Mundo de ficçãoIniciar sessãoROXANYA
A antiga porta da garagem rangeu por completo quando foi forçada a abrir e, alguns minutos depois daquele instante tenso, o ronco grave e reconhecível do motor do meu Nissan 240SX se fez ouvir. Damon surgiu guiando o meu carro com a mesma lentidão e força de alguém que arrasta um cadáver rumo a uma execução inevitável. Era um momento carregado de uma angústia profunda, porque aquele veículo não era apenas um meio de transporte; ele representava a materialização dos meus erros e conquistas. Era a única coisa boa que eu havia roubado e conseguido manter, mesmo com o chassi raspado para escapar das autoridades que me perseguiam incessantemente. Logo atrás do Nissan veio outro membro da gangue, conduzindo minha Suzuki GS500 azul — a moto que eu utilizava especificamente quando os crimes que eu precisava realizar exigissem discrição extrema e um carro chamaria atenção demais em certas situações delicadas.
Enquanto observava aquela cena, senti um aperto estranho, quase doloroso, no meu peito. Uma sensação ridícula e quase surreal, dado que se tratava apenas de objetos que não passavam de metal e borracha. No entanto, para mim, aquelas máquinas não representavam somente bens materiais; elas personificavam a essência da minha liberdade conquistada com muito suor e determinação. Cada quilômetro rodado e cada momento de perigo que meus braços e pernas suportaram ao pilotar ou dirigir para sobreviver era incorporado naquele carro e naquela moto azuis. Zack tinha plena consciência disso, assim como conhecia cada cicatriz invisível que carregava junto comigo.
Damon desapareceu novamente no interior da garagem e retornou carregando uma mochila velha, de cor marrom, cheia de rasgos, que se encontrava atrás de caixas de papelão amareladas, no canto mais escuro e escondido do fundo da minha garagem. Ali, dentro daquela bolsa, eu guardava todo o dinheiro que consegui juntar com os esforços diários: roubos arriscados, corridas desesperadas, mentiras habilidosas e a constante batalha pela mera sobrevivência. Aquele maldito saco era o cofre da minha vida precária e estava prestes a ser alvo de uma crueldade ainda maior.
— Filho da puta — minha voz escapou, carregada de um ódio tremendo e profundo.
Zack lançou um olhar frio e calculista sobre a mochila que Damon segurava e depois voltou os olhos inexpressivos para mim, como se esperasse algum tipo de reação que estivesse além do meu alcance naquele momento.
— Você realmente achou que eu não sabia? — disse ele, seu tom deixando claro que estava no controle absoluto daquela situação.
Senti meu rosto esvair toda a vida, perdendo a cor aos poucos, ficando pálido. Então, de maneira cruel e impiedosa, o desgraçado do Damon arremessou a mochila contra o chão, causando o espalhamento caótico dos maços de dinheiro que estavam lá dentro. As notas voaram por toda a calçada, como se fossem simples trocados de bar, e não a soma de anos de trabalho duro e lutas incessantes para garantir, nem que fosse, uma migalha de estabilidade e esperança para mim.
Era como se meu estômago tivesse sido apertado por mãos invisíveis e torcido em nós doloridos, uma sensação de mal-estar tão intensa que quase me fez vomitar.
— Isso é meu, seu filho da puta — eu gritei, minha voz saindo baixa e rouca, carregada da dor que sentia.
Zack respondeu numa voz quase inaudível, sussurrando como alguém que contém um segredo impiedoso:
— Que pena que era seu, princesa.
Então, com um movimento rápido e fatal, ele pegou o isqueiro em sua mão e o clique discreto, porém marcante, se fez ecoar no ar como se fosse mais estridente do que todos os motores e ruídos da sua gangue combinados em conjunto.
— Zack... — minha voz quebrou, falhando ao tentar expressar a mescla de medo, raiva e desespero que me dominava.
