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Capítulo 7: Sob a Lente do Controle

~~ Giovanne ~~

O silêncio do meu quarto era quebrado apenas pelo clique suave do teclado do meu laptop e pelo som que saía diretamente dos meus fones de ouvido. Eu estava deitado, com as costas apoiadas na cabeceira da cama e o computador sobre o corpo, mas a minha mente não estava focada nas planilhas de faturamento internacional. Eu estava escutando.

Quando projetei as regras daquele contrato, a segurança da Vance Neuro-Genetics veio em primeiro lugar. Eu havia instalado escutas de alta sensibilidade no quarto dela. Minha ética pessoal me impediu de colocar câmeras, eu não invadiria a privacidade de uma mulher a esse ponto, mas eu precisava mantê-la sob total vigilância. Cada suspiro, cada passo e cada palavra dita dentro daquela suíte, no carro ou na empresa, passariam pelo meu crivo. Eu precisava saber se ela ligaria para o Renato, se faria contato com a Apex ou se começaria a negociar o restante dos códigos pelas minhas costas.

O som da voz de Jade através do monitor de áudio me fez pausar a digitação. Ela estava em uma chamada de vídeo com a mãe.

— Cheguei sim. Eu estava organizando as minhas coisas. Olha só, esse é o meu novo quarto…

A voz dela, que horas antes vibrava em deboche na minha sala, agora soava doce, leve, quase infantil.  Ouvi a empolgação da mãe do outro lado da linha, deslumbrada com o luxo, acreditando piamente que a filha havia alcançado o ápice do sucesso profissional.

— Estou muito feliz, mamãe. Amanhã te conto como foi o meu primeiro dia no trabalho. Tá bom?

Fechei os olhos, sentindo um aperto incômodo no peito. Jade estava mentindo, estava engolindo o próprio orgulho, a humilhação de ser minha prisioneira e o medo do desconhecido apenas para poupar aquela mulher de qualquer sofrimento. Ela mascarava a própria dor para dar paz à sua família.

Um fascínio involuntário e perigoso começou a serpentear pelos meus pensamentos. Pela primeira vez, senti uma pontada de penalização e olhei para o teto, questionando minhas próprias decisões. Mas logo balancei a cabeça, repreendendo-me severamente. 

“Acorde, Giovanne”, ordenei a mim mesmo em pensamento. 

Sentimentos foram o meu caixão no passado. Eu não podia me deixar levar pelas máscaras de pessoas que pareciam inofensivas demais. No mundo dos negócios, as ovelhas mais mansas costumam esconder os lobos mais vorazes. Voltei a focar no trabalho, mas o som do choro abafado que se seguiu no quarto ao lado, durando por muito tempo, ecoou nos meus fones de ouvido como uma acusação silenciosa.

Na manhã seguinte, levantei-me cedo. O fuso horário ainda cobrava seu preço, e eu precisava de cafeína para aguentar o dia que teria pela frente. Estava na cozinha, usando apenas um short de dormir preto, sem camisa, fatiando bacon e quebrando ovos na frigideira quando ouvi passos hesitantes no corredor.

Jade apareceu na entrada da cozinha. Seus olhos estavam nitidamente inchados, as pálpebras vermelhas denunciando a noite de choro que eu havia testemunhado em segredo. No entanto, no momento em que ela me viu, seu corpo tencionou. Notei o constrangimento imediato que a paralisou no lugar ao perceber a minha falta de vestimenta. Seus olhos baixaram rapidamente, desviando do meu peito e focando no balcão de granito, tive que conter um sorriso.

Eu havia feito comida a mais de propósito. Não por bondade, disse a mim mesmo, mas porque precisava dela alimentada e saudável para trabalhar.

— Fiz ovos com bacon para mim, se você quiser — ofereci, mantendo o tom de voz neutro, quase indiferente, enquanto colocava a frigideira sobre o descanso de prato. — Tem pão, leite e café. Na geladeira tem queijo também.

— Está ótimo. Obrigada — ela respondeu de forma seca, evitando me olhar a todo custo.

Com movimentos rápidos e desajeitados pelo nervosismo, ela pegou um prato, serviu uma porção pequena de comida, agarrou uma xícara de café e se retirou imediatamente, praticamente fugindo de volta para o isolamento do seu quarto. Um meio sorriso quase ameaçou surgir nos meus lábios, ela era previsível em seu orgulho.

Algum tempo depois, quando eu já estava vestido com a calça do meu terno e uma camisa social branca de botões, Jade se aproximou da sala de estar. Ela já estava pronta para sair, vestindo roupas discretas, e trazia um pedaço de papel rasgado na mão.

— Essas são as coisas que vou precisar, senhor — ela disse, estendendo o papel, a voz formal. — Mas se quiser me dizer como chego no mercado, posso comprar. Consigo me virar com isso.

