A tentação

Parei o carro em frente à igreja e conferi minha imagem uma última vez no espelhinho retrovisor.

— Gostosa! — falei para o reflexo e dei um sorriso provocante.

O que posso fazer? Deus me fez assim….

Peguei minha bolsa, desci do carro e caminhei em direção à igreja, ajeitando meu vestido vermelho com de talhes brancos que abraçava minhas curvas na cintura e solto no quadril, não cobrindo nem metade das minhas cochas.

Ao empurrar a porta pesada, a penumbra do local me envolveu, e o som dos meus saltos ecoou pelas paredes altas. Aparentemente, estava vazia. Aparentemente, porque logo meus olhos captaram uma visão hipnotizante: o padre André estava ajoelhado no chão, de olhos fechados, como se estivesse orando.

Caminhei com passos firmes até ele e parei bem à sua frente.

— Padre! — chamei com a voz doce e clara.

Ele abriu os olhos assustado, caindo sentado no chão, seus olhos viajando diretamente para as minhas pernas descobertas pelo vestido.

— A-a senhorita deve ser a amiga da Daniele — disse ele, levantando-se de forma atrapalhada, ajeitando a batina e estendendo a mão para mim.

Ignorando sua mão, me aproximei e o abracei, colando nossos corpos. Ele congelou.

— Me chamo Angeline — sussurrei em seu ouvido, meu hálito quente acariciando sua pele. Notei um leve arrepio percorrer sua espinha.

— Hã… Prazer, Angeline. Sou o padre André! — respondeu ele, com um tom nervoso, afastando-se suavemente, mas com firmeza.

O jeito como ele destacou “padre” me arrancou um sorriso malicioso.

— Então, André, em que posso ajudá-lo? — provoquei, inclinando a cabeça e mordendo levemente o canto dos lábios.

Seus olhos arregalaram-se, e ele pareceu engolir em seco.

— Padre André — corrigiu, com a voz firme, como se quisesse colocar uma barreira entre nós.

Levantei uma sobrancelha, surpresa com sua seriedade.

— Certo, padre André — repeti, arrastando as palavras e saboreando cada sílaba. — E então, em que posso ajudá-lo?

— Hoje é dia de faxina na igreja — respondeu ele, tentando recuperar a compostura.

O sorriso desapareceu do meu rosto.

— Faxina?

(…)

E aqui estou eu, de quatro no chão, esfregando o piso da igreja. Não, não é o que vocês estão pensando. Infelizmente, não! Estou há mais de uma hora esfregando o chão com uma esponja, com as mãos já doendo.

Vamos lá, Angeline, tudo pelo padre gostoso! Esfrega. Esfrega. Esfrega. A frase virou quase um mantra.

— Angeline? — sua voz grave me chamou, e eu levantei o rosto, ficando de frente para ele. Ele estava ali, de pé, me observando, a batina delineando seus ombros largos.

— Sim? — respondi.

— Gostaria de um chá? — perguntou ele, com um sorriso gentil.

— Adoraria! — falei, aproveitando a oportunidade para segurar em suas pernas, sentindo os músculos firmes sob o tecido enquanto me apoiava para me levantar.

Ele ficou imóvel, claramente desconcertado com o contato. Assim que me levantei, ele me entregou uma xícara de chá. Peguei-a, mantendo nossos olhares fixos enquanto dava um pequeno gole.

— Por que não se senta? — sugeriu ele, a voz baixa, como se estivesse medindo suas palavras.

— Claro! — aceitei, caminhando devagar em direção a uma cadeira próxima, passando por ele de forma que meu corpo roçasse no seu. Sentei-me e cruzei as pernas com cuidado, o tecido do vestido subindo um pouco mais do que o necessário.

Ele se sentou à minha frente, mas sua expressão séria traía sua inquietação.

— Algo o incomodando, padre André? — perguntei direta, sorrindo com um toque de provocação.

— É só uma curiosidade — disse ele, tentando soar casual, mas seus olhos denunciavam sua hesitação.

— Pergunte! — incentivei, brincando com a xícara entre os dedos.

— Por que sua mãe lhe deu esse nome? — perguntou ele, finalmente.

Joguei a cabeça para trás, gargalhando da sua inocência.

— Não foi minha mãe quem me deu esse nome, Padre — falei, controlando o riso. — Foram os homens.

— Seu pai? — ele perguntou, visivelmente confuso.

— Não conheço meu pai — respondi com um sorriso enigmático. — Foram os homens, no geral, que me deram esse nome.

— Por quê? — indagou ele, franzindo o cenho.

Inclinei-me para frente, meus olhos brilhando enquanto o encarava.

— Sabe o que significa meu nome? — perguntei, em um sussurro.

— Sei.

— Então diga.

— Anjo.

— Exatamente! — respondi, dando de ombros, com um sorriso provocante.

Ele piscou algumas vezes, como se tentasse decifrar o que eu acabara de dizer.

— Ainda não entendo — murmurou ele, com um tom inocente que me fez rir.

— Me deram esse nome porque sou um anjo, padre André, um anjo caído— confessei, vendo sua expressão suavizar-se em incredulidade.

— Não acredito nisso.

Levantei-me devagar, deixando a xícara na cadeira. Caminhei até ele com passos lentos, inclinando-me sobre ele. Apoiei minhas mãos nos braços da cadeira onde ele estava sentado, ficando a poucos centímetros de seu rosto.

— É porque você ainda não me conhece… — sussurrei, meu olhar fixo no dele.

Ele respirou fundo, parecendo lutar contra algum tipo de conflito interno.

— Eu posso te ajudar — disse ele, a voz rouca.

— Me ajudar? — perguntei, arqueando uma sobrancelha, com um sorriso provocador.

— Sim. Posso ajudá-la a salvar sua alma.

Minha risada foi suave, mas cheia de malícia. Inclinei-me mais, roçando meus lábios de leve contra sua bochecha antes de me afastar.

— Não quero salvar minha alma, padre. Gosto dela exatamente como é.

Peguei minha bolsa, lançando-lhe um último olhar antes de sair da igreja, deixando-o sozinho com seus pensamentos e com o desejo palpável que eu sabia que havia plantado nele.

Saí da igreja sentindo o ar frio da noite contra minha pele, mas o calor que crescia dentro de mim era o suficiente para ignorar qualquer brisa gelada. André. Ou melhor, padre André. Ele parecia tão certo de sua fé, de sua pureza, mas havia algo no jeito como seus olhos hesitaram sobre mim, algo no tom de sua voz ao falar comigo.

“Padre.”

Sorri ao lembrar da rigidez com que ele insistiu nesse título, como se o colocasse como uma barreira entre nós. Ah, mas que barreira fácil de derrubar, pensei comigo mesma. Porque, no fundo, não havia como negar: eu o deixava inquieto. E adorava isso.

