Cartões recusados

Lucy era uma amiga da faculdade. Nunca fui muito boa em fazer amigos. Pelo contrário, às vezes eu tinha a impressão de que todos me olhavam com hesitação e medo e sempre achei que fosse por conta da posição política do meu pai. 

Acabei criando laços com ela e, apesar de Lucy ser bolsista e não ter o mesmo nível social que nós, meu pai nunca tentou impedir que nos víssemos. A única condição dele era de que ela não frequentasse a nossa casa. Acho que meu pai acreditava que ela podia nos roubar, o que era um absurdo. 

Assim que cheguei na lanchonete barata a vi sentada com Lisandro à mesa. Ambos riam. 

Lucy era magra, morena, com cabelos esvoaçados e riso fácil. Lisandro alto, magro, loiro de olhos escuros. Os cabelos estavam sempre bem penteados e tinha um sorriso largo e encantador. O tipo de pessoa pela qual você se apaixona facilmente. 

Eu passava a maior parte do tempo com eles, fosse na faculdade ou fora dela. Tínhamos uma ótima relação.

Assim que cheguei, sentei-me ao lado de Lisandro, que me deu um beijo rápido nos lábios. 

Respirei fundo e olhei para os dois:

— Meu pai descobriu. 

Lisandro abaixou a cabeça e mordeu levemente o lábio. Ouvi o suspiro que ele deu até que dissesse, num murmúrio:

— Eu soube no momento em que minha família foi expulsa da mansão. 

— E... o que ele disse? — Lucy quis saber.

— O que vocês acham? Óbvio que ele disse que jamais aceitará.

— Sabíamos que seria assim. — Lisandro disse, com a voz fraca.

— Mas isso não é o pior. — mencionei.

— Pode existir algo pior do que sabermos que seu pai jamais aceitará que fiquemos juntos, Paige? 

— Sim, existe. — desviei os olhos dos dele — Meu pai quer que eu case com outro homem.

O silêncio ficou denso. Parece que até o som das pessoas ao redor desapareceu. 

Lucy foi quem quebrou o silêncio:

— Eu não fico tão surpresa. Sempre soube que casamento entre ricaços são muito mais por conveniência do que por amor. 

— E o que vamos fazer, Paige? Você não aceitou, não é mesmo?

— Claro que não. 

— Quem é o escolhido? — Lucy quis saber — o filho gay do governador?

— Ele não é gay. — contestei.

— Todo mundo sabe que é. E por isso o governador fez essa proposta ao seu pai. É conveniente, não é mesmo?

— Eles não têm nada a ver com isso.

— Então, quem é o meu rival de milhões? — Lisandro perguntou, com a voz baixa.

— Alessandro De Lucca Montrelli.

O nome dele soou feito um tiro. Lisandro e Lucy arregalaram os olhos. E foi ele quem se arriscou a dizer alguma coisa dessa vez:

— O CEO invisível? Um dos homens mais ricos do mundo? Você só pode estar zoando comigo!

Não respondi. Até para mim parecia zoação do meu pai, ou um teste para ver até quando eu levaria adiante meu amor por Lisandro. 

— É um casamento de um ano. Não que passe pela minha cabeça aceitar, independente do tempo que durará. A questão é: meu pai está louco e disposto a nos afastar para sempre, Lisandro.

— Bem — Lucy botou três batatas fritas ao mesmo tempo na boca — acho que é bem sério. Afinal, seu pai nunca se importou com quem você se envolveu até hoje. 

Não que eu tivesse me envolvido com muitos homens. Pelo contrário, eu era bem seletiva. Mas Lucy tinha razão. Era a primeira vez que meu pai se importava de verdade. E eu sabia o motivo: Lisandro não estava à altura do sobrenome da nossa família. E eu estava me fodendo para aquilo. 

