Mundo de ficçãoIniciar sessãoDante De Luca
Eu definitivamente não deveria ter voltado para casa hoje.
Essa foi a primeira coisa que pensei enquanto encarava a garota desacordada no sofá da sala da mansão De Luca.
Porque em menos de uma hora, minha vida virou do avesso de um jeito completamente ridículo.
Primeiro encontrei uma estranha no jardim.
Depois descobri que ela não era uma estranha.
Era a noiva do meu irmão.
A garota escolhida pela minha mãe para sustentar mais um dos seus jogos doentios de poder.
E então…
Ela quase morreu nos meus braços.
Passei a mão lentamente pelos cabelos, tentando ignorar o caos que estava acontecendo dentro da minha cabeça.
Mas era impossível.
Porque toda vez que eu olhava para ela…
Sentia aquela merda de novo.
A explosão.
A descarga elétrica.
A sensação absurda de que meu corpo inteiro estava prestes a incendiar.
Que inferno.
Cora Moreira estava deitada no sofá da sala principal usando um moletom enorme e um short simples, completamente diferente das mulheres que frequentavam aquele lugar.
Nada nela parecia artificial.
Nada parecia treinado.
Ela não falava como alguém da alta sociedade.
Não sorria por interesse.
Não calculava cada palavra antes de dizer.
Ela era real.
E talvez fosse exatamente isso que me deixava tão fodido.
Porque eu não lembrava da última vez em que conheci alguém real.
Me aproximei devagar do sofá.
Ela respirava melhor agora.
A injeção havia começado a fazer efeito, mas ainda estava desacordada.
Meu olhar percorreu seu rosto lentamente.
Os cílios longos.
Os lábios levemente entreabertos.
A pequena marca avermelhada no pescoço por causa da picada.
Merda.
Eu estava olhando para ela como um psicopata.
Mas não conseguia parar.
Porque quando Cora virou naquele jardim e me olhou pela primeira vez…
Foi como se algo tivesse explodido dentro de mim.
E eu odiei isso imediatamente.
Odiei porque ela era proibida.
Odiei porque era a noiva do Otto.
E principalmente…
Porque meu irmão merecia paz.
Não mais problemas.
Não mais dores.
Principalmente depois de tudo que ele já carregava escondido a vida inteira.
Fechei os olhos por um instante tentando recuperar o controle.
Mas a imagem dela voltava.
Ela sentada naquele banco.
Passando os dedos pelos nomes gravados na madeira.
Otto & Julian.
A forma como seus olhos encheram de lágrimas.
A compaixão sincera na voz dela.
Meu Deus.
Ela não sentiu nojo.
Não julgou.
Não fez perguntas cruéis.
Ela apenas… entendeu.
Isso era raro.
Assustadoramente raro.
A maioria das pessoas naquele mundo pisaria em Otto sem pensar duas vezes se descobrisse a verdade.
Principalmente nossa mãe.
Alma De Luca não amava pessoas.
Ela amava controle.
Imagem.
Poder.
E destruiria qualquer coisa que ameaçasse isso.
Inclusive o próprio filho.
Por isso eu tinha medo.
Não dela.
Nunca dela.
Mas do que eu seria capaz de fazer se ela machucasse Otto.
Abri os olhos lentamente voltando a olhar para Cora.
Droga.
Até desacordada ela era bonita.
Mas não uma beleza produzida.
Era diferente.
Quente.
Humana.
Os cabelos castanhos espalhados pelo sofá deixavam ela ainda mais nova.
Mais vulnerável.
Mais perigosa.
Porque pessoas como ela não deveriam entrar no nosso mundo.
O mundo dos De Luca destruía tudo o que tocava.
E eu sabia disso melhor do que ninguém.
— Ela está viva ou você só está admirando ela dormir?
A voz divertida atrás de mim me fez virar imediatamente.
Kael estava parado na entrada da sala segurando uma cerveja.
Filho da puta.
— Você não sabe bater?
— Na minha própria casa? Não.
Revirei os olhos.
Kael me conhecia há tempo demais.
Crescemos juntos.
E isso era um problema porque ele percebia coisas demais.
Como agora.
Seu olhar alternou lentamente entre mim e Cora desacordada.
Então ele sorriu.
Merda.
Aquele sorriso era péssimo sinal.
— Não começa.
— Eu não falei nada.
— Seu rosto falou.
Kael gargalhou baixo entrando na sala.
— Então essa é a famosa noiva do Otto?
— Aparentemente.
— Bonita.
Ignorei o comentário.
Ele se aproximou observando Cora com curiosidade.
— O que aconteceu?
— Abelha.
— Sério?
— Ela é alérgica.
Kael fez uma careta.
— E você salvou ela igual um príncipe problemático de filme.
— Vai se ferrar.
Ele riu.
Depois ficou em silêncio me observando.
E então ficou sério.
— Qual o problema?
Cruzei os braços imediatamente.
— Não tem problema nenhum.
— Dante…
Droga.
Eu odiava quando ele usava esse tom.
Porque significava que já tinha percebido alguma coisa.
— Você está olhando pra ela estranho.
— Estranho como?
Kael tomou um gole da cerveja calmamente.
— Como se estivesse tentando descobrir se consegue respirar perto dela.
Meu maxilar travou.
— Você está delirando.
— Conheço você desde os oito anos. — ele respondeu. — Nunca te vi olhar pra alguém assim.
Desviei os olhos imediatamente.
Porque ele estava certo.
E isso era pior.
Muito pior.
— Ela é a noiva do Otto.
Kael arqueou uma sobrancelha.
— E?
— E isso deveria significar alguma coisa.
