Capítulo 2

RENATA 

Mas quando cheguei em casa, as luzes estavam apagadas. Entrei no quarto de Lara; ela dormia feito um anjinho, seus cabelos encaracolados caídos sobre o rosto. Aproximei-me e lhe dei um beijo. Perdi o ânimo de jantar, então me arrastei até o banheiro — um banho quente e cama era tudo o que eu precisava para recarregar as baterias.

Quando o despertador tocou às 5h da manhã, eu já estava meio acordada, com aquele cansaço grudado nos ossos. Abri os olhos devagar, encarando o teto como se ele tivesse uma resposta para a vida. Não tinha, claro. Levantei da cama me arrastando, sentindo o peso de mais um dia prático ao carrasco Marcelo Almeida. Mas aí lembrei da Lara, minha pequena razão pra tudo, e o ânimo deu um jeito de rastejar de volta.

Fui para o quarto dela, ainda de pijama, e abri a porta devagar. Lá estava minha menina, dormindo como um anjinho, os cachinhos castanhos espalhados no travesseiro. Ela parecia tão em paz que quase senti pena de acordá-la. Quase.

— Ei, pequena, hora de levantar! A creche te espera — falei, sacudindo-a de leve, tentando soar animada.

Lara abriu um olho, me olhou como se eu fosse o inimigo número um, e soltou um gemido dramático.

— Não vou pra creche hoje — declarou, puxando o cobertor por cima da cabeça.

Pisquei, confusa.

— Como assim "não vou"? Claro que vai, mocinha. Levanta daí antes que eu te arraste pelo pé — retruquei, rindo, mas já sentindo um frio na espinha. Criança tem radar pra jogar bomba na nossa vida na pior hora possível.

Ela enfiou o rosto no travesseiro e murmurou algo que soou como “não tem aula”. Franzi a testa e puxei o cobertor dela.

— Lara, fala direito. Por que não tem aula? — tentei manter o tom leve, mas meu coração já acelerava.

— A tia disse que vão quebrar tudo lá. Não lembro — resmungou, Renatamente querendo voltar a dormir.

"Quebrar tudo?" Meu estômago deu um nó. Corri para o quarto, peguei meu celular na mesinha e fui direto pra cozinha, onde Helena estava fazendo café. Minha melhor amiga — e salvadora oficial da minha sanidade — parecia calma demais pro meu gosto.

— Helena, que história é essa da creche? A Lara tá dizendo que não tem aula, e eu achando que era só preguiça dela — falei, já abrindo as mensagens no celular.

Helena virou pra mim, soprando o café na caneca com uma tranquilidade irritante.

— Eu te mandei mensagem ontem à noite, Renata. Um cano estourou na creche, alagou tudo. Eles avisaram que hoje e amanhã vai ficar fechado — disse, como se fosse a coisa mais normal do mundo.

Revirei as mensagens, o pânico subindo. Nada.

— Helena, eu não recebi nenhuma mensagem! — reclamei, mostrando a tela pra ela como prova.

Ela deu de ombros, pegando o celular dela pra conferir.

— Olha aqui, mandei às 20h. “Creche fechada amanhã, cano estourou.” Tá enviado. Seu celular que tá de palhaçada — disse, jogando a culpa no meu aparelho velho.

Soltei um gemido, esfregando o rosto.

— Meu Deus, Helena, por que você não me ligou? Cheguei morta ontem, nem olhei o celular direito! — Minha voz saiu meio desesperada, mas tentei rir pra não surtar de vez. — Tá, tudo bem, você pode ficar com ela hoje, né? Salvar uma amiga aqui, como sempre.

Helena fez uma cara de quem queria dizer “não” sem magoar.

— Renata, eu adoraria, mas hoje não dá. Meu trabalho está presencial, tenho reunião o dia todo. O José também tá fora, então tô sozinha na missão — explicou, com aquele tom de desculpa que conheço bem.

Congelei, o cérebro girando em câmera lenta. Sem creche. Sem Helena. Sem opção. Olhei pra ela, rindo de nervoso.

— Beleza, então minha vida acabou. Vou levar a Lara pro trabalho e torcer pra não virar ex-funcionária antes do meio-dia. Marcelo vai me demitir com pompa e circunstância — falei, já imaginando ele gritando “sua vida não existe aqui” enquanto aponta pra porta.

Helena riu, tentando me animar.

— Vai dar certo, Renata. Esconde ela direitinho e reza pra ele nem perceber.

— Rezar? Eu vou precisar de um milagre, isso sim — retruquei, saindo pra arrumar a Lara antes que o pânico me engolisse de vez.

Voltei pro quarto dela, onde minha pequena ainda lutava contra o dia.

— Tá bem, mocinha, você venceu. Nada de creche. Mas você vai comigo pro trabalho, então levanta daí e se arruma rápido — falei, puxando ela da cama com um sorriso forçado.

Lara me olhou, desconfiada.

— Pro seu trabalho? Com o chefe malvado? — disse, os olhos arregalados.

Ri, mesmo com o coração apertado. Havíamos apelidado ele assim porque Lara precisava entender por que a mãe nunca estava. E ela decidiu que meu chefe era o vilão. Entre ela achar que sou uma mãe ruim ou ter um chefe ruim, decidi ficar com a segunda opção.

— Isso mesmo, o chefe malvado. Mas escute aqui, Lara — me abaixei para ficar na altura dela, segurando seus ombrinhos com carinho. — Você tem que se comportar, tá? Fica quietinha, não mexe em nada, não faz barulho. Se o Marcelo descobrir você lá, ele me demite na hora, e aí a gente vai morar debaixo da ponte. Entendeu?

Ela assentiu, meio séria, meio achando graça.

— Tá, mamãe. Eu fico boazinha.

— É o que eu espero, pequena — falei, dando um beijo na testa dela enquanto tentava não surtar. Renata, você é uma sobrevivente. Se sobreviveu cinco anos com o carrasco, sobrevive a um dia com a Lara no escritório. Ou não.

Peguei a mochilinha dela, joguei alguns brinquedos e um lanche dentro, e me preparei para o pior.

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