Lisandro pegou a minha mão. E era sobre aquilo... carinho, força, sentimento. Criei um vínculo incrível com aquele homem. Nos conhecíamos praticamente desde crianças. O pai dele era o motorista do meu pai e a mãe cozinheira na nossa casa. 

Nosso convívio era inevitável, já que Lisandro sempre estava com a mãe. Meu pai nunca o proibiu de entrar na nossa casa. Pelo contrário, até pagou boa parte dos estudos de Lisandro em escolas particulares e tinha lhe prometido inclusive um emprego... de meu motorista, claro. 

Para o meu pai a vida era assim: cada um tinha uma posição social e nada poderia mudar aquilo. Pobres nasceram para servir e ricos para serem servidos. 

— Dificilmente você vai conseguir escapar disso, Paige. — Lucy opinou — creio que até o seu pai tenha medo desse Alessandro invisível. 

Eu sabia que meu pai não estava blefando quando me falou sobre aquele casamento. Ele não era o tipo de pessoa que perdia tempo com brincadeiras. 

A atendente veio nos atender. Pedi praticamente tudo que tinha no cardápio. 

— Você quer garantir que não falte comida para mim por uns dez anos? — Lucy perguntou, rindo.

— Quero garantir que sejam felizes fazendo o que mais gostam: comendo.

Realmente eu não entendia porque, a cada encontro, Lisandro e Lucy faziam questão de pedir algo para comer. Eu sempre os observava, mas não comia. Nos encontrávamos em lugares os quais eu jamais ousaria provar a culinária. 

— Você não precisa gastar dinheiro conosco, Paige — Lisandro pegou a minha mão — Pagando ou não a conta, te amarei do mesmo jeito.

Alisei os dedos de Lisandro, observando nossas mãos juntas. Eu gostava dele. por que as coisas não podiam ser mais fáceis?

Não, eu não pagava pela amizade e amor deles. Eu simplesmente... gostava de agradá-los.

— Eu não conseguirei viver sem você, Paige. — Lisandro disse, apertando a minha mão.

— Eu também não, Lisandro. Vamos fugir. 

Até eu fiquei surpresa com a minha decisão. Lucy me encarou e depois disse:

— E vão viver como? Amor e uma cabana não pagam as contas. E você é cara de bancar, Paige. Brigarão no exato momento em que Lisandro não tiver dinheiro para comprar o seu iogurte importado. 

— Meu pai ficará bravo por um tempo. Depois aceitará. Ele me ama.

Três atendentes trouxeram os meus pedidos e encheram a mesa com comidas fritas, baratas e calóricas. Entreguei o cartão para o pagamento e continuei:

— Nos casaremos em segredo e...

— Cartão recusado. — disse a atendente. 

Peguei o cartão e arqueei uma sobrancelha. Não tinha como ser recusado. Meus cartões eram ilimitados. Certamente foi um engano. Então entreguei outro e segui tentando conversar:

— Podemos ficar escondidos num hotel e...

— Recusado também. — ela me entregou.

Entreguei outro cartão e a situação foi a mesma. Não! Meu pai não tinha o direito de cancelar os meus cartões. Ele nunca fez aquilo antes. 

Peguei o cartão da minha conta pessoal e entreguei:

— Esse será aceito. — joguei os cartões recusados na bolsa. 

Depois eu me entenderia com o meu pai pelo constrangimento que ele me fez passar em público.

— Senhora, aqui diz que não há saldo suficiente.

Mordi o lábio, atordoada. Eu sempre tive saldo. Aliás, eu nunca soube o que era não ter saldo.

— Paige, se seus cartões não forem aceitos, você vai ter que me deixar como pagamento. E nem tenho certeza se aceitarão... pois duvido que eu valha o equivalente a isso tudo que você pediu. — Lucy disse, apavorada.

— Meu pai se arrependerá disso — falei, entredentes — O plano é simples, Lisandro: serei sequestrada. E pedirei um valor suficiente para que possamos viver uma vida estável financeiramente até meu pai entender que você não é um capricho meu.

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