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Valentina Moreira sorriu para o próprio reflexo no espelho.
Sobre a cama, havia catálogos de decoração, amostras de flores e uma pequena caixa de veludo onde descansavam as alianças que ela e Henrique haviam escolhido semanas antes. Faltavam apenas vinte dias para o casamento. Vinte dias para deixar para trás a sensação de nunca pertencer à família que a adotou e construir a sua própria.
Ela acreditava nisso.
Acreditava que, depois de anos ouvindo que precisava ceder, compreender e não criar problemas, finalmente seria feliz.
Seu celular vibrou sobre a penteadeira.
Henrique: "Desculpa, meu amor. Vou me atrasar de novo. A Lívia não está bem, estou levando ela ao médico."
Valentina releu a mensagem duas vezes.
Nos últimos meses, aquela justificativa havia se tornado frequente demais. Sempre era Lívia. Sempre a irmã adotiva que havia retornado para a família há poucos anos e rapidamente se tornado o centro do universo de todos.
— Tudo bem... — murmurou para si mesma. — Ela é sua amiga também.
Era o que repetia para acalmar o aperto no peito.
Ela pegou as chaves do carro. Precisava entregar alguns documentos na empresa onde trabalhava como diretora financeira. O presidente do grupo, Leonardo Vasconcelos, era conhecido por ser um homem exigente e extremamente reservado. Quase ninguém o via pelos corredores. Diziam que ele passava mais tempo viajando do que no próprio escritório.
E, quando aparecia, o silêncio tomava conta do prédio.
Valentina nunca tinha conversado com ele além do estritamente necessário. Ainda assim, bastava a presença daquele homem para fazer executivos experientes abaixarem a cabeça.
Ela afastou esse pensamento.
Naquele dia, a única coisa que importava era terminar o expediente cedo e encontrar Henrique para provar o terno do casamento.
Ou pelo menos era esse o plano.
Ao chegar ao prédio da empresa, percebeu que havia esquecido uma pasta importante em casa. Resmungando baixinho, deu meia-volta e dirigiu de volta para a mansão dos Moreira.
A casa estava estranhamente silenciosa.
Os empregados não estavam no jardim. A governanta também não apareceu para cumprimentá-la. Valentina subiu as escadas carregando a bolsa e, quando passou pelo corredor do segundo andar, ouviu uma risada conhecida.
Era a voz de Lívia.
Ela parou.
A porta do antigo quarto de hóspedes, agora ocupado pela irmã, estava entreaberta. Sem querer, seus olhos encontraram a cena do outro lado.
Henrique estava ali.
Não estava conversando.
Nem consolando.
Ele segurava o rosto de Lívia com as duas mãos enquanto a beijava como um homem que havia esperado por aquele momento durante anos.
A pasta escorregou dos dedos de Valentina e caiu no chão com um estrondo.
Os dois se afastaram imediatamente.
Henrique empalideceu.
— Va... Valentina...
Lívia, ao contrário, não parecia assustada. Apenas ajeitou o vestido e encarou a irmã com um olhar quase desafiador.
— Você não ia para a empresa? — perguntou, sem o menor sinal de culpa.
Valentina olhou para o homem que amava.
Esperou uma explicação.
Uma mentira qualquer.
Um pedido de desculpas.
Mas Henrique apenas abaixou a cabeça.
E, naquele instante, ela entendeu a verdade mais cruel de todas.
Aquilo não tinha acabado de acontecer.
Ela não estava descobrindo um erro.
Estava descobrindo um segredo.
Um segredo do qual ela era a única pessoa que não sabia.
As lágrimas ameaçaram cair, mas ela as conteve. Não daria esse espetáculo a eles.
Com a voz trêmula, mas firme, fez apenas uma pergunta:
— Há quanto tempo?
Henrique abriu a boca, incapaz de responder.
Quem respondeu foi Lívia.
Com um sorriso pequeno, quase vitorioso, ela segurou a mão dele e disse:
— Tempo suficiente para você entender que ele nunca foi realmente seu.







