Capítulo 5

Fico olhando para o nada. Com a pouca iluminação, o quarto se dissolve em sombras suaves, contornos indistintos que tornam tudo mais íntimo… e mais perigoso. Meu corpo treme levemente quando sinto Gael deslizar o braço ao redor da minha cintura, puxando-me para mais perto dele, como se aquele gesto fosse a coisa mais natural do mundo.

Mas não é.

Nada disso é.

Eu transei com o irmão do homem com quem vou me casar.

Por contrato, sim. Frio, calculado… inevitável.

Mas ainda assim, um casamento.

O peso dessa verdade se instala no meu peito, tornando o ar mais denso, difícil de puxar.

— Estou sentindo você pensativa… — a voz rouca dele corta o silêncio, carregada de cansaço e algo mais profundo, algo que ele não diz.

Solto um suspiro baixo, reunindo coragem, e me viro para ficar de frente para ele. Por um instante, esqueço tudo. Não consigo deixar de reparar em como ele fica absurdamente lindo assim — os cabelos desalinhados, caindo de forma descuidada sobre a testa, a expressão relaxada pelo sono, mas ainda intensa.

Perigosa.

Gael desliza os dedos pela minha cintura em um carinho lento, quase distraído… mas que faz meu corpo reagir como se cada toque fosse calculado.

— O que vai acontecer? — minha voz sai mais baixa do que eu pretendia. — Se descobrirem o que fizemos?

A pergunta paira entre nós, pesada.

Real.

Gael desvia o olhar por um breve segundo, como se organizasse os próprios pensamentos, ou talvez escolhendo o que revelar. Então seus olhos voltam para mim, mais sérios agora, mais duros.

— Provavelmente vão querer nos punir — ele diz, sem rodeios.

Sinto um arrepio percorrer minha espinha.

Ele aproxima um pouco mais o rosto do meu, a expressão firme, quase sombria.

— Me punir — corrige, a voz baixa, carregada de promessa. — Não vou deixar que toquem em você.

Solto um suspiro baixo, tentando acalmar o turbilhão dentro de mim. Ajeito a cabeça no travesseiro, afundando levemente no tecido macio, e deixo o olhar se perder no teto, como se ali pudesse encontrar alguma resposta.

Mas não encontro.

Apenas mais dúvidas.

Mordo o lábio inferior, sentindo o gosto metálico suave, hesitando por um instante antes de finalmente perguntar:

— Por que fez com que eu assinasse o contrato só no dia do casamento?

Minha voz sai mais suave do que eu gostaria, quase vulnerável.

Gael não responde de imediato.

Sinto o toque dele antes mesmo de vê-lo se mover — seus dedos alcançam meu queixo com uma delicadeza inesperada, guiando meu rosto de volta para ele. Não há força no gesto… apenas intenção.

E isso, de alguma forma, é ainda mais intenso.

Sou obrigada a encará-lo.

Os olhos dele estão presos nos meus, escuros, profundos… perigosamente determinados.

— Quero que seja minha até o dia — ele diz, a voz baixa, firme, como se cada palavra fosse uma promessa… ou uma sentença.

Meu coração dispara no mesmo instante, batendo forte contra o peito.

Rápido demais.

Porque não é só o que ele disse.

É a forma como disse.

— Sua? Para você se satisfazer quando tiver vontade? — pergunto, erguendo o corpo e me sentando na cama, deixando que a tensão finalmente transpareça na minha voz.

Gael solta um suspiro contido e acompanha meu movimento, sentando-se ao meu lado. Por um instante, ele passa a mão pelos cabelos, como se organizasse os próprios pensamentos antes de responder.

— Não, mon amour… — a voz dele sai mais baixa, mais séria — Você não é um objeto. Não pra mim.

Há algo diferente no tom dele agora. Mais firme. Mais verdadeiro.

Ele pega minha mão com cuidado, como se eu fosse algo frágil — o que é irônico, considerando tudo — e deposita um beijo leve sobre meus dedos. O toque dos lábios dele é quente, demorado o suficiente para fazer meu coração vacilar.

— Mas quero ter a oportunidade de te cortejar — completa, olhando diretamente nos meus olhos.

Engulo em seco, sentindo o peso daquele olhar verde intenso me atravessar. É difícil sustentar… e mais difícil ainda desviar.