Ele sorriu de maneira fria, quase cruel, e soltou a chama na direção dos maços de dinheiro. Assistir ao isqueiro cair em câmera lenta foi como ver meus sonhos e sacrifícios se transformarem em fumaça diante dos meus olhos desesperados. O fogo consumiu rapidamente a primeira pilha de cédulas, fazendo com que as notas se retorcessem e se desintegrassem em cinzas que voavam com o vento. Sem pensar duas vezes, avancei na direção das chamas para tentar salvar alguma coisa, qualquer coisa, mas Zack continuou me segurando com força pelo braço e me puxou para trás, me impedindo de agir.
— Não! Me solta, seu filho da puta! — gritei, indignada e enfurecida.
— Olha bem, Roxanya — rosnou ele no meu ouvido, sua voz carregada de ameaça e desprezo. — É isso que acontece quando você pensa que pode sair da minha vida e fugir do meu controle.
— Eu não sou sua! Eu não pertenço a você, seu desgraçado — minha voz saiu firme, tentando romper as correntes invisíveis que ele tentava me impor.
Aproveitando o ímpeto daquele momento de ousadia, cuspi na cara dele; uma atitude de pura revolta e desafio contra a tirania que ele representava. O silêncio que se seguiu foi ainda mais doloroso e opressor do que um grito estridente, pois Zack agarrou meu rosto com uma mão firme e cruel, segurando meu queixo com força suficiente para causar dor, mas não a ponto de machucar fisicamente — um gesto que dizia muito sobre seu desejo de possuir e controlar, aliás, de submeter completamente minha vontade.
— Sua ingrata do caralho — ele sussurrou com uma voz carregada de rancor. — Agora você vai finalmente aprender o que significa estar fora da minha proteção e cuidado.
Meu sangue gelou na veia nesse instante, enquanto, discretamente atrás dele, Damon derramava cuidadosamente gasolina sobre o capô do Nissan, aumentando ainda mais a sensação de abandono e excesso de crueldade.
— Não encosta no meu carro — rosnei com uma voz tensa e ameaçadora, como alguém que defende um último bastião de sua identidade contra a destruição completa.
Zack não desviou o olhar nem por um milésimo de segundo, indiferente às minhas súplicas e ameaças.
— Você não vai precisar mais dele — respondeu com uma frieza cortante e definitiva.
Uma chama diferente, mais voraz, surgiu frenética, tocando o capô do carro como se o fogo tivesse esperado aquela oportunidade a vida inteira. Aquela explosão de cinza e labaredas laranja iluminou toda a rua.
Minha garganta ficou seca e presa, e uma vontade desesperada de chorar me invadiu. No entanto, resisti com todas as forças porque sabia que não poderia dar a ele o prazer de me ver vulnerável e abatida. Para completar, os vagabundos também queimaram minha valiosa moto. Foi como se arrancassem o chão sob meus pés, deixando-me flutuando no vazio da impotência e da perda.
Os demais membros daquela gangue imbecil começaram a acelerar suas motos enlouquecidamente, comemorando aquele ato de destruição como se se tratasse de um espetáculo grandioso e glorioso. Minha irmã, ainda parada e imóvel, observava tudo da varanda, pálida como uma folha de papel sulfite e, pela primeira vez, permanecia em silêncio completo — sem nenhuma frase venenosa ou sarcasmo pronto para lançar, como costumava fazer.
Finalmente, após destruir tudo aquilo que significava algo realmente importante para mim, Zack me soltou, como se o seu objetivo tivesse sido cumprido sem mais necessidade de manter o controle físico sobre meu corpo.
— Agora sim — murmurou, enquanto ajeitava a gola da jaqueta de couro preta. — Bem-vinda ao fundo do poço, Roxanya.
Encarei o fogo consumindo sem compaixão tudo o que eu possuía e, de repente, senti algo dentro de mim se quebrar, rachar em várias partes, mergulhando-me numa sensação de perda e derrota quase insuportável. Ainda assim, olhei para Zack e sorri, não porque estivesse achando graça da situação, mas porque me recusava a demonstrar o quanto aquilo me devastava por dentro e o quanto ele tinha conseguido me atingir naquele momento.
