02- Privado

O que posso dizer? Naquela noite fui pra casa com aquele rosto fixo em minha mente. Queria estar pensando na aula, na matéria e em tudo que envolvesse a minha graduação, até porque aquela era a única aula daquela noite, mas não, estava eu pensando em Bruna, a garota que havia acabado de ver, até porque não posso nem dizer que conheci, pois não chegou a ser o caso... ainda.

– Vai querer jantar? – Me perguntou minha mãe, assim que entrei pela porta de casa.

Ela estava praticamente deitada no sofá, com nosso cachorrinho lindo, o Pituco, em seu colo, enquanto assistia alguma programação, que eu desconhecia por falta de tempo e interesse, na televisão. Me aproximei, beijei-lhe a testa, beijei nosso totó, me larguei ao seu lado sobre o sofá, e respondi, dizendo:

– Jantar, eu acho que não, mas daqui a pouco vou na cozinha e vejo algo pra comer.

– Você que sabe, mas se quiser, tem janta. – Me falou com carinho.

– Como foi seu dia? – Perguntei pra socializar.

– Cansativo e estressante, e o seu?

– Volta às aulas, né... sabe como é?

– Na verdade tem tanto tempo que saí disso, que nem me lembro como é. – Brincou.

– Faz sentido. – Ri. – Mas enfim, meu dia foi normal, nada de muito bom, e nem de muito ruim.

– Que bom, menos mal, isso já é motivo pra agradecer. – Brincou. – Foi na autoescola?

– Das minhas matérias que faltam, só tem vaga pra amanhã.

– Ah sim, o bom é que tá acabando, mas é assim mesmo.

– Com certeza. Enfim... vou pro banho.

Respirei fundo e me levantei, pois precisava me lavar, por mais que não me sentisse tão suja assim, mas precisava, porque me sentia angustiada, por causa daquele pensamento fixo, e queria ficar um pouco sozinha pra tentar processá-lo da melhor maneira na minha cabeça.

Debaixo do chuveiro quente, em meio a fumaça dentro do box, me encostei na parede gelada, fechei meus olhos e era como se conseguisse rever, com grande nitidez, aquela cena dentro da sala de aula. Bruna entrando, em “câmera lenta”, nossos olhos se encontrando e permanecendo conectados... seu sorriso.

Realmente fazia muito tempo que não me sentia daquele jeito por ninguém e era muito estranho estar sentindo por alguém que nunca havia visto em minha vida, mas não estava conseguindo não pensar... não lembrar. Aquele era o sorriso mais lindo e iluminador do Mundo. Pareço exagerada? Com certeza, mas era assim que me sentia, mesmo que contra a minha própria vontade.

Saí do banho, já vestida com minhas roupas de moletom largas, até porque estava frio naquela noite, e fui pro meu quarto. Peguei meu celular, liguei o abajur e me joguei em minha cama. Aquela luz amarelada era perfeita pra combinar com minhas emoções. Respirei fundo e desbloqueei meu telefone, mas antes que pudesse fazer qualquer coisa, ele começou a tocar.

– Oi, Ju. – Atendi dizendo.

– Viu o W******p?

– Ainda não, por quê?

– O professor colocou a gente no grupo da matéria, aquele que ele tinha comentado hoje na aula.

– Ah sim, legal... né?

Juro que não estava entendendo o porquê daquela ligação e o que de importante, ou interessante, poderia haver naquela informação, por isso meu tom em resposta era sempre de receio, desconfiança, ou algo assim.

– Você não viu mesmo o que houve depois? – Me perguntou ela.

– Te falei que ainda não. Eu cheguei agora pouco, troquei umas palavras com a minha mãe e fui pro banho, só agora que deitei e peguei no celular, mas aí você ligou, então não, eu não to sabendo de nada. – Ri. – Fala logo, porque você ta me deixando nervosa.

– Pois então. – Voz de riso. – Sua paquera pegou nossos contatos e nos colocou em outro grupo, também da matéria, mas sei lá, né.

Naquele momento eu me sentei tensa em minha cama enquanto sentia todo o meu corpo se arrepiar. No momento em que Julia havia me dito que o professor nos colocou em um grupo, eu não havia me atentado que Bruna também estaria lá e muito menos imaginaria que ela pegaria nossos contatos e nos colocaria em outro grupo.

– Eu vou olhar aqui, depois falo contigo. – Foi o que consegui dizer, tamanha era minha curiosidade.

Desligamos e de imediato abri meu aplicativo em busca daquelas informações e lá estava, não só os tais dois grupos, mas também uma mensagem enviada diretamente pra mim, uma mensagem privada, marcada com o número de telefone dela, já que nem seu nome eu sabia, mas com sua foto... que era linda, por sinal.

– “Oiê, me chamo Bruna. A gente se viu hoje na aula do Gil. Você e sua amiga devem ser de outra graduação, né? Sejam bem vidas.”

Essa era sua mensagem no meu privado, terminada com um emoji sorridente, o que expressava uma grande simpatia da parte dela, mas pra mim, que sou escaldada, aquilo era simpático demais pro meu gosto... ou costume. Abri o grupo do professor e não havia nada demais, ele era bloqueado para mensagens, só administradores podiam falar, então abri o outro, que parecia ser só dos alunos, e lá haviam poucas mensagens de boas vindas, também encabeçadas por Bruna.

– “Alguém te mandou mensagem no privado te dando boas vindas? – Perguntei pra Julia.”

– “Não, por quê?”

Larguei o celular como quem toma um susto e fiquei em choque, afastada e olhando pra ele como se fosse um monstro na minha frente. O que estava acontecendo? Era o que me perguntava, mas sabia que não podia surtar, porque a grande probabilidade era de que não estava acontecendo nada demais ali e eu que estava viajando nas idéias... será?

– “Oi Bruna, prazer, me chamo Ana. Tudo bom? A gente realmente não é da mesma graduação não e sim, a gente se viu hoje na aula do Gil. Agradeço pelas boas vindas.”

Também finalizei com um emoji simpático antes de desfalecer em minha cama e senti como se fosse morrer. Bruna havia mandado mensagem pra mim, mas não mandou pra Julia. Em sua mensagem, ela mencionou que nos vimos em sala de aula, ou seja, ela citou o que aconteceu entre nós... mas por que ela faria isso? Por quê?

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