— E quando chegar o dia do casamento? — pergunto, quase num sussurro, como se tivesse medo da resposta.

Gael passa a língua pelos lábios, pensativo, o maxilar tensionando por um segundo.

— Eu não posso te oferecer uma vida ao meu lado… — ele começa, mais devagar agora. — Você viu como são as regras.

As palavras dele caem como um balde de água fria.

— Estando com meu irmão… — ele continua — eu sei que você vai estar por perto. E vou poder cuidar de você… mesmo que à distância.

Sinto meu peito apertar.

Aquilo não é o que eu queria ouvir.

Não completamente.

Não o suficiente.

A confusão se instala dentro de mim, misturada com algo mais perigoso — uma vontade crescente de ignorar tudo e apenas sentir.

Antes que eu possa responder, Gael se deita novamente e, com um movimento suave, me puxa junto, acomodando-me contra seu peito. Meu corpo hesita por um segundo… mas cede.

Sempre cede.

Fico ali, imóvel, ouvindo o som do coração dele batendo firme sob minha bochecha. Ritmado. Constante.

Estranhamente reconfortante.

Como se, por alguns instantes, nada pudesse nos alcançar.

Meus olhos vão ficando pesados, o cansaço finalmente vencendo a confusão na minha mente. E, embalada por aquele som… por aquele calor… eu acabo adormecendo.

...

Daniel Ackles serve o café com movimentos calmos e precisos, como se aquele simples gesto carregasse um tipo de formalidade silenciosa. Ele deposita a xícara à minha frente, e o aroma quente sobe no mesmo instante.

— Obrigada — murmuro, com um sorriso contido.

Levo a xícara aos lábios e tomo um gole pequeno, mais para ocupar minhas mãos do que por vontade.

Os Ackles têm o ritual de tomar café juntos todas as manhãs — todos os irmãos à mesa, ao lado do pai.

Foi o que Gael me disse… pouco antes de deixar meu quarto, no meio da madrugada.

A lembrança faz meu estômago revirar levemente.

— Espero que tenham tido uma boa noite de sono — diz Natahanel Ackles, com um sorriso doce demais para alguém naquela posição.

— Com uma cama tão confortável como aquela, não tem como dormir mal! — meu pai responde, animado, completamente alheio a qualquer tensão.

Forço um pequeno sorriso, desviando o olhar.

Pego um pedaço de pão, concentrando-me no movimento simples de partir a massa entre os dedos.

— Você dormiu bem, Helena? Gostou do seu quarto?

A voz me atinge antes mesmo que eu levante os olhos.

Quando olho à frente, encontro Gael Ackles passando manteiga no pão com calma, como se não estivesse prestes a me provocar. Mas ele está.

Sempre está.

Os olhos verdes se erguem lentamente até os meus, carregados de algo que ninguém mais ali parece perceber.

Ele sabe.

Cada detalhe da minha noite.

Canalha.

— Gostei, sim — respondo, sustentando o olhar por um segundo a mais do que deveria. — Confesso que a cama realmente é muito confortável.

O sorriso nos meus lábios é ensaiado. Falso.

Perfeito.

— Maravilha — diz Daniel, satisfeito. — Assim que terminarmos o café, Natahanel vai te levar para conhecer a parte externa da propriedade. Como pode ver, é bem grande.

— Será um prazer mostrar à minha noiva nossa futura casa — acrescenta Natahanel Ackles, agora me olhando diretamente.

“As palavras ficam presas na minha garganta por um segundo.”

Minha noiva.

Minha futura casa.

Abro um sorriso educado, cuidadosamente calculado.

— Vai ser um prazer.

Mas antes que o silêncio se acomode—

— Ela ainda não é sua.

A voz baixa corta o ar como uma lâmina.

Gael Ackles não levanta o tom. Não precisa.

É alto o suficiente para que o irmão ouça.

Baixo o suficiente para que os nossos pais não percebam.

Natahanel enrijece ao meu lado, o maxilar travando por um breve segundo. Ele vira o rosto na direção de Gael, lançando-lhe um olhar carregado de aviso.

Perigoso.

E, pela primeira vez naquela mesa…

Eu percebo.

Isso não é só um jogo proibido.

É uma guerra começando.

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