O lamento da última luna

A floresta acordava lentamente, envolta em uma névoa prateada que parecia dançar com a luz da lua ainda presente no céu. Cada árvore guardava cicatrizes do tempo, troncos retorcidos que sussurravam histórias antigas, e o ar carregava o cheiro úmido da terra, das folhas e do musgo. Ali, escondidos do mundo humano, viviam os shifters — uma alcatéia condenada, marcada por séculos de perdas, dor e solidão.

Não eram lobos comuns. Suas formas humanas se entrelaçavam com a fera que habitava seus corpos, e cada transformação trazia a lembrança de uma tragédia ancestral. Há quase trezentos anos, durante a guerra com os humanos, todas as mulheres da alcateia haviam sido mortas. Nenhuma criança nascera desde então.

Eles eram cinco famílias remanescentes: os Kent, os White, os Rhode, os Lamart e St. John. A ausência de mulheres deixara cicatrizes profundas — físicas, emocionais e espirituais.

O silêncio da floresta era quebrado apenas pelos passos precisos de Mason Kent. Com a morte recente de seu pai, ele assumira o posto de beta, ao lado do líder Hendrick. O peso da responsabilidade o tornara mais severo, amargurado pelo luto de sua esposa Savannah. Ele carregava a memória dela como uma sombra que nunca o deixaria, moldando sua liderança com disciplina e rigidez.

— Mason — chamou Matt Rhode, quebrando o silêncio, — você acha que a Dama da Lua ainda nos ouve?

Mason parou, os olhos escuros refletindo a luz pálida da lua.

— Ela ouve sempre que nossos corações não desistirem. Mas precisamos mais do que orações; precisamos de um sinal. — Ele deixou o peso de suas palavras flutuar no ar, e os mais jovens sentiram a tensão.

Yohan, ao lado do irmão, respirava fundo. Crescera sem jamais conhecer uma mulher. Sua infância fora cercada apenas por homens que o ensinaram a caçar, a correr e a sobreviver, mas nunca o calor feminino que suas mães e tias poderiam ter oferecido. Cada treinamento, cada missão, lembrava-lhe que ele não conhecia metade do mundo que fora roubado deles.

A alcateia se reuniu na clareira central, como fazia todas as noites de lua cheia. Hendrick St. John, solitário, observava os membros com olhos cansados, mas firmes. Ele não tinha filhos; sua esposa Gillian morrera antes de poder deixar descendentes. O luto e a responsabilidade pelo clã transformaram sua presença em autoridade silenciosa, e mesmo os mais novos sentiam o peso de sua solidão.

— Precisamos manter a ordem — disse Hendrick, a voz grave ressoando entre as árvores. — Cada ação nossa agora define se haverá futuro para o nosso povo.

Taylor White inclinou a cabeça, encarando Hendrick com uma mistura de respeito e dúvida.

— E se não houver futuro? — sussurrou. — Se já estamos condenados?

Tyler White deu um passo à frente, os punhos cerrados.

— Então lutaremos até o último suspiro. Não vou aceitar que nossa linhagem se apague sem lutar.

As palavras ecoaram, e por um instante, a tristeza coletiva deu lugar à força de vontade. Cada membro da alcateia sentia o peso do passado, mas também a necessidade de continuar, de não deixar que a dor fosse o último registro de sua existência.

Mason carregava consigo a lembrança de sua esposa morta. O luto o tornara um homem introspectivo e severo, mas sua sabedoria era necessária para guiar os mais jovens. Ele murmurou uma oração à Dama da Lua, seus dedos entrelaçados, os olhos fechados, e Yohan percebeu o quanto o irmão carregava nos ombros.

— Que a Dama da Lua não nos abandone — disse Uriel, com uma voz rouca. — Que nos guie antes que nosso sangue se perca para sempre.

Mason assentiu, entendendo o peso das palavras. A alcateia não só vivia escondida por medo dos humanos; vivia em alerta constante, pois cada passo errado poderia significar o fim de uma linhagem inteira. Durante décadas, haviam observado de longe, mantendo-se fora da vista, sobrevivendo com caçadas noturnas e sinais discretos, mas sem jamais perder a esperança de um milagre.

Foi quando Yohan, que permanecia em silêncio até então, sentiu algo diferente. Um calafrio percorreu sua espinha, e ele se ajoelhou na grama, como se o vento carregasse uma melodia que apenas ele podia ouvir. Fechou os olhos e ouviu. Uma voz feminina, delicada e firme ao mesmo tempo, atravessava a floresta. Cada nota parecia tocar não apenas seus ouvidos, mas cada fibra de seu ser. O cheiro dela se misturava à névoa — doce, perfumado, impossivelmente vivo.

Mason percebeu o estremecimento do irmão.

— Yohan? — chamou, aproximando-se.

— Eu… — Yohan respirou fundo, a voz tremendo — eu ouvi… Ela canta. Está aqui, entre as árvores…

Hendrick se aproximou, cruzando os braços. O silêncio da floresta amplificava a tensão. Mesmo os White e os filhos de Kallias Lamart sentiam o arrepio percorrer suas espinhas. Ninguém ousava duvidar do que Yohan dizia; todos conheciam os sonhos premonitórios que ocasionalmente visitavam membros da alcatéia.

— É real, então — disse Hendrick, a voz baixa mas firme —, um sinal da Dama da Lua.

Mason franziu a testa, lembrando-se da amargura que carregava desde a morte de Savannah.

— Se ela realmente existe — disse, com os dentes cerrados —, significa que a sobrevivência de nosso povo depende dessa mulher.

Tyler White trocou um olhar com o irmão, Nick e Taylor, e assentiu.

— Precisamos encontrá-la. Antes que seja tarde.

As preces se intensificaram, e Uriel colocou a mão no ombro do filho, Matt, em gesto silencioso de coragem. A alcatéia inteira fechou os olhos e murmurou em uníssono, chamando a proteção da Dama da Lua, pedindo por força, por destino, por uma chance de ver o sangue de sua linhagem continuar.

Yohan sentiu a presença da mulher ainda mais forte em seu coração. Cada fibra de sua alma reconhecia algo que ele jamais conhecera: a vida feminina, a promessa de descendência, a redenção para seu povo. A voz era como uma luz na escuridão, um lembrete de que, apesar da dor, ainda havia esperança.

— Mason… — sussurrou, a determinação crescendo dentro de si —, ela é a nossa chance. Ela é… tudo.

Mason olhou para o irmão, os olhos endurecidos pela experiência, mas agora cintilavam com a centelha de esperança que há muito se escondia sob a amargura.

— Então partiremos — disse ele, a voz firme. — Vamos encontrá-la. Antes que seja tarde demais.

O vento dançava entre as árvores, levando consigo o som do lamento e da prece, misturando a dor do passado à esperança do futuro. A lua, alta no céu, parecia brilhar apenas sobre Yohan, Mason e os outros, testemunha silenciosa de um milagre prestes a se concretizar.

E enquanto a floresta despertava, com todos os sentidos atentos, o destino do clã permanecia suspenso no ar: a última mulher, a última chance de uma linhagem quase extinta, ainda cantava em algum lugar distante, e seu chamado seria ouvido por aqueles que estavam destinados a encontrá-la.

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