— Você acabou de cometer o maior erro da sua vida, Zack — disse com minha voz firme, apesar da turbulência emocional que me dominava.
Ele, com toda a audácia cruel de quem se sente no auge do poder, soltou uma gargalhada sarcástica e desumana.
— Eu só quis te lembrar quem realmente manda nesta cidade — declarou com arrogância e desprezo.
— Ah, então é só isso? Um ego ferido? — retruquei, a raiva queimando as palavras. — É por isso que você está queimando minha vida? Por que não suporta ouvir um simples “não” de mim?
Os olhos de Zack escureceram de maneira perigosa, cheios de intenções que eu preferia não imaginar.
— Você realmente acha que é só uma questão de ego? — indagou com voz baixa, mas ameaçadora.
— Eu acho que você é tão obcecado pelo controle que perdeu a razão no exato momento em que percebeu que eu não pertenço mais a você — respondi, desafiadora e firme.
Então ele se aproximou devagar, quase sorrateiro, até ficar tão perto que pude sentir o calor intenso do corpo dele misturando-se ao calor do incêndio atrás de mim — uma invasão silenciosa, mas ameaçadora.
— Você ainda não entendeu, não é? — a voz saiu baixa e controlada, ameaçadora. — Então deixa eu te explicar direito. — pausou, respirando fundo para intensificar a emoção. — O problema nunca foi você ir embora.
Meu coração disparou e bateu com força contra minhas costelas, como se tentasse fugir do corpo que já começava a tremer com tudo aquilo.
— Então, qual seria o problema, Zack? — perguntei, intrigada e com uma pitada de medo misturando-se à minha determinação.
Ele desviou o olhar para minha boca por um instante, antes de prender meus olhos de volta num olhar possessivo, obsessivo e doentio.
— O problema é imaginar outro homem tocando em você depois de mim — declarou ele, com uma intensidade quase palpável, como se a simples ideia lhe causasse uma raiva explosiva — e isso é completamente inaceitável.
Uma onda de ira atravessou meu corpo inteiro, fazendo-me estremecer e transformar em uma explosão de palavras afiadas.
— Ah, vai se foder — resmunguei, a fúria escorrendo em cada sílaba.
— Já pensei nisso — murmurou, o canto dos lábios formando um sorriso cheio de promessas sombrias e intenções obscuras. — Mas, ainda assim, prefiro foder você.
Antes que eu pudesse sequer contrapor uma resposta, Damon assobiou alto atrás de Zack, chamando sua atenção.
— Zack, os bombeiros e a polícia provavelmente vão aparecer a qualquer momento — alertou com voz prática, tentando manter o foco na situação.
Zack não tirou os olhos de mim por um único momento, mesmo diante da ameaça iminente da chegada das autoridades.
— Ótimo — respondeu com frieza, uma expressão que não demonstrava nenhum tipo de preocupação.
Meu sangue ferveu novamente, enchendo meu corpo de energia quase animal.
— Sai da minha frente antes que eu enfie uma faca na sua garganta, seu maldito — berrei, a fúria transbordando e o medo transformando-se em selvageria.
Zack abriu um sorriso lento e satisfeito, como se cada palavra minha fosse combustível para seu próprio poder.
— Essa é a minha garota — murmurou, sua voz cheia de possessividade e malícia.
— Eu não sou a porra da sua garota — repliquei com firmeza, encarando-o sem recuar.
Ele segurou meu queixo uma última vez, com a força justa para provocar dor, o suficiente para lembrar quem estava no controle.
— Continue repetindo isso, Roxy — disse com voz ameaçadora e desdenhosa. — Talvez em algum momento você consiga convencer não só a si mesma, mas também os outros.
Sem dizer mais nada, ele entrou no carro e partiu em alta velocidade, deixando para trás o cenário doloroso de tudo o que eu possuía sendo consumido pelas chamas diante da minha própria casa.