— Pra você ou pra ele?
Aquilo me irritou imediatamente.
— Cuidado com o que fala.
— Eu estou falando sério.
Passei a mão no rosto frustrado.
— Otto merece uma vida tranquila.
— Otto merece poder amar quem ele quiser.
Aquilo bateu forte.
Porque era verdade.
Mas a verdade nunca importou naquela família.
Apenas aparência.
Controle.
Negócios.
Kael observou Cora novamente.
— Ela sabe?
— Sim.
— E?
Demorei alguns segundos para responder.
Porque eu ainda estava tentando entender a reação dela.
— Ela chorou.
Kael franziu a testa.
— Chorou?
— Pela dor dele.
O silêncio caiu entre nós.
Kael pareceu genuinamente surpreso.
— Isso é… inesperado.
— Eu sei.
Ele voltou a me olhar lentamente.
— E isso mexeu com você.
Bufei irritado.
— Tudo mexeu comigo hoje.
— Interessante.
— Kael.
— Estou apenas observando.
Aproximei-me dele irritado.
— Então observa quieto.
Ele começou a rir.
— Você está completamente ferrado.
— Cala a boca.
— Ah, meu Deus. — ele praticamente gargalhava agora. — Dante De Luca realmente sentiu alguma coisa por alguém.
— Eu não senti nada.
— Claro.
— Ela quase morreu, idiota.
— E você quase teve um ataque cardíaco.
Revirei os olhos violentamente.
Mas no fundo…
Ele não estava errado.
Porque quando Cora começou a perder o ar nos meus braços…
Eu senti pânico.
Pânico real.
E eu não entrava em pânico fazia anos.
Kael se sentou na poltrona mais próxima.
— Então… como ela é?
Olhei novamente para Cora.
— Diferente.
— Diferente bom ou diferente ruim?
— Diferente perigoso.
Ele sorriu discretamente.
— Agora fiquei curioso.
Suspirei pesadamente.
— Ela fala o que pensa.
— Milagre.
— Não parece impressionada com dinheiro.
— Outro milagre.
— Chamou nossa mãe de maluca na minha cara.
Kael gargalhou.
— Já gostei dela.
Apesar da situação, acabei soltando um sorriso pequeno.
Porque Cora realmente tinha coragem.
Ou inconsciência.
Talvez os dois.
Ela enfrentava tudo naturalmente.
Como se não percebesse o peso do sobrenome De Luca.
E isso mexia comigo.
Porque todos naquele mundo se curvavam.
Tinham medo.
Jogavam conforme as regras.
Cora não.
Ela simplesmente… existia.
Sem máscaras.
Sem fingimento.
Sem tentar agradar.
E talvez por isso eu não conseguia tirar os olhos dela.
— Você precisa se controlar. — Kael disse de repente.
O sorriso desapareceu do meu rosto.
— Eu sei.
— Estou falando sério, Dante.
— Eu também.
Porque aquilo não podia acontecer.
Não podia.
Cora estava entrando numa guerra sem nem perceber.
Uma guerra silenciosa.
Perigosa.
E eu deveria manter distância.
Era o certo.
Pelo Otto.
Pela estabilidade daquela família.
Pela própria Cora.
Mas então…
Ela se mexeu no sofá.
Meu corpo inteiro reagiu instantaneamente.
Kael percebeu.
Claro que percebeu.
— Meu Deus. — ele murmurou rindo incrédulo. — Você tá muito fodido.
Ignorei completamente enquanto me aproximava do sofá.
Os olhos dela começaram a abrir lentamente.
Confusos.
Desorientados.
Até encontrarem os meus.
E foi só isso.
Só um olhar.
Mas senti de novo.
Aquela explosão absurda.
Como fogos de artifício incendiando tudo dentro de mim.
Ela piscou algumas vezes tentando entender onde estava.
— Eu morri?
Não consegui evitar a risada baixa.
— Ainda não.
A voz dela saiu rouca.
— Que pena.
— Dramática.
Ela tentou sentar imediatamente, mas segurou a cabeça fazendo careta.
— Ai…
Instintivamente segurei sua cintura ajudando ela devagar.
E o simples toque quase destruiu meu autocontrole.
Merda.
Merda.
Merda.
Cora finalmente percebeu Kael sentado ali.
— Tem outro homem estranho na sala.
Kael colocou a mão no peito teatralmente.
— Que grossa.
Ela piscou confusa.
— Quem é você?
— Kael. Melhor amigo desse maluco emocionalmente reprimido aqui.
— KAEL. — rosnei imediatamente.
Cora me olhou surpresa.
Depois começou a rir baixinho.
E meu Deus.
Aquilo foi pior.
Porque o som da risada dela bateu em mim de um jeito completamente ridículo.
— Você me salvou? — ela perguntou olhando pra mim novamente.
Assenti.
— Obrigada.
Simples.
Sincera.
Sem teatro.
Sem sedução.
Só gratidão.
E aquilo mexeu comigo mais do que deveria.
Muito mais.
Kael levantou da poltrona lentamente.
— Certo. Vou deixar vocês dois aproveitando essa tensão sexual absurda sozinhos.
— SOME DAQUI. — falei imediatamente.
Cora arregalou os olhos enquanto Kael praticamente saía gargalhando da sala.
— Ele é sempre assim?
— Infelizmente.
Ela sorriu pequena.
Depois me encarou em silêncio.
E alguma coisa mudou no ar.
Ficou mais denso.
Mais quente.
Mais perigoso.
Porque agora estávamos sozinhos.
E pela primeira vez em muito tempo…
Eu realmente não sabia o que fazer.
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