Capítulo 6

Capítulo 6

ROXANYA

Durante um momento que pareceu suspenso no tempo, fiquei completamente parada, apenas observando o fogo crepitar vigorosamente diante de mim, engolindo impiedosamente aquilo que restava da minha última chance de deixar aquela cidade com a consciência limpa, sem dívidas pendentes com ninguém. Foi como se toda a rua tivesse congelado no tempo, com cada pessoa presente indiferente à situação, simplesmente assistindo, impotente, enquanto minha vida começava a se desfazer em cinzas e fumaça. Aquele fogo, voraz e desenfreado, consumia não só os objetos ao redor, mas também minhas esperanças e planos futuros. E quando tudo parecia silencioso demais, um grito cortou o ar preenchendo o vazio ao meu redor, despertando-me da paralisia.

— Água! Alguém traz água, rápido!

Foi então que Jorge surgiu apressado no meio da calçada, correndo descalço, trajando uma camiseta velha manchada e uma calça de moletom desgastada pelo tempo e pelo uso constante. Os vizinhos, que antes se limitavam a espiar timidamente da segurança de suas janelas, começaram a sair em pequenos grupos das casas, trazendo consigo o que encontravam de útil para tentar combater as chamas — alguns seguravam baldes cheios d'água prontos para ajudar a apagar o incêndio que ameaçava engolir tudo ao redor.

Sem hesitar, Jorge agarrou meu braço com firmeza e me puxou para longe do calor escaldante que emanava do fogo.

Com preocupação estampada no rosto, ele perguntou:

— Você está machucada? Tem algum ferimento?

Faço que não com a cabeça, pois fisicamente eu estava ilesa, mas emocionalmente, a situação era outra, completamente diferente.

— Não, não estou machucada — respondi com a voz trêmula.

Seu olhar então desviou para os maços queimados que haviam ficado espalhados próximo à garagem e sua expressão endureceu instantaneamente.

— Merda — ele murmurou, entendendo a gravidade da situação.

— Jorge... — comecei a falar, hesitante, como se buscasse uma maneira de controlar o caos que acabara de se desenrolar.

— Cala a boca e me escuta — sua voz saiu carregada de urgência e firmeza. — Você precisa desaparecer daqui imediatamente, antes que a polícia apareça e comece a fazer perguntas inconvenientes demais para a sua situação.

Senti meu estômago revirar com o peso daquela ordem.

— Eu não posso simplesmente fazer isso... — minha voz falhou enquanto tentava resistir à ideia de fugir.

— Você pode sim, e vai fazer isso — ele apertou meu braço com força, deixando claro que estava preocupado, com medo real pelo que poderia acontecer. — Eu arrumo toda essa confusão e faço essa rua esquecer que viu alguma coisa.

— Por que você faria algo assim por mim? — perguntei, surpresa com tamanha solidariedade.

Jorge me encarou, com uma expressão que parecia dizer que minhas dúvidas eram as mais idiotas possíveis.

— Porque você é a melhor amiga da minha filha e eu te conheço desde que você era piveta, Roxy — afirmou com convicção, deixando explícito que estava disposto a cuidar de mim como parte da família.

Antes mesmo que eu pudesse responder, a porta da minha casa foi escancarada com violência, e minha mãe surgiu como uma tempestade intensa, com seu robe de seda barata amarrado às pressas em torno do corpo, enquanto seus olhos brilhavam cheios de fúria descontrolada. Logo atrás dela, um homem mais velho aparece, ajeitando a calça com expressão pálida e arrepios aparentes, claramente arrependido de ter decidido pagar uma noite de prazer naquela casa.

Minha mãe lançou um olhar furioso para o fogo, depois voltou sua atenção para mim e, naquele instante eu soube, sem sombra de dúvidas, que eu era a culpada por todo esse desastre.

— Roxanya! — ela gritou em fúria. — Que inferno você trouxe para minha porta agora?

O meu nome saiu da boca dela carregado como uma pesada acusação, me fazendo fechar os olhos por um instante numa tentativa silenciosa de me proteger daquela raiva.

— Agora não, mãe — pedi, tentando adiar a tempestade que sabia que viria em seguida.

— Agora, sim! — ela rebateu com intensidade cortante. — Você tem noção do que acabou de fazer? Tem noção do escândalo que isso vai causar? Dos vizinhos falando sobre isso? Do meu cliente aqui dentro, nessa casa? Você acabou de destruir tudo!

Jorge rapidamente se colocou na minha frente, bloqueando a aproximação de minha mãe antes que ela pudesse chegar perto demais.

— Rosalinda, dá um tempo e deixa a garota respirar — pediu ele com uma calma firme, tentando acalmar a ira da minha mãe.

— Não se meta nisso, Jorge — minha mãe rebateu com frieza. — Isso não é problema seu.

— Quando tem fogo no meio da rua e a polícia vindo para cá, vira problema de todo mundo, sim — ele corrigiu, sem abrir mão de sua postura.

