O Poderoso Magnata e a Baiana
O Poderoso Magnata e a Baiana
Por: Aquino
Capítulo 1

Helena Evelyn

Eu acordei com frio.

O banco de madeira embaixo de mim era duro.

Minhas costas doíam como se eu tivesse carregado o mundo inteiro até ali.

O céu acima tinha aquele tom meio acinzentado, típico de cidade grande.

Por um segundo, eu não fazia ideia de onde estava.

Até lembrar.

Estados Unidos.

Outra cidade.

Outro idioma.

Outro mundo.

E eu, sozinha.

O estômago roncou alto, como se estivesse gritando por mim.

Eu abracei a mochila contra o peito, tentando me encolher.

Queria ser invisível no meio daquela praça elegante.

Era cercada de prédios caros, cafés cheios e pessoas que nem sequer me olhavam.

“Valentina.”

O nome falso pesava na minha cabeça como uma piada de mau gosto.

Meu nome é Helena Evelyn.

Eu sou da Bahia.

Vim de uma cidade pequena onde a terra é seca e a noite é silenciosa.

O cheiro de café coado lá se mistura com o da poeira.

Eu dividia um quarto com meus irmãos e dormia em esteira de palha.

Mas sonhava com passarelas e vitrines brilhantes.

Queria ser modelo.

Queria fazer faculdade de Moda.

Queria tirar minha família da miséria.

Agora… eu só queria um pedaço de pão.

Fechei os olhos por um instante e vi o rosto dos meus pais.

Minha mãe, com as mãos calejadas da lavoura, me avisando sobre a vida.

Meu pai, com a coluna doendo, mas trançando esteiras com orgulho.

Eles não faziam ideia de onde eu estava.

Achavam que eu tinha ido pra capital tentar a sorte.

E eu tentei.

Andei por São Paulo com o currículo amassado na bolsa.

Ouvi “não estamos contratando” mais vezes do que seria justo.

Passei fome.

Chorei escondida no quarto da pensão.

Quase desisti.

Até ela aparecer.

Marcela Miller.

Alta, elegante, olhos cinza de quem enxerga tudo e não sente nada.

Ela me prometeu o mundo num prédio moderno.

Secretária nos Estados Unidos, salário alto, moradia, visto, tudo pago.

Parecia um milagre.

Eu, que nunca tinha visto quinhentos reais de uma vez, ouvi a proposta e tremi.

Pensei na casa dos meus pais, nas goteiras e no colchão murcho.

Pensei na promessa de tirar minha família da miséria.

Então eu disse sim.

E foi meu maior erro.

No aeroporto, ela mudou meu nome para Valentina.

Alterou minha idade na documentação falsa para vinte e cinco anos.

Quando tentei recuar, um homem armado se aproximou de mim.

O medo me calou.

Eu embarquei sob ameaça, engolindo o choro.

Quando o avião pousou, entendi o tamanho da armadilha.

Não era para ser secretária.

Queriam me vender como mercadoria em uma casa noturna de luxo.

Mas no primeiro segundo de descuido deles, eu corri.

Corri como nunca na vida.

Me escondi, virei esquinas, derrapei na calçada até despistá-los.

Terminei naquela praça.

Sentada num banco.

Com frio.

Com fome.

Com raiva.

— Ninguém vai me vender. Ninguém vai tocar em mim — murmurei.

As lágrimas arderam no meu rosto.

Ouvi passos se aproximando e fiquei alerta.

Apertei a mochila contra o corpo.

Um senhor de cabelos grisalhos e terno impecável parou a uma distância segura.

Ele notou meu estado e falou comigo em português.

Apresentou-se como Jacob, dono de uma agência de modelos chamada Model.

Precisava urgente de alguém com meu perfil para um teste rápido.

Ofereceu um pagamento imediato.

Minha cabeça gritava perigo.

Mas meu estômago e meu desespero ganharam.

— Se eu não gostar, eu vou embora — avisei, firme.

— Você é livre para ir quando quiser — ele respondeu.

Entrei no carro.

Paramos em frente ao prédio luxuoso com o letreiro dourado.

No saguão amplo, mulheres altas e impecáveis andavam como estátuas de vidro.

Eu me senti um peixe fora d'água com minhas roupas amassadas.

Mesmo assim, mantive o queixo erguido.

Enquanto Jacob pegava uma ficha, decorei os dados falsos.

Valentina.

Um metro e setenta e cinco, cinquenta e oito quilos, olhos verdes.

Foi então que o ar da sala mudou de peso.

Um silêncio respeitoso e tenso tomou conta do ambiente.

Ele apareceu.

Alto, terno de corte impecável e ombros largos.

Cabelos negros levemente desalinhados.

Os olhos escuros eram profundos e gélidos.

Do tipo que analisam, julgam e descartam tudo em segundos.

O próprio significado de poder e riqueza.

O tipo de homem que o mundo chamaria de magnata.

E que eu chamei, na mesma hora, de problema.

Ele caminhou na minha direção.

O olhar frio varreu minhas roupas surradas.

— O que é isso? — a voz dele cortou o ambiente como uma lâmina de aço.

— Quem deixou essa garota entrar aqui?

Ninguém respondeu.

O silêncio no saguão era absoluto.

— Isso aqui é uma agência de alto padrão, não um abrigo de mendigos — ele continuou.

Tinha um desprezo aristocrático que fez meu sangue ferver.

— Tira essa mulher daqui antes que ela suje o estofado.

— Dá uma esmola na rua e manda embora.

Ali, naquela frase, alguma coisa dentro de mim quebrou.

Toda a fome, o cansaço e a humilhação explodiram de uma vez só.

A baiana dentro de mim falou mais alto que a prudência.

— Olha aqui, seu babaca... mendiga é a sua mãe! — dei um passo à frente.

Encarei ele de baixo para cima.

— Tá achando que é melhor do que alguém só por causa desse terno caro?

Os olhos escuros dele se estreitaram, chocados com a audácia.

Ninguém ali parecia ter coragem de respirar.

— Cuidado com o tom, garota — ele baixou a voz, perigoso.

Deu um passo lento na minha direção.

— Você não passa de uma caipira cadela abusada que não sabe o seu lugar.

Meu lugar.

A mão subiu antes que a razão me parasse.

CLACK!

O tapa ecoou pelo salão como um tiro.

O rosto dele virou de lado com o impacto.

A recepcionista se encolheu.

Jacob arregalou os olhos.

— O meu lugar é onde eu quiser, seu verme arrogante! — gritei.

A palma da minha mão ardia e o peito subia e descia.

— E com baiana você aprende a ter respeito!

Por um momento, ele não se mexeu.

Lentamente, Nathan Keen voltou o rosto para mim.

A marca vermelha dos meus dedos já despontava na pele clara do maxilar dele.

Mas ele não parecia apenas furioso.

Havia um brilho escuro e perigosamente intrigado naqueles olhos.

Ele me encarou como se estivesse me desmontando por dentro.

Não era o olhar de um homem que esquece.

Era o olhar de quem marca.

De quem está acostumado a controlar tudo.

E acabou de encontrar a primeira mulher que não se curvou.

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