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O beijo que ficou na memória

O nome dele era Rafael. Na juventude, Rafael chamava atenção sem precisar pedir por ela. Era um rapaz negro, alto, de ombros já largos pelo hábito dos exercícios, cabelos curtos e um sorriso fácil que contrastava com a intensidade do olhar castanho-escuro. Naquele dia, vestia uma camiseta clara e jeans, roupa comum demais para explicar por que Carmem se lembraria dele com tanta nitidez tantos anos depois. E, embora tivesse fingido indiferença diante de Carmem, a verdade era que ele também não conseguia esquecê-la. A imagem daquela jovem permanecia em sua cabeça: o olhar, o sorriso discreto, a maneira como ela havia tentado esconder o próprio constrangimento.

Rafael tentou seguir a vida normalmente. Não conseguiu. Ao chegar em casa, percebeu que havia cometido um erro: tinha ido embora cedo demais. Então inventou uma desculpa para voltar ao portão. Chamou Alexandre, um rapaz da vizinhança, e encontrou uma maneira de se aproximar de Cristina sem deixar tão evidente que o verdadeiro motivo era Carmem. Quando chegou, tentou parecer despreocupado. Mas bastou vê-la para que toda aquela indiferença desaparecesse por dentro.

— Seu nome é Carmem, né?

Ela sorriu.

— Sim. E o seu é Rafael. É bom vê-lo novamente.

Conversaram primeiro sobre coisas simples e, pouco a pouco, sobre assuntos que já pareciam menos simples. Havia uma atração entre os dois que nenhum deles fazia questão de admitir. Até que Rafael decidiu arriscar. Pediu para falar com ela a sós. Disse que não sabia se teria outra oportunidade de encontrá-la e que, desde a primeira vez que a vira, não conseguia tirá-la dos pensamentos. Então perguntou:

— Posso te beijar?

Carmem arregalou os olhos, surpresa.

— Como assim? Te conheci agora e você já vem com esse papo?

Ele sorriu. Aproximou-se um pouco mais. Segurou sua cintura com delicadeza e tornou a perguntar:

— Posso?

Dessa vez, Carmem não respondeu com palavras. Ela sorriu, ainda surpresa com a própria coragem. O sorriso veio primeiro; a resposta, logo depois.

— Pode.

O beijo aconteceu antes que qualquer um dos dois pudesse medir o lugar que aquele impulso ocuparia na memória. Foi sem pressa, sem promessas, mas intenso o bastante para transformar um encontro casual em lembrança. Quando se afastaram, os dois tentaram agir como se nada de extraordinário tivesse acontecido. Talvez fosse apenas um beijo. Talvez nunca mais se encontrassem. Talvez fosse apenas uma lembrança bonita para guardar. Rafael disse que voltaria a vê-la. Carmem não acreditou. Ou, pelo menos, tentou não acreditar. Na manhã seguinte, porém, ao passar em frente ao portão do condomínio, seu coração acelerou. Ela procurou por ele. Não o encontrou. Ainda não sabia que Rafael estava de serviço naquele domingo.

Seguiu seu caminho. A vida continuou. E, como sempre acontecia, a rotina voltou a exigir tudo dela: trabalho, estudo, cansaço e responsabilidades. Até que uma nova injustiça apareceu em seu caminho. Carmem foi acusada de roubo pelo patrão. Ela não havia roubado nada. Mas ninguém quis ouvir sua versão. O verdadeiro problema estava dentro daquela própria casa: a esposa do patrão desviava dinheiro para sustentar um relacionamento escondido com o vizinho. Carmem, entretanto, não sabia disso. Foi demitida. Humilhada. Saiu carregando uma culpa que não lhe pertencia.

Naquela época, ainda era jovem demais para conhecer seus direitos. Engoliu a injustiça e seguiu em frente. Porque desistir nunca havia sido uma opção.

Meses depois, encontrou trabalho como cuidadora de uma senhora idosa e senil. Carmem cuidava de tudo: da casa, da comida, do banho, da higiene e da própria senhora. Os filhos quase nunca apareciam. Mas Carmem aparecia todos os dias. E tratava aquela mulher com o carinho que gostaria de ter recebido tantas vezes da própria vida. Enquanto cuidava de uma mulher que lentamente perdia suas lembranças, Carmem lutava para construir as próprias. Seu sonho de entrar para a Marinha continuava vivo. Ela havia precisado abandonar o curso preparatório. Não tinha tempo. Não tinha dinheiro. Não tinha forças. Mas ainda tinha as apostilas antigas. E tinha uma coisa que ninguém conseguira tirar dela: a vontade de vencer.

Foi assim que Carmem continuou. Estudando sozinha. Trabalhando. Cuidando. Resistindo. Sem imaginar que, enquanto ela lutava para mudar o próprio destino, o destino ainda guardava Rafael em algum lugar do caminho. E talvez aquele primeiro beijo não tivesse sido um fim. Talvez tivesse sido apenas o começo.

                                                                                 ***

Naquela fase da vida, Carmem ainda não sabia dar nome ao que sentia. Sabia apenas que algumas lembranças apareciam nos momentos mais improváveis. Rafael surgia quando ela fechava uma apostila tarde da noite, quando passava pelo portão onde o procurara ou quando alguma música tocava no rádio da casa em que trabalhava. Não era exatamente saudade. Para sentir saudade, pensava, seria preciso ter vivido alguma coisa de verdade. E eles mal haviam começado. Mesmo assim, o beijo permanecia. Certa noite, depois de colocar a senhora de quem cuidava na cama, Carmem sentou-se à pequena mesa da cozinha com as apostilas abertas. A casa estava silenciosa. O relógio marcava quase meia-noite e, no dia seguinte, ela precisaria levantar cedo outra vez.

Leu a mesma questão três vezes sem compreender.

— Assim você não vai passar em prova nenhuma — murmurou para si mesma.

Fechou os olhos por alguns segundos. Estava cansada de precisar ser forte o tempo inteiro. Cansada de calcular dinheiro, ônibus, horários e oportunidades. Havia dias em que sonhar parecia um luxo reservado a quem não precisava sobreviver primeiro. Então se lembrou da forma como Rafael havia perguntado se podia beijá-la. Não tomara. Não presumira. Perguntara. Parecia um detalhe pequeno, mas Carmem guardou aquilo sem perceber por quê. A vida lhe ensinara cedo que muita gente confundia poder com direito. Talvez por isso aquele gesto simples tivesse ficado tão fundo. Ela abriu novamente a apostila.

— Um dia de cada vez.

Voltou a estudar. Rafael podia ou não reaparecer. A Marinha podia ou não acontecer. A vida podia continuar injusta por muito tempo. Mas Carmem começava a compreender uma coisa que carregaria para sempre: algumas pessoas cruzariam seu caminho; outras permaneceriam. O único caminho que ela não podia abandonar era o próprio.

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