Mundo de ficçãoIniciar sessão
POV BIANCA
O cheiro de suor, ferro e testosterona era tão espesso que eu podia senti-lo na língua. Ali, no coração do The Cage, um galpão industrial abandonado nos confins do Brooklyn, a civilização não existia. As luzes de neon vermelho piscavam ritmicamente, iluminando as faces sedentas de sangue da elite de Nova York. Homens de terno de três peças e mulheres usando joias que pagariam o aluguel do meu apartamento por dez anos gritavam obscenidades, batendo as mãos contra as grades da arena central. Eu estava agachada nas sombras, atrás de uma pilha de caixas de metal, sentindo o peso da minha Canon contra o peito. Meu coração batia mais rápido que o ritmo das apostas. Se eu fosse pega ali, não haveria um segurança para me escoltar gentilmente até a saída. Eu seria descartada como lixo. Mas eu não tinha escolha. Enzo, meu irmão caçula, estava devendo cinquenta mil dólares para os agenciadores de apostas desse buraco. E se eu não conseguisse a foto que provasse a identidade do campeão invicto, ele estaria morto antes do amanhecer. — E agora, o senhor da guerra! O carrasco dos deuses! — a voz do locutor trovejou pelos alto-falantes, distorcida e violenta. — ARES! A multidão rugiu. O chão tremeu. Ele entrou na arena com a calma de um predador que sabe que não tem rivais. Não usava camisa, apenas calças de combate pretas e bandagens nos punhos. Mas era a máscara que paralisava a todos: uma peça de ouro fundido que cobria a metade superior do rosto, esculpida com feições gregas severas e impiedosas. Sob o metal, apenas uma mandíbula quadrada e lábios firmes, perigosamente atraentes, estavam visíveis. Ares não lutava. Ele executava. A luta durou menos de três minutos. O oponente, um gigante de cem quilos de puro músculo, foi derrubado com uma sequência de golpes tão rápidos que meus olhos mal conseguiram acompanhar. O estalo do osso quebrando ecoou pelo galpão, seguido pelo silêncio súbito da multidão antes do delírio final. Ares não comemorou. Ele apenas olhou para o corpo caído com um desprezo frio e saiu da arena antes mesmo do juiz levantar seu braço. Agora ou nunca. Saí das sombras, movendo-me como um fantasma pelos corredores úmidos dos fundos. Eu conhecia a planta deste lugar melhor do que gostaria. Evitei os seguranças, deslizando por entre tubulações de vapor até chegar à área restrita dos combatentes. Meus dedos tremiam enquanto eu ajustava o foco da lente. Parei diante de uma porta de ferro entreaberta no final do corredor. O som de água corrente vinha de dentro. Prendi a respiração, o suor escorrendo pelas minhas costas. Espiei pela fresta. Ele estava de costas para mim, as mãos apoiadas em uma pia de porcelana lascada. As costas de Ares eram um mapa de cicatrizes e músculos retesados, brilhando sob a luz amarelada de uma lâmpada nua. Ele exalava uma aura de poder que fazia o ar parecer pesado. Lentamente, ele levou as mãos à nuca e desfez o fecho da máscara de ouro. O metal bateu na pia com um som surdo. Ele jogou a cabeça para trás, respirando fundo, e virou-se para o espelho manchado. Meu coração parou. O ar fugiu dos meus pulmões. Eu conhecia aquele rosto. Todo o país conhecia. Aqueles olhos cinzentos como uma tempestade no mar, as maçãs do rosto esculpidas pela genética mais cara da sociedade, o olhar que frequentemente estampava a capa da *Forbes*. Julian Thorne. O CEO da Thorne Security. O herdeiro da dinastia mais influente da costa leste. O homem que doava milhões para caridade e era visto como o epítome da perfeição moral e do controle corporativo. O "Príncipe de Nova York" era um monstro de ringue. Click. O som do obturador da minha câmera pareceu um tiro de canhão no silêncio do vestiário. Pânico. Puro e gelado. Julian congelou. Seus olhos encontraram os meus através do espelho. Não havia o brilho polido das entrevistas de TV ali; havia apenas a promessa de aniquilação. — Merda — sussurrei, girando nos calcanhares e correndo pelo corredor escuro. Eu ouvi o estrondo da porta sendo arrancada de suas dobradiças atrás de mim. — Volte aqui! — a voz dele não era um grito, era