Capítulo 2

Maya Vicary

Naquele instante eu senti algo morrer dentro de mim.

Eu sempre disse, para mim mesma e para qualquer amiga que passasse por isso que, quando há traição, a culpa é do seu parceiro. Foi ele quem jurou amor. Foi ele quem prometeu lealdade.

Mas havia algo ali que queimava ainda mais.

Valerie me conhecia.

Ela era secretária do Freddy e toda vez que eu no prédio da sede Nassau, ela puxava assunto comigo. Me via quase todos os dias. Já tinha me abraçado. Já tinha me dado beijinhos no rosto com aquela voz doce, quase infantil.

“Oi, Maya! Que bom te ver!”

Cínica.

Falsa.

Nojenta.

Quando percebi o que estava acontecendo diante dos meus olhos, algo dentro de mim explodiu.

— Canalha! — xinguei ele primeiro —Vagabunda! — agora foi a vez dela, minha voz saiu alta, trêmula, carregada de uma raiva que eu nunca havia sentido antes.

Freddy ainda parecia paralisado pelo choque de me ver ali. Valerie recuou um passo, como se finalmente tivesse lembrado que eu existia.

Meu peito ardia.

Minhas mãos tremiam.

Antes que qualquer um dos dois conseguisse dizer alguma coisa, peguei meu celular e o arremessei contra eles.

O aparelho bateu no chão com força, deslizando pelo piso de mármore até se despedaçar contra a parede.

Eu o destruí sem pensar duas vezes.

Freddy passou a mão pelos cabelos, visivelmente nervoso.

— Maya, espera… isso não é o que você está pensando.

Eu soltei uma risada seca.

— Não é?

Ele deu um passo na minha direção.

— Foi um erro. Um momento idiota. Eu bebi demais depois de uma reunião… foi só uma vez, Maya.

Minha visão ficou turva de tanta indignação.

— Freddy… — minha voz saiu baixa, mortalmente fria — você acha mesmo que eu sou burra?

O silêncio que se instalou parecia cortar o ar. Valerie continuava ali, imóvel, como uma sombra inconveniente. Eu não queria olhar para ela. Não queria olhar para nenhum dos dois. Peguei minha bolsa sobre a mesa e comecei a caminhar em direção ao elevador.

— Maya, espera! — Freddy veio atrás de mim. Ignorei. Continuei andando. Ele segurou meu braço. — Você não pode simplesmente ir embora por causa de um caso sem sentido!

Aquilo foi como jogar gasolina em um incêndio. Arranquei meu braço da mão dele.

— Eu posso. E eu vou.

Os olhos dele escureceram.

— Você está sendo dramática.

Minha respiração ficou pesada.

— Dramática?

Ele cruzou os braços, arrogante.

— Você não pode simplesmente abandonar tudo o que construímos.

Eu ri novamente, mas dessa vez havia lágrimas misturadas.

— Você abandonou.

Ele se aproximou mais, com aquele olhar frio que eu nunca tinha visto antes.

— Não se esqueça de uma coisa, Maya.

Meu estômago se revirou.

— Você é minha. — O silêncio caiu como uma pedra. — E deve tudo a mim. Inclusive sua carreira.

Aquilo me atingiu como um soco.

Durante três anos eu me matei de trabalhar para provar que merecia meu lugar naquele banco. E ele tinha a coragem de jogar aquilo na minha cara. Minha decisão veio instantânea.

— Então pronto. —Abri a bolsa, tirei o chaveiro e joguei contra o peito dele. A chave do carro que ele havia me dado de presente. — Eu me demito.

Ele ficou me olhando, incrédulo.

— O quê?

— Amanhã mesmo eu peço desligamento do banco. — Meu peito subia e descia rapidamente — E pode ficar com o carro.

Só então percebi algo. Eu ainda estava de roupão. Debaixo dele, apenas a lingerie vermelha que eu tinha comprado para aquela noite. De repente me senti ridiculamente exposta.

Humilhada.

Mas já era tarde.

As portas do elevador se abriram.

Freddy ainda tentou me chamar.

— Maya! Volta aqui! — Mas eu já estava entrando — Maya!

As portas se fecharam. E eu fui embora. Assim que saí do prédio, o vento frio da noite atingiu minha pele. Foi então que percebi o tamanho da minha imprudência. Coloquei a mão dentro da bolsa.

