Capítulo 7

CAPÍTULO 7

Brett

O escritório está silencioso quando ela entra, mas o silêncio já não é o mesmo de antes, não desde o café da manhã, não desde o toque. Eu percebo antes mesmo de levantar os olhos, antes mesmo de confirmar que é ela, porque algo no ar muda quando Zaya atravessa a porta, uma tensão sutil, uma eletricidade que não existia antes e que agora paCapíutloCaCrece preencher cada espaço vazio entre nós.

Ca

Ela coloca uma pilha de pastas sobre minha mesa com o movimento preciso de sempre, eficiente, profissional, como se nada tivesse acontecido, como se aquela manhã tivesse sido apenas mais uma manhã, mas eu sei que não foi, eu vi o momento de hesitação em seus olhos quando nossas mãos se tocaram, senti o calor que atravessou minha pele como uma queimadura e percebi que ela também sentiu. Ela não pode esconder isso de mim, não importa o quanto tente.

— Aqui estão os relatórios que o senhor pediu.

Sua voz é controlada, firme, mas existe um leve tremor no final, quase imperceptível, e eu noto porque estou prestando mais atenção do que deveria, porque desde aquela manhã não consigo parar de prestar atenção.

— Obrigado.

Minha resposta sai mais curta do que planejei, mais seca, como se eu precisasse compensar a proximidade que sinto com distância, como se pudesse desfazer o que aconteceu apenas mantendo o tom frio e impessoal que sempre usei com ela.

Ela se vira para sair e eu deveria deixá-la ir, deveria manter o foco no trabalho, nas pastas, nos relatórios, em qualquer coisa que não seja a curva dos ombros dela, o jeito que o cabelo escapa do coque e cai sobre a nuca, a forma como a luz da janela contorna seu corpo enquanto ela se move em direção à porta.

Mas eu não consigo.

Meus olhos seguem cada movimento, observo o jeito que ela morde o lábio inferior enquanto lê algo rapidamente, um gesto pequeno, automático, que antes passava despercebido e agora parece gravado na minha mente. Observo seus dedos dançando sobre o teclado quando ela se senta em sua mesa, ágeis, precisos, e me pergunto como seria sentir aqueles dedos contra minha pele novamente.

O pensamento vem rápido e cortante, e eu o empurro para longe com a mesma força com que chegou.

Notar é perigoso.

Eu sempre soube disso.

Observar é o primeiro passo para desejar, e desejar é o primeiro passo para perder o controle, e perder o controle não é uma opção.

Cinco anos...

São cinco anos mantendo tudo sob rédea curta, cinco anos sem deixar que ninguém se aproxime o suficiente para ver as rachaduras, cinco anos convencendo a mim mesmo de que a solidão é uma escolha, e não uma sentença. Eu construí uma vida onde nada pode me atingir, onde tudo é previsível, controlado, seguro, e agora uma mulher que deveria ser apenas uma funcionária, apenas uma assinatura em um contrato, está ameaçando desmontar tudo com um simples toque acidental.

Eu me obrigo a desviar o olhar.

Volto para as pastas, para os números, para o que pode ser controlado, mas as palavras dançam sem nenhum sentido diante dos meus olhos, porque minha mente está em outro lugar, presa no instante em que nossas mãos se encontraram, na sensação que ainda ecoa em meus dedos como uma lembrança viva.

No fim da tarde, ela se levanta para ir embora, e eu percebo que estou contando os segundos até que isso aconteça, porque talvez, quando ela sair, eu consiga recuperar o foco, consiga colocar as coisas de volta nos eixos.

Ela passa perto da minha mesa, e seu perfume me atinge antes que ela chegue, leve, floral, algo que eu não deveria ter notado, que não deveria ter guardado na memória.

— Amanhã o jantar é às oito, vou precisar que o senhor confirme a lista de convidados.

A voz é profissional, controlada, mas assim que ela levanta os olhos para me encarar, vejo algo ali que não estava antes, uma hesitação, uma pergunta silenciosa que ela não faz, uma linha tênue entre o que deveria ser e o que está se tornando.

— Está tudo bem, senhor Howard?

A pergunta me pega desprevenido, e por um instante eu não sei o que responder. Não sei como dizer que não, que não está tudo bem, que faz dias que não durmo direito, que sua presença na minha casa, na minha rotina, na minha cabeça, está desmontando algo que levei anos para construir.