um comando que vibrava nos meus ossos. Corri como se minha vida dependesse disso, porque dependia. Atravessei a saída de emergência, ganhando o ar frio da noite do Brooklyn, meus pulmões ardendo. Meus pés batiam no asfalto molhado enquanto eu tentava chegar ao meu carro velho estacionado a dois quarteirões de distância. Eu estava quase lá. Minha mão tocou a maçaneta fria quando uma pressão súbita me atingiu. Um braço de ferro envolveu minha cintura, me tirando do chão como se eu não pesasse nada. Fui prensada contra a lateral do carro com uma força que me fez soltar um ganido. Minha câmera foi arrancada das minhas mãos antes que eu pudesse protestar. Julian Thorne estava parado na minha frente. Ele ainda estava sem camisa, o peito subindo e descendo com uma respiração controlada, o supercílio cortado vertendo um fio de sangue que descia por sua face aristocrática. Ele parecia um deus caído e um demônio faminto, tudo ao mesmo tempo. — Você cometeu um erro terrível, passarinho — ele sibilou, sua voz baixa e perigosa, enquanto segurava minha câmera acima da minha cabeça, examinando o visor. — Eu preciso disso! — gritei, tentando alcançar o equipamento. — Por favor, meu irmão... eles vão matá-lo se eu não entregar essa prova! Julian parou. Ele olhou para a foto no visor — uma imagem nítida dele, sem máscara, com o sangue de outro homem nas mãos — e depois olhou para mim. Seus olhos desceram pelo meu corpo, demorando-se nos meus lábios trêmulos, antes de voltarem para os meus olhos com uma intensidade que me fez perder as forças nas pernas. — Você sabe quem eu sou? — ele perguntou, prendendo-me entre seu corpo e o metal do carro. O calor que emanava dele era opressor. — Todo mundo sabe quem é Julian Thorne — respondi, tentando manter a voz firme apesar do terror. — Mas ninguém sabe quem é Ares. Até amanhã de manhã. Um sorriso lento e cruel surgiu nos lábios dele. Ele não parecia assustado. Ele parecia... interessado. — Você acha que vai chegar viva a algum jornal com isso? — Ele aproximou o rosto do meu, o cheiro de sândalo e sangue me embriagando. — Eu posso fazer você desaparecer antes mesmo de o sol nascer, Bianca. Eu sei seu nome. Sei onde seu irmão se esconde. Sei cada centavo que vocês devem. Eu engoli em seco, o medo sendo substituído por uma centelha de desafio. — Então me mata logo. Porque se eu sair daqui, eu publico. Julian soltou uma risada sombria e rouca, um som que enviou arrepios por toda a minha espinha. Ele se inclinou ainda mais, seus lábios roçando a minha orelha. — Eu tenho uma ideia melhor. Você quer salvar o seu irmão? Quer o dinheiro? Eu hesitei, meu corpo reagindo à proximidade dele de uma forma que eu odiava. — O que você quer? Ele se afastou apenas o suficiente para me olhar nos olhos. O Julian CEO estava de volta, mas o Ares ainda brilhava naquelas íris cinzentas. — Eu preciso de uma noiva. Minha família exige uma imagem de estabilidade para a próxima fusão, e as mulheres do meu círculo social são cobras que fazem perguntas demais. Você... você é perfeita. Você já sabe o meu pior segredo. Você está desesperada. E, o mais importante, você me pertence a partir de agora. — Um noivado de fachada? — perguntei, incrédula. — Você quer que eu minta para o mundo por você? — Eu quero que você assine um contrato, Bianca. Um ano. Eu pago as dívidas do seu irmão, dou a você uma vida de luxo que você nunca sonhou e, ao final, você sai com cinco milhões de dólares e a sua liberdade. — E se eu disser não? Julian apertou meu pescoço suavemente com uma das mãos, o polegar traçando a linha do meu queixo com uma ternura aterrorizante. — Se disser não, eu quebro esta câmera agora, e seu irmão não passa de hoje. A escolha é sua. Mas lembre-se: uma vez que você entrar no meu mundo, passarinho... você nunca mais poderá sair ilesa. Olhei para a câmera, depois para o homem à minha frente. O perigo emanava dele como ondas de calor. Eu estava prestes a fazer um pacto com o diabo, e o pior de tudo é que eu podia sentir que uma parte de mim estava ansiosa para ser queimada por ele. — Onde eu assino? — sussurrei.






