03- Só Isso

Não acredito que a minha rotina seja algo de grande interesse e juro que não vou dar muita ênfase a essas demais coisas, até porque não tem muito sobre o quê falar, afinal de contas, minhas únicas atividades são a auto-escola, a faculdade e o estágio, que também faço pela faculdade, mas que não me ocupam vinte e quatro horas por dia... embora as atividades das aulas me suguem bastante, mas é mais ou menos isso.

Eu moro com a minha mãe, só eu, ela e nosso Pituca, mas nossa família é grande, formada por mais umas três tias e dois tios, todos casados e alguns com filhos. Minha vida é relativamente equilibrada, não estamos nadando em dinheiro, mas também não passamos por necessidades... enfim.

Outra coisa que talvez seja interessante dizer é que, dessa matéria do professor Gil, eu só tenho duas aulas por semana, uma na terça e outra na sexta, ambas à noite. Acho bem tendencioso ter aula na sexta à noite, embora alguns considerem ruim, pela ideia de atrapalhar as “noitadas” e tals, mas eu gosto.

De qualquer forma, apaguei logo depois do que rolou sobre as mensagens, não cheguei nem a comer nada, quando vi, já era o dia seguinte. Acordei zonza, embora muito descansada, já que havia dormido relativamente cedo, tanto que nem precisei de despertador e comecei logo a me ajeitar pra ir pra auto-escola.

– “Você não me respondeu ontem o que eu te perguntei.” – Mensagem da Julia, que encabeçava meu histórico.

– “Foi mal, cara, acabei apagando aqui.”

Como estava me arrumando pra sair, quase não dei muita ênfase ao celular, mas depois que já estava tudo pronto e tinha alguns minutos de sobra, me sentei no sofá e o abri de verdade pra olhar minhas mensagens.

– “Sexta-feira senta com a gente, você e a sua amiga.”

Bruna havia me mandado isso na madrugada da noite anterior enquanto eu já estava dormindo. Mais uma vez fiquei paralisada olhando pro celular tentando me convencer de que o que estava acontecendo era extremamente natural, por mais que só estivesse acontecendo comigo, segundo Julia me havia dito.

– “Depois respondo sua pergunta, agora to na correria por causa da auto-escola.” – Mandei pra Julia. Já pra Bruna, mandei. – “Pode ser, a gente senta com vocês sim.”

Mesmo que Julia não quisesse, ela não teria escolha, porque eu queria muito entender o que estava acontecendo, principalmente no meu privado. Por que essa garota tava me mandando mensagem? Por que essa garota tava falando de sentarmos juntas? O grupinho dela já era grande, não tinha o porquê eles quererem mais alguém por perto, ainda mais duas novas pessoas.

Saí correndo pra auto-escola e depois pra faculdade, já que eu tinha outras aulas e matérias além daquela bendita. Julia chegou atrasada, então nem chegamos a conversar, embora ela estivesse com cara de chateada, mas não escapei do intervalo.

– Será que agora você pode me responder? – Perguntou ela.

– Então... eu te perguntei aquilo ontem porque a Bruna me mandou mensagem no privado pra me dar as boas vindas e achei isso muito estranho.

Julia ficou com cara de surpresa e em silêncio por alguns breves instantes. Seus olhos começaram a ir de um canto ao outro, como se estivesse processando muitas informações dentro de si. Ela balançava a cabeça pra frente e pra trás, como se dissesse “sim” pra alguma coisa, enquanto pensava, até que me olhou, respirou fundo, e disse:

– Suspeito isso, hein.

– Tu fez esse drama todo pra dizer só isso? – Perguntei frustrada.

– Ué, o que você queria que eu dissesse? Nem a mensagem você me mostrou. – Sorriu.

– Se você queria ver a mensagem era só dizer, né.

Peguei o celular, desbloqueei, coloquei na mensagem e a mostrei pra Julia, que ficou mais alguns segundos em silêncio olhando para o aparelho. Era incrível como aquela falta de comentário estava me angustiando, porque seria maravilhoso se ela pudesse me ajudar a pensar a respeito daquilo.

– Tu já disse que eu vou sentar com eles sem antes me perguntar se eu topo?

– Lógico. Você é fofoqueira demais pra não sentar.

– Isso é fato.

– Então pronto.

– Não, mas eu não to questionando isso não, eu sei que você me faria sentar de qualquer forma, só achei engraçado você responder sem nem me perguntar a respeito. – Sorriu.

– Acho que o nível de intimidade aqui já nos permite alguns abusos.

– Fato.

– Tá bom, agora me diz o que você acha do que você leu.

– Olha, não tem muita coisa aqui pra poder achar realmente alguma coisa, mas como ela mandou isso só pra você e, de certa forma, ela mencionou aquele momento estranho entre vocês...

– Que momento? – Interrompi perguntando.

– Aquela troca de olhares de vocês... enfim... se eu não tivesse visto aquilo, talvez não fosse enxergar nada demais, por mais estranho que seja, já que mandou só pra você, mas, justamente por ter visto o que vi, é que acho meio suspeita essa mensagem dela. Agora, a questão que não quer calar é: Por que você está tão incomodada com isso tudo?

– Eu não to incomodada.

– A gente estuda junto há dois anos... te conheço, né.

– Mas é sério, eu não to, eu só achei estranho e queria saber se era uma impressão só minha... foi só isso.

– Foi só isso sim... sei.

Pra ser sincera, Julia tinha razão, mas não queria abordar aquele sentimento ainda, até porque não entendia nem o que estava sentindo e não queria achar que realmente sentia alguma coisa por Bruna, ainda mais porque nem sabia quem aquela garota realmente era, mas sabia que sentia sim alguma coisa, isso era fato... enfim, eu só queria saber se era recíproco, ou não... só isso.

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