Rosalinda apontou o dedo em minha direção, furiosa, como se estivesse prestes a me transformar no bode expiatório de todas as suas frustrações e problemas.

— Mais uma vez, Roxanya, você conseguiu destruir tudo ao seu redor. Parabéns — ironizou, cheia de ressentimento e raiva.

Naquele instante, Ravenna apareceu logo atrás de minha mãe, cruzando os braços e exibindo aquele sorriso invejoso e satisfeito que sempre me irritava profundamente e me fazia querer explodir em raiva.

— Bom, tecnicamente, ela já começou pela garagem, mãezinha — disse com sarcasmo, como se provocasse ainda mais.

Virei o rosto para ela, furiosa por sua audácia.

— Cala a boca, Ravenna — retruquei, a voz carregada de desprezo.

— O quê? — ela respondeu, fingindo indignação. — Estou dizendo a verdade, não estou? Até onde eu vi, a confusão incluiu motos roncando, ameaças, incêndio criminoso e um ex-namorado psicopata fazendo um show na nossa porta.

Rosalinda respirou fundo, claramente deixando as palavras de Ravenna inflamarem ainda mais sua raiva.

— É verdade — minha mãe finalmente admitiu, apontando para Ravenna. — Sua irmã tem razão.

Eu não pude conter um riso amargo e sarcástico.

— Ah, claro que ela tem razão — falei com ironia. — Me desculpa por atrapalhar o expediente, mãe. Da próxima vez, vou pedir para que meu ex-namorado incendeie minha vida em horário agendado, assim não atrapalho ninguém.

O rosto dela endureceu diante da minha provocação.

— Não fale comigo nesse tom, mocinha — advertiu com firmeza.

— Então não aja como se eu tivesse pedido por tudo isso! — rebati, frustrada. — Meu carro, minha moto e todo o meu dinheiro desapareceram em um instante…

Jorge cortou minha fala de forma decisiva.

— Roxy! — chamou baixo, mas firme, numa tentativa de me alertar.

Mas já era tarde; minha mãe estreitou os olhos num gesto claro de desconfiança.

— Dinheiro? Que dinheiro? — questionou, com um tom que denunciava sua surpresa e preocupação.

Ravenna ergueu as sobrancelhas em uma expressão sarcástica e zombeteira.

— Ih, parece que alguém andava guardando alguns segredinhos, hein? — provocou, com um sorriso malicioso.

Jorge voltou-se para minha mãe com uma expressão séria e resoluta.

— Rosalinda, aqui não é o lugar para esse tipo de conversa — disse, tentando amenizar o clima.

— Já disse para você ficar fora disso, Jorge. Agora a Roxanya vai me responder que dinheiro é esse? — minha mãe insistiu, sua voz carregada de exigência.

Meu coração disparou em meu peito, batendo forte, quase explodindo. Então olhei para Jorge, que me fitou com uma expressão que implorava por silêncio e pela minha fuga imediata. Era um pedido silencioso: vai embora.

A verdade era que eu estava atrasada para o meu turno no The Rusted Halo e, naquela hora, ironicamente, esse pensamento parecia a parte mais normal da minha vida, considerando tudo o que acontecia à minha volta.

Rosalinda deu um passo à frente, avançando mais, intensificando sua fúria e pressionando buscando respostas.

— Você vai me responder agora — ela proferiu, a voz carregada de autoridade.

Mais uma vez, Jorge se interpôs, bloqueando sua aproximação e tomando um ar firme e decidido.

— Ela vai embora, Rosalinda.

— Como é que é?

— Ela vai embora agora mesmo — repetiu ele, desta vez com ainda mais convicção e firmeza.

Jorge segurou minha mochila de trabalho, que eu nem sabia quando ele tinha pegado, e me ofereceu de volta.

— Roxy, você tem que ir agora.

A frase me atravessou por completo e, por um momento, olhei para o fogo uma última vez, para os restos dos meus pertences consumidos pelas chamas, e decidi que, apesar da dor e da perda, seguiria as ordens dele, desapareceria dali antes que tudo piorasse ainda mais.

— Eu vou resolver isso — prometi.

Jorge assentiu, ainda desacreditando completamente na possibilidade.

— Eu sei, mas agora só vai — insistiu.

Rosalinda gritou meu nome novamente, tentando me impedir, mas eu já havia começado a andar. Desci a rua com a mochila batendo contra minhas costas, ciente de que se eu perdesse o meu turno no The Rusted Halo, poderia muito bem perder o único emprego que ainda não tinham tirado de mim.

Zack, meu ex-namorado psicopata, parecia determinado a despedaçar cada pedaço da minha vida, para que eu acabasse ajoelhada no chão, desesperada, implorando por qualquer fragmento de controle que ele decidisse devolver. Mas havia uma coisa que homens como Zack nunca conseguiam compreender: garotas como eu tinham aprendido, da maneira mais difícil, como sobreviver quando o mundo começa a desmoronar ao nosso redor. E, naquele instante, finalmente percebi com clareza que não teria tempo para quebrar. Eu precisava seguir em frente, resistir e, acima de tudo, lutar.

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