Mundo de ficçãoIniciar sessãoJohn narrando
A palavra noiva ainda ecoava na minha cabeça. Meu irmão continuava falando, explicando algo sobre a cidade, sobre a fazenda, sobre o casamento que aconteceria em poucas semanas. Mas eu não estava ouvindo. Não de verdade. Eu só conseguia olhar para ela. Sarah. Ela estava sentada ao lado de Robert, com as mãos entrelaçadas no colo, tentando parecer tranquila. Mas eu reconhecia os sinais. A respiração um pouco presa. Os dedos se movendo discretamente. O olhar que evitava o meu a todo custo. Ela também estava lembrando. Da estrada. Dos motoqueiros. Do silêncio dentro do carro. Do tempo que passamos sozinhos. E, principalmente, do fato de não termos contado nada. — John? A voz de Robert me puxou de volta. — Hein? — Você está ouvindo? — Estou. Não estava. Sarah levantou os olhos por um segundo. Apenas um. Foi o suficiente. O contato foi rápido, mas carregado demais. Ela desviou imediatamente. Como se fosse errado. E era. Robert passou o braço ao redor dos ombros dela, aproximando-a de si. Um gesto simples. Natural. Mas algo dentro de mim reagiu com uma força que me irritou. Eu não tinha direito nenhum àquela reação. Ela era a noiva dele. Eu a conhecia há poucas horas. E mesmo assim, meu corpo parecia ter ignorado completamente essas informações. Ela se levantou depois de alguns minutos. — Vou pegar água. Robert assentiu, ainda falando. Nem percebeu o modo como ela saiu rápido demais. Eu esperei. Um minuto. Talvez menos. Depois fui até a cozinha. Ela estava de costas para mim, segurando o copo com as duas mãos. Não estava bebendo. Apenas parada. Como se estivesse tentando organizar os pensamentos. — Você não contou. Ela fechou os olhos por um instante antes de se virar. — Não achei necessário. A resposta veio rápida demais. — Quatro caras cercaram seu carro. — Já passou. — Não graças a você. Ela respirou fundo, claramente irritada. — Não quero que o Robert fique paranoico. Então era isso. — Você não quer que ele te proíba de sair sozinha. Ela não respondeu. Mas o silêncio confirmou. Dei mais um passo para dentro da cozinha. O espaço entre nós diminuiu. Percebi o momento exato em que ela ficou consciente disso. Os ombros tensionaram. A respiração mudou. Ela lembrava. — Você ficou com medo — falei. — Qualquer pessoa ficaria. — Você tentou disfarçar. Ela me encarou. — Eu não gosto de parecer fraca. Aquilo me pegou desprevenido. Não era a resposta que eu esperava. Havia algo ali. Orgulho. Força. E uma vulnerabilidade silenciosa. — Você não parece fraca — respondi. O silêncio caiu entre nós. Pesado. Denso. Perigoso. Ela segurava o copo, mas não bebia. Eu observava cada detalhe. O cabelo caindo no ombro. A respiração ainda irregular. O modo como evitava se mover, como se qualquer gesto pudesse aproximar demais. — Obrigada pelo carro — ela disse, finalmente. — Não foi nada. Mas não foi só isso. Nós dois sabíamos. Ela deu um passo para sair. Passou por mim. O espaço era pequeno demais. O braço dela roçou no meu. Um contato leve. Acidental. Meu corpo reagiu imediatamente. Ela também percebeu. Parou por uma fração de segundo. Depois saiu. Fiquei ali, parado, tentando ignorar a sensação que ainda queimava na minha pele. Quando voltei para a sala, Robert estava rindo de algo. Sarah sentou-se novamente ao lado dele, mas agora parecia mais distante. Mais quieta. Mais consciente. De mim. Em um momento, ela mexeu na aliança. Girou o anel no dedo, distraída. Nervosa. Eu não devia estar reparando nisso. Mas estava. Robert continuava falando sobre o casamento. Sobre convidados. Sobre a festa. Sobre o futuro deles. Cada palavra soava mais errada na minha cabeça. Porque tudo que eu conseguia pensar era que poucas horas antes, ela estava sozinha comigo na estrada. E agora… Ela seria parte da minha família. Ela levantou os olhos novamente. Desta vez, demorou um pouco mais. Como se tivesse decidido parar de fugir. O olhar encontrou o meu. Ficou. Havia algo ali. Pergunta. Confusão. Algo que nenhum de nós dois queria sentir. Ela desviou primeiro. E naquele momento eu entendi uma coisa que me incomodou profundamente. Ela também estava tentando não reparar em mim. E isso tornava tudo muito mais perigoso.






