sonhos de se tornar cirurgiã estavam cada vez mais distantes.

Cinco horas se passaram e, finalmente, chegaram ao cartório. Com apenas duas testemunhas e seu pai ao lado, Deyse respirou fundo, aguardando o noivo. Para sua surpresa, apenas um advogado apareceu para dar prosseguimento ao casamento.

As mãos de Deyse tremiam no momento de assinar. O advogado parou e olhou profundamente nos olhos dela.

— Senhorita, você tem certeza de que quer ser a nora da família Johnsons? — perguntou ele.

Ela suspirou fundo; sua vontade era gritar um claro "não". Mas lembrou da situação da empresa e da saúde do pai. Forçou um sorriso e balançou a cabeça em sinal afirmativo.

O advogado percebeu sua inquietação e questionou:

— Por que você está trêmula e com os olhos inchados? Alguém está te forçando a casar?

Deyse pensou em dizer a verdade, mas sabia que sua mãe poderia transformar sua vida em um inferno. Além disso, refletiu que sua vida ao lado de um deformado talvez não fosse pior do que o que já havia enfrentado com sua mãe e irmã. Lembrou das surras, dos castigos e das acusações.

Talvez os boatos sobre o noivo fossem exagerados; quem sabe ele fosse apenas um homem amargurado por ter ficado deformado após o incêndio que consumiu sua pele? Respirou uma vez mais e respondeu:

— Não, ninguém está me forçando.

Deyse olhou para o advogado, com os olhos ainda inchados de tanto chorar. As lágrimas continuavam a escorrer pelo seu rosto enquanto ela falava:

— Quando eu era criança, acabei caindo no lago e quase morri. Fui salva por alguém, mas essa pessoa se machucou no processo. Eu jurei que seria médica cirurgiã quando crescesse. Estou tão perto de realizar esse sonho; faltam apenas dois meses para eu receber meu diploma. Só preciso passar em mais algumas provas.

Ela respirou fundo, a dor transparecendo em sua voz.

— Mas com o casamento, tive que largar esse sonho. Não é fácil para mim. Não estou triste ou chorando por conta do casamento, mas pelos meus sonhos que estão ficando para trás.

O advogado a olhou com empatia e sorriu, compreendendo a profundidade de sua dor. Pegou o celular e discou um número, saindo da sala por um momento antes de Deyse assinar os papéis. Vinte minutos depois, ele retornou com uma expressão confiante.

— Tudo bem — disse ele. — O casamento irá acontecer, mas o senhor Chase garantiu que você não abandonará seus sonhos. Ele se comprometeu a te apoiar.

Para Deyse, foi uma grande surpresa. Uma onda de alívio e esperança a envolveu. Com um novo ânimo, ela assinou os papéis do casamento.

Depois que ela assinou os papéis, queria seguir logo para o seu destino: a casa do seu desconhecido marido. Mas o telefone de Henry tocou. Era Amara, falando de forma manhosa:

— Papai, quando terminar de assinar os papéis aí no fórum, traga Deyse para comemorar o casamento aqui em casa. Chamei nossos amigos para festejar.

Ele se aproximou de Deyse e disse:

— Filha, sua irmã preparou uma festa para comemorar o seu casamento. Você quer participar?

— Não, pai — respondeu ela. — Estou muito cansada da faculdade e a viagem também me quebrou. Quero ir para casa dormir e descansar.

— Filha — disse ele com tanto carinho — toda a nossa família está lá. Afinal, só se casa uma vez e eu quero que você sinta felicidade nesse casamento, não tristeza.

— Tudo bem, pai. Eu irei — disse ela.

Amara havia convidado muita gente, dizendo que era para comemorar o casamento da irmã, mas na verdade o que ela queria era ridicularizá-la em público.

Assim que Deyse chegou, viu que a decoração realmente estava linda, digna de um casamento ilustre. Mas ela estava sozinha; havia casado apenas por procuração. Quem assinou os papéis do casamento foi apenas um advogado, e isso já era motivo suficiente para se sentir humilhada ao estar no meio de todas aquelas pessoas, a maioria desconhecida, que ela nunca tinha visto na vida.

Ao se aproximar, as pessoas não davam parabéns; apenas manifestavam seus pêsames pelo fato dela ter casado com alguém rejeitado pela família Johnson's. Ele era considerado deformado e, aos olhos da sociedade, um monstro por causa das queimaduras em seu rosto. Muitos se lembravam com pesar de como ele havia ficado feio e amargo; outros sabiam que ele morava distante demais da cidade e os rumores diziam que ele havia se tornado um assassino cruel que agredia suas vítimas apenas por pisar em sua propriedade.

Todos esses anos de solidão o transformaram em um verdadeiro monstro.

Enquanto isso, comentários surgiam na sala. Amara fazia comentários sarcásticos junto com a própria mãe.

Então Amara se aproximou e disse:

— Sabe, Deyse? Na verdade, não era para você estar casada com o Chase; era eu! Mas na época eu aceitei porque pensei que fosse com Donald o CEO do grupo Johnson. Depois descobri que era apenas com chase o rejeitado da família, um filho ilegítimo sem ter onde cair morto; foi expulso da família. Sem contar que depois do acidente se tornou um verdadeiro monstro feio e se isolou naquele fim de mundo onde sua casa está caindo aos pedaços. Lá você vai ser apenas uma caipira! Isso não era para mim! Por isso minha mãe foi até você; porque ela não te ama, nunca te amou e te obrigou a tomar o meu lugar! E você não vai permitir que papai saiba disso porque se ele souber pode ter um infarto e morrer... E você não quer isso, quer?

Ao ouvir as palavras da irmã, Deyse ficou ainda mais triste; as lágrimas continuaram a cair.

— Eu sei que a mamãe nunca gostou de mim — respondeu ela — e não me importa. Não sou mais uma criança que você possa pisar e continuar pisando. Sabe de uma coisa, Amara? Acredite, você me fez um favor com esse casamento. Feliz ou não, estarei livre de vocês duas. Nunca mais vocês irão me machucar de novo.

— Eu não me importo se ele é deformado ou não; a única coisa que me importa é que ele seja uma pessoa boa. A beleza que está por fora não é importante, mas o que está aqui dentro é ela falou colocando a mão no coração. Se ele for uma dessas pessoas boas, acredite! Eu serei sim muito feliz, queira você ou não.

— Sabe, eu não vejo a hora de ir embora só para não olhar para sua falsidade e ouvir suas mentiras. Pelo menos longe, estarei livre das suas acusações, das suas mentiras e dos seus maus-tratos. Estarei livre de tudo o que você possa tramar contra minha vida como antes você fazia. Você pegava dinheiro e dizia que era eu que tinha roubado; quebrava as coisas e dizia que era eu. E a mamãe sempre acreditou.

— Eu era castigada.

— Você sempre enganou todo mundo. Lembro do tempo de escola, quando você fazia o mesmo com meus professores; todos me odiavam por causa do que você fazia e colocava sobre mim. Eu sempre caía na sua armadilha e vivia de castigo porque todos acreditavam que eu era uma pessoa má. Graças aos seus boatos e mentiras, o único alívio que tive foi quando fui jogada no colégio interno.

— E agora meu único alívio é esse casamento. Espero que você encontre na sua vida alguém igual a você.

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