Mundo de ficçãoIniciar sessãoFechei a pasta com um estalo. Mas soube medir. Por consideração à família, por estratégia. Vingança calculada, não espetáculo. Agradeço o detetive e sai da sua sala e segui para minha casa.
Voltei para casa mais cedo naquela noite. O segurança-chefe, Félix, me aguardava no saguão rosto fechado, gesto de quem traz notícia de campo de batalha. — Senhor, a senhora Poliana está com visita — disse Félix, e chegou esse documento enviado da empresa para o senhor, peguei o envelope e logo sorrio satisfeito com a rapidez, Félix me olhou e entrei em casa. O que? Agora Pensei, entrei em casa em passos longos. O corredor que levava ao meu escritório sempre cheira a madeira polida e couro. Mas do corredor veio um som que me perfurou: risadas leves, íntimas, como se alguém festeja se uma vitória sem meu nome, e vozes que não deveriam estar ali. A porta estava entreaberta. A cena que vi era uma lâmina: Poliana de pé, uma calmaria fingida; Hugo recostado na estante, taça na mão, o rótulo do meu vinho refletindo num sorriso satisfeito. Empurrei a porta como se empurrasse uma mentira. — O que está acontecendo aqui? — a pergunta saiu cortante. Minha voz não tremia; havia gelo nela. Hugo deixou a taça na mesa devagar. Poliana ergueu-se, ajeitando o vestido com destreza. — Rafael, você chegou cedo — começou ela, um roteiro que eu já havia ouvido antes. — Íamos te chamar... — Me chamar para o quê? — Interrompi, dando um passo à frente. — Para aprovar a retirada do meu próprio patrimônio? Para transformar o meu nome em moeda? Hugo tentou um gesto de homem de negócios, mas seus olhos estavam assustados. — Rafael, não é bem assim — murmurou ele, a voz fina. — Eu pensei que... — Você pensou em trair — concluí. — Pensou em usar o meu nome como blindagem. Achou que eu seria lento demais para perceber. Poliana tentou um sorriso que não alcançou os olhos. — Você está exagerando — disse, como se controlasse uma falha de ensaio — Eu só estava ajudando Hugo com os contratos. Soltei uma gargalhada curta e amarga. — Ajudando? — repeti. — Estou cercado de atores. Você disse que me amava. Hugo me chamou de amigo. Ambos me venderam por uma migalha de ambição. Vi o rosto de Poliana empalidecer. E caiu no choro forçado algo que não caio. Hugo, por sua vez, buscou a porta, tremendo. — Escute — disse-lhe, sem pressa, como quem aplica a sentença — Você tem até o fim da semana para assinar os papéis. Vai renunciar às suas cotas, às referências. Assina e some. Se não assinar, eu mesmo farei com que todos os seus negócios desmoronem: contratos, imprensa, bancos. Eu tenho material suficiente para transformar sua vida num espetáculo de ruína. A cor sumiu do rosto de Hugo. — Não pode me pedir isso... Nós somos sócios! Eu investi, eu trabalhei — suas mãos tremiam. — Sócio — repeti, ácida — é quem honra o acordo. Traidor não ocupa cadeira à minha mesa. Ele engoliu, a ambição afogada no medo. — E se eu recusar? — Hugo arriscou, desesperado. Sorri, um sorriso seco que não tinha humor algum. — Então eu te destruo. — A frase saiu curta, direta. — Exponho as provas. Você perderá a reputação, o crédito, os parceiros. E quando a justiça fizer seu trabalho, não haverá onde se esconder. Sua esposa, sua família, sua vida social tudo será palco da sua queda e todos saberão o quanto você é um traidor. A cor deixou a face de Hugo. Ele não acreditou, não em punho; acreditou em aço nas palavras, em poder bem direcionado. A ambição o havia tornado vulnerável à mesma moeda que ele agora usava. — Por favor — sussurrou ele, quebrado. — Eu não posso perder tudo. — Então assine — ordenei. — E desapareça antes que eu decida o fim da sua ruína.