— Estou bem, por que não estaria? — A palavra sai automaticamente, a máscara que coloco todos os dias para sobreviver.

Zaya sustenta meu olhar por um segundo a mais do que deveria e depois desvia, voltando ao papel que segura.

— Não sei, o senhor parece... distante. Mais do que o normal, quero dizer.

Eu quase sorrio.

Distante.

Ela não faz ideia do esforço que está sendo manter distância, do quanto eu preciso me conter para não cruzar o espaço que ainda existe entre nós, para não estender a mão e tocar seu rosto como fiz naquela noite no jantar, na cintura dela, ou como fiz naquela manhã, quando o contato acidental foi suficiente para desmontar tudo.

Estou distante porque, se eu chegar perto, não vou conseguir voltar.

— Estou bem, você pode ir. — A mentira soa mais convincente desta vez.

Ela hesita por um instante, como se quisesse dizer algo mais, mas desiste antes de começar. Vira-se e caminha em direção à porta, e eu a observo até que desapareça, permitindo-me apenas isso, apenas o luxo de observá-la quando ela não está olhando.

O silêncio que fica é ensurdecedor.

Fico sentado por alguns minutos, a cabeça apoiada nas mãos, os olhos fechados, tentando recuperar algum equilíbrio. A culpa me atinge como sempre atinge, rápida e implacável.

O que estou fazendo?

Ela é mais jovem, está em uma posição vulnerável, assinou um contrato porque não tinha escolha. Eu sou o patrão dela, o homem que fez a proposta, o homem que deveria manter as coisas dentro dos limites estabelecidos, não existe desculpa que justifique o que estou sentindo, não existe cláusula que possa explicar por que minha mão ainda queima com o eco do toque dela.

Eu deveria terminar isso.

Deveria encontrar uma maneira de encerrar o contrato mais cedo, de devolvê-la à vida que tinha antes, mesmo que isso signifique perder o negócio com os japoneses, mesmo que isso signifique admitir que errei.

Mas a ideia de não vê-la mais, de não tê-la por perto, de voltar ao silêncio vazio que existia antes dela, é mais assustadora do que qualquer perda financeira.

Eu não a amo.

Não posso amá-la.

Mas há algo ali, algo que cresce silenciosamente, que se recusa a ser ignorado, que me faz questionar tudo o que eu acreditava saber sobre mim mesmo.

Naquela noite, quando chego em casa, ela está na cozinha.

A governanta já foi embora, e a casa está silenciosa, mas há um cheiro de comida no ar, familiar, caseiro, algo que não existia ali antes dela. Ela está de costas para mim, mexendo algo no fogão, e o cabelo está solto, caindo sobre os ombros em ondas escuras que a luz da cozinha ilumina.

Ela não me ouviu chegar e, por um momento, fico parado na entrada, observando-a sem que ela saiba, permitindo-me apenas isso, apenas o luxo de vê-la em um momento em que ela não está se protegendo.

Então ela se vira e me vê ali.

— Senhor Howard — ela diz, e há um leve sobressalto na voz. 

Eu não ouvi o senhor chegar. A governanta deixou o jantar preparado, mas achei que seria melhor esquentar, o senhor chega sempre tão tarde e comida fria não faz bem.

Ela parece quase envergonhada por ter feito isso, como se estivesse ultrapassando um limite que ela mesma impôs, e eu percebo que este é o primeiro gesto não solicitado desde que ela chegou, o primeiro sinal de que a parede que ela construiu também está se desgastando.

— Obrigado — digo, e a palavra sai mais suave do que planejei, mais sincera.

Ela acena, desvia o olhar e, por um breve instante, vejo algo em seu rosto que reconheço, porque é o mesmo que sinto, confusão, medo e a descoberta assustadora de que as regras que estabelecemos não são mais suficientes.

Sentamos para jantar, e o silêncio entre nós já não pesa da mesma forma. Há uma intimidade ali que não existia antes, uma cumplicidade silenciosa que cresce a cada noite que passamos juntos, a cada toque acidental, a cada olhar que dura um segundo a mais do que deveria.

Eu sei que é errado, sei que deveria parar, recuar, colocar a distância de volta.

Mas quando olho para ela, sentada à minha frente, iluminada pela luz suave da cozinha, não consigo lembrar por que o contrato parecia tão importante.

Tudo que sei é que estou caindo.

E não sei se quero ser salvo.

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