Mundo de ficçãoIniciar sessãoDepois de tanto tempo de estudo, o dia da prova finalmente chegou. Carmem acordou com um turbilhão de emoções: ansiedade, nervosismo e aquela dúvida cruel que surge quando desejamos muito alguma coisa — será que estou realmente preparada? Na noite anterior, quase não dormira. Por mais que fechasse os olhos, sua mente continuava desperta, cheia de fórmulas, datas e temores. Quando o despertador tocou, respirou fundo. Por alguns segundos, imaginou sua formatura como oficial da Marinha. Era um ritual particular que repetia sempre que precisava lembrar por que estava lutando. Levantou, agradeceu a Deus e começou a se arrumar.
Sua família, humilde e sem instrução, apoiava seu sonho com todo o coração. Carmem seria a primeira a concluir o ensino médio e a primeira a imaginar, de verdade, um futuro diferente daquele que a realidade parecia ter reservado para todos eles. Rosalina, que amadurecera cedo demais e já exercia o papel de segunda mãe para os irmãos mais novos, preparou um café simples e um lanche para ela levar. Ao vê-la sair, Iolanda sorriu e disse:
— Vai com Deus. Você vai conseguir.
Aquelas palavras simples encheram Carmem de uma alegria difícil de explicar. Os irmãos brigavam, como qualquer família grande, por diferenças bobas de idade e temperamento. Mas eram profundamente unidos. Até Deodato, apesar dos próprios vícios, não permitia que permanecessem brigados por muito tempo. Sempre dizia:
— Vocês têm o mesmo sangue e o mesmo cheiro. Precisam ficar unidos.
Naquela manhã, porém, Deodato havia dormido na calçada de um bar, vencido pela bebida. A caminho do ponto de ônibus, Carmem o viu largado no chão. Seu coração se apertou. Por alguns segundos, teve vontade de parar. Mas seguiu em frente. Precisava conquistar aquele sonho. Talvez apesar dele. Talvez por causa dele. No ônibus, com o coração acelerado, uma enxurrada de lembranças passou pela cabeça de Carmem: a infância, a fome, o trabalho, as noites de estudo e tudo o que desejava mudar na história da família. Quando já estava perto do local da prova, o trânsito parou. O ônibus quase não avançava. E o relógio corria contra ela.
Carmem percebeu que outras pessoas dentro do ônibus também fariam a prova. Estavam tão tensas quanto ela. Então tomou uma decisão.
— Motorista, abra a porta, por favor!
Desceu. Outros candidatos a seguiram. Primeiro caminharam depressa. Depois, correram. Até chegarem ao local da prova quando faltavam apenas dez minutos para o portão fechar. Carmem entrou. Parou por um instante. Respirou fundo. Esta é a minha chance. Eu estudei. Eu estou pronta. Eu vou conseguir. Na sala, entregou o documento, escolheu um lugar e se sentou. Olhou ao redor e sentiu as mãos tremerem. Todos pareciam mais preparados do que ela. Por um instante, Carmem se sentiu pequena diante daquela segurança que via nos outros candidatos. Então lembrou das palavras da mãe. Você vai conseguir. E aquilo bastou. Ela se acalmou. Concentrou-se. E fez a prova.
Usou cada minuto permitido. Foi a última a sair da sala. Estava exausta, mas carregava dentro de si uma sensação que não sentia havia muito tempo: confiança. Quando voltou para casa, encontrou os irmãos esperando por ela, ansiosos por notícias. Rosalina e Iolanda haviam preparado um almoço simples, mas especial. Era uma celebração de algo que ainda não tinha acontecido — mas que, para eles, já parecia real. Deodato estava sentado no quintal, fumando seu cachimbo. Olhou para Carmem e disse:
— Não sei pra que tudo isso. Sou burro e não morri. É melhor se contentar com essa vida.
As palavras doeram. Mas, em vez de derrubá-la, transformaram-se em combustível. Naquele momento, Carmem decidiu que não pararia de tentar. Se passasse, venceria. Se não passasse,
tentaria novamente. Mas não aceitaria que ninguém decidisse o tamanho do seu futuro. A segunda-feira chegou e Carmem voltou à rotina de trabalho. Naquele fim de semana, havia avisado à família de Dona Ana que não poderia estar presente por causa de um compromisso pessoal importante. Aos dezoito anos recém-completados, com o ensino médio finalmente concluído, sua vida começava a ganhar um pouco mais de espaço. Foi levando Dona Ana ao médico quando encontrou Cristina. Conversaram sobre várias coisas até que, tentando parecer casual, Carmem perguntou por Rafael.
Cristina disse que o via pouco, mas sabia que ele continuava no Exército e estava namorando uma menina que havia estudado com ela. Depois acrescentou que Carmem talvez tivesse escapado de uma bomba: Rafael era mulherengo e vivia entre baladas. Carmem respirou fundo.
— Graças a Deus, né?
Disse aquilo sorrindo. Mas, quando voltou ao trabalho, percebeu que ainda pensava nele. Talvez tivesse sido melhor assim. Ela era madura para a idade e tinha posições muito firmes sobre relacionamentos. Não queria, de maneira alguma, repetir o sofrimento que via estampado na vida da mãe. Algumas semanas depois, saiu a lista de aprovados. Rosalina ligou, afobada:
— Entra no site da Marinha e verifica a listagem!
Carmem abriu a página. O coração disparou. As pernas tremeram. E as lágrimas escorreram antes mesmo que ela pudesse contê-las. Seu nome estava lá. Por alguns segundos, ela apenas olhou. Todas as noites mal dormidas. Todo o cansaço. Os dias intermináveis. A fome. As dúvidas. Cada sacrifício parecia caber naquele único momento. Valera a pena. Ligou de volta para Rosalina.
— Fui aprovada!
Rosalina riu.
— Eu já sabia! Fui olhar antes de você.
Ela estava tão ansiosa quanto Carmem. Carmem pediu à vizinha que ficasse com Dona Ana por algumas horas e correu para casa para contar a novidade à mãe e separar os documentos necessários. Quando chegou, anunciou a aprovação. Iolanda ficou radiante. Abraçou a filha e espalhou para todos que Carmem havia passado no concurso para oficial da Marinha. Carmem foi aprovada em todas as etapas necessárias para o ingresso. Comunicou à família de Dona Ana que estava deixando o trabalho e indicou Juliete, a vizinha gentil que sempre tratara a senhora com carinho. Juliete era bem mais velha do que Carmem, mas entre as duas nasceu uma amizade sincera — daquelas que atravessam os anos, mesmo quando a vida muda completamente de direção.
Carmem ainda não sabia, mas aquele era apenas o primeiro grande passo da mulher que estava se tornando.
E, enquanto se preparava para deixar para trás a menina que fora, o destino já começava a preparar capítulos que ela jamais teria imaginado.







