O QUE EU PRECISO - CAROL E HAROLD
O QUE EU PRECISO - CAROL E HAROLD
Por: Cris Silva
LIVRO 1 - CAPÍTULO 1.1

Sexta-feira, 13 de setembro de 2013

         Eu acordo abruptamente e me sento na cama tateando pelo interruptor da pequena luminária na mesa lateral. Eu preciso da luz para observar em volta e ver que eu não estou mais lá. Eu estou bem. Estou segura. Estou há anos de distância daqueles dias. Estou no agora e o agora é seguro.

 Quando finalmente a luz invade o meu quarto eu olho em volta e solto um suspiro de alívio. Eu estou realmente bem. A luz sempre me ajuda a me sentir segura, mas não me esconde da vergonha que eu sinto cada vez que eu sou obrigada a me lembrar do que aconteceu. As lágrimas sempre vêm. Elas são quase que automáticas. Eu nem sinto que estou chorando. Eu não soluço. Eu não grito. Elas apenas escorrem pelo meu rosto. Mas ver onde estou é sempre bem-vindo, por isso eu preciso da luz.

         Há muito tempo que eu não sonhava e, embora eu nunca tenha me esquecido, sonhar é sempre pior do que apenas lembrar. Por que sonhar é reviver. Não tem botão de desligar. Você não consegue desviar sua atenção. Não dá pra dizer: “Não quero sonhar com isso, quero sonhar com aquilo”. No sonho não há outra opção. E isso me lembra de que na época eu também me sentia assim: sem opção.

         Eu saio da cama e vou até o banheiro. Um bom banho sempre ajuda. Eu tiro a minha velha camiseta e minha calcinha e jogo no cesto de roupas. Ao ligar o chuveiro, eu não espero a água esquentar. A água gelada é bem-vinda para afugentar os demônios do passado. Quando finalmente a água começa a aquecer eu sinto a normalidade retornando lentamente pra mim. Eu ensaboo meu corpo e quando me sinto limpa eu saio e me seco.

São apenas cinco horas da manhã e não há nenhuma possibilidade de eu voltar pra cama. Eu não me sinto disposta a me exercitar. Então, eu decido trabalhar. Aliás, trabalhar é o que eu faço de melhor. Nos últimos anos eu me preparei para ser uma profissional de sucesso. Eu estudei, me formei com honras, me especializei, trabalhei, trabalhei, trabalhei. Ousei.

Aliás, eu descobri que vale a pena ousar. Foi ousando que vim parar aqui em Nova York. Apesar de todos os apelos da minha família, sobretudo da minha mãe, eu ousei e aceitei um convite para trabalhar fora do Brasil. Foi ousando que eu cheguei a um bom cargo na antiga empresa que eu trabalhei. Foi ousando que eu abri mão desse cargo e aceitei um convite da minha melhor amiga para trabalhar com ela na empresa do seu obscenamente rico noivo. Rico é um eufemismo, ele é bilionário mesmo. Eu hesitei a princípio com medo que as coisas não dessem certo entre os dois e de alguma forma isso influenciasse na minha relação profissional com Jake, o noivo. Mas, eu decidi que essa situação é muito mais uma motivação para que eu prove minha competência do que realmente um problema. E foi por isso que eu disse “sim” ao seu convite.

Essa primeira semana foi difícil. Porque ela não pode me acompanhar na empresa nos primeiros dias. Eu não fui apresentada oficialmente à equipe por ela. Não ainda. E tive que ir até o apartamento que ela mora com Jake para me colocar a par dos negócios e ela também deixou a sua assistente pessoal a minha disposição. Mas a empresa está enfrentando um momento de mudanças abruptas o que faz com que a minha adaptação seja mais complicada. Apesar disso, eu nunca corri de desafios. Eles me fascinam. Isso faz com que eu me sinta no controle de tudo. Eu tenho feito isso há muito tempo. Eu preciso que tudo esteja sob o meu controle. É cansativo às vezes, mas é só assim que eu sei ser.

Eu visto um terninho grafite com uma blusa branca de gola jabô. Prendo meu cabelo em um coque tradicional e vou pra cozinha preparar meu café da manhã. Abby, minha colega de quarto não está em casa. Aliás, isso não é nenhuma novidade. Ela praticamente se mudou pra casa do seu namorado e, por mais que eu negue, eu me sinto sozinha, às vezes, nesse apartamento imenso. Outras vezes eu gosto de ficar sozinha.

Eu preparo um café bem forte, como de costume, pego um pacote de biscoitos e me sento na bancada da cozinha com meu laptop para trabalhar. É muito cedo, mas eu preciso disso. Sobretudo hoje. Eu trabalho initerruptamente por mais de duas horas até que o meu telefone toca.

─ Megan?

─ Olá, Carol. Como você está hoje?

─ Bem e você?

─ Bem e a caminho da Foster. Eu estou ligando pra saber como foi a sua primeira semana na Green Enterprises.

Eu me levanto e caminho até a cafeteira para pegar mais uma xícara de café – Até agora está indo bem. Uma semana é muito pouco pra avaliar, mas o ambiente é excepcional. Eu tenho uma sala de verdade e muito espaçosa. As pessoas são agradáveis. E eu gosto muito do trabalho. Tenho uma boa impressão até agora.

─ Você tem visto Samanta?

─ Apenas na casa dela. Ela ainda está presa em casa por causa do que ela sofreu. A imprensa não tem lhe dado trégua. Além disso, eu estou na sua antiga sala e ela está se mudando para uma sala ao lado da de Jake, no último andar. Ela está aguardando que a sala dela fique pronta e que ela possa ocupá-la. Enquanto isso, ela trabalha em casa e eu tenho ido lá alguns dias para que ela me passe algumas coisas.

─ Entendo. Você tem planos pra hoje à noite?

─ Agora sim.

─ Eu pensei que podíamos comemorar seu novo emprego.

─ De acordo. É só dizer onde e quando.

Ela ri – Você é das minhas. Eu envio uma mensagem mais tarde, combinando? Tenha um bom dia no seu novo emprego.

─ Um bom dia pra você também.

Eu termino a chamada e lavo a louça. Depois de escovar os dentes e me maquiar eu pego minha pasta e saio de casa.  

***

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