Peguei o papel de sua mão, nossos dedos se roçando por um milésimo de segundo. Analisei os itens escritos com uma caligrafia firme: xampu e condicionador básico, sabonete, absorventes, um pacote de torradas, iogurte natural e frutas. Coisas extremamente simples e baratas. Nada de caprichos, nada de marcas caras.

— Só isso? Tem certeza? — perguntei, erguendo os olhos para ela.

Jade apenas concordou com a cabeça, dando de ombros com desinteresse.

— Como saberei quem é o motorista? — ela questionou, mudando de assunto.

Exatamente no segundo em que ela terminou de falar, o som agudo da campainha do elevador privativo ecoou pela cobertura. Gesticulei com a cabeça na direção da porta, deixando que o som fosse a resposta.

— Quando chegar à sede, uma funcionária de extrema confiança irá recebê-la para apresentar o laboratório — expliquei, guardando o papel no bolso da calça. — Tenho uma reunião com o conselho daqui a pouco, mas logo em seguida passarei por lá para verificar como vão as coisas.

— Certo. Vou indo então. Tenha um bom dia, senhor Vance — ela desejou de forma automática, virando-se e caminhando em direção ao elevador com as costas erguidas.

Assim que as portas de metal se fecharam e eu tive a certeza de que estava completamente sozinho, minha postura desmoronou. Soltei o ar que prendia, meus ombros relaxando. Retirei a lista do bolso e a encarei novamente. Uma pontada de pena legítima me atingiu, eu não era o monstro que demonstrava ser em sua presença, eu estava apenas na defensiva, sangrando por feridas que ela não causara. Mas ver aquela lista tão miserável de pedidos de uma mulher que tinha o futuro da minha empresa nas mãos me fez perceber o quão injusta era aquela engrenagem.

Mas eu não tinha tempo para piedade.

Uma hora depois, eu cruzava as portas de vidro da sala de reuniões do último andar da Vance Neuro-Genetics. A atmosfera ali dentro era hostil, o ar condicionado parecia mais frio do que o normal. Sentados ao redor da mesa circular de carvalho, estavam os acionistas majoritários e, na cabeceira oposta, as duas pessoas que eu mais detestava no mundo: meu tio, Washington Duarte, e meu primo, Jacob.

— O mercado está sangrando, Giovanne — Washington começou, batendo com os nós dos dedos na mesa, os cabelos brancos alinhados e os olhos brilhando com uma ambição indisfarçável. — As ações caíram mais quatro por cento esta manhã devido aos boatos de que a Apex patenteou a nossa tecnologia neural. Seu pai construiu essa empresa com base na infalibilidade. Desde que você assumiu, após o erro com a Alexandra, só vemos desastres.

Jacob, meu primo, sorriu de lado, ajeitando a gravata com desdém. — O conselho está perdendo a fé na sua liderança, primo. Se não tivermos um produto inovador pronto para testes em trinta dias, entraremos com uma moção para redistribuição da presidência. Minha equipe está pronta para assumir.

A provocação era clara. Eles queriam me ver perder o controle, queriam que eu implorasse por tempo. Apoiei os cotovelos na mesa, juntei as mãos em frente ao rosto e sustentei o olhar de Washington e Jacob, mantendo uma postura imperturbável, rígida como o aço.

— A Apex não patenteou nada além de lixo incompleto, tio Washington — minha voz saiu pausada, cortando o burburinho dos acionistas como um trovão silencioso. — O mercado opera à base de sussurros, mas eu opero à base de fatos. A mente por trás do projeto já está em solo americano, trabalhando sob o meu monitoramento direto e exclusivo na nossa sede. O problema está sendo resolvido.

— E quem é esse cientista? O tal criador não foi contratado pela Apex? — Jacob pressionou, estreitando os olhos. — Queremos o nome dessa pessoa para a auditoria.

— O projeto é de segurança nível quatro e exclusividade da presidência — rebati, levantando-me e abotoando o paletó, encerrando a discussão antes que ela ganhasse fôlego. — Vocês terão os resultados na minha mesa no prazo estipulado. Até lá, sugiro que foquem em manter suas próprias responsabilidades. 

A discussão se estendeu mais um pouco, mas eu precisava me manter firme diante de tantos abutres, afinal, manter o legado do meu pai de pé era importante somente para mim, para eles, não passava de ambição.

Deixei a sala sem olhar para trás, sabendo que o meu pescoço continuava na guilhotina. Washington e Jacob não parariam até me ver cair. Minha única salvação estava trancada no meu laboratório secreto. Eu precisava ir até lá, precisava ver se a Dra. Vasconcelos era de fato a minha tábua de salvação ou a minha ruína definitiva.

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