Nada.

Minha carteira. Eu tinha deixado na gaveta da minha mesa no banco.

— Não… não… não…

Meu celular estava destruído no apartamento de Freddy.

Sem carteira.

Sem telefone.

Sem carro. E o pior, semi nua na rua.

Respirei fundo, tentando manter a calma.Minha casa não ficava tão longe dali. Eu podia ir andando. Ainda não era tão tarde. Só havia um trecho do caminho que me deixava desconfortável… uma rua menos movimentada, onde às vezes apareciam algumas pessoas estranhas.

Mas eu não tinha escolha.

Comecei a caminhar. O vento aumentava.

Poucos minutos depois, as primeiras gotas começaram a cair. E então a chuva desabou.

Junto com ela, vieram as lágrimas. Eu chorava enquanto caminhava pela calçada molhada. Cada vez que a imagem de Freddy beijando Valerie voltava à minha mente, meu estômago se contraía de humilhação.

Pouco mais cedo… Eu me sentia a mulher mais feliz do mundo. Agora parecia que eu tinha perdido tudo. Meu relacionamento. Minha dignidade. Meu trabalho. Talvez até meu futuro. Foi então que ouvi uma voz atrás de mim.

— Ei…

Meu corpo ficou tenso.

— Que espetáculo, hein?

A voz masculina tinha um tom nojento.

— Uma mulher dessas andando na rua de roupão…

Meu coração disparou.

— E essas pernas… caramba…

Apertei o passo imediatamente. A chuva dificultava minha visão, mas eu procurava algum lugar iluminado. Algum bar. Alguma loja aberta. Qualquer pessoa. Mas os passos atrás de mim continuavam. Mais rápidos. Mais próximos.

— Ei, não precisa correr!

Meu coração martelava no peito. De repente uma mão forte agarrou meu braço.

Eu gritei.

— ME SOLTA!

O homem me puxou com violência. O cheiro dele era de álcool e sujeira.

— Calma, boneca…

Comecei a lutar com todas as forças. Arranhei. Chutei. Empurrei. Mas ele era muito mais forte. Em poucos segundos ele conseguiu me derrubar contra o chão molhado.

— Para de se mexer!

Eu estava perdendo forças. Desesperada. O pânico me consumia. Foi quando ouvi outra voz.

— Larga ela.

O homem sobre mim virou a cabeça irritado.

— E quem diabos é você?

Eu também olhei. Um homem alto, barbudo, roupas rasgadas, completamente molhado pela chuva.

Um morador de rua.

Ele avançou sem hesitar. Puxou o agressor pelo colarinho e o arrancou de cima de mim. Os dois começaram a lutar.

Socos.

Empurrões.

Meu salvador levava vantagem.

Ele era forte.

Muito forte.

O agressor tropeçou para trás, claramente perdendo.

Foi então que ele tirou algo do bolso.

Um brilho metálico.

Um canivete.

— Cuidado! — eu gritei.

Mas foi tarde. O homem avançou e cravou a lâmina na barriga do meu salvador. Meu grito rasgou a chuva. O agressor fugiu correndo na escuridão. Eu me arrastei até o homem que havia me salvado.

Sangue.

Muito sangue.

— Meu Deus… meu Deus…

Ele era grande, pesado. Eu não conseguiria carregá-lo. E eu não tinha telefone.

— Eu vou buscar ajuda! — disse desesperada.

Ele segurou meu braço com força surpreendente.

A voz saiu fraca.

— Por favor… — Seus olhos encontraram os meus — Não me deixe morrer sozinho.

Meu coração se partiu.

— Você não vai morrer!

Ajoelhei ao lado dele e pressionei a ferida com as mãos. O sangue era quente contra minha pele fria.

— Socorro! — comecei a gritar. — SOCORRO! ALGUÉM AJUDA! — A chuva caía sem piedade. — Aguenta firme… por favor…

Foi então que percebi algo.

Os olhos dele.

Mesmo sujo, molhado, ferido… havia algo impressionante neles.

Intensos.

Profundos.

Ele me olhava como se estivesse tentando memorizar meu rosto.

E então…

Lentamente…

As pálpebras dele começaram a se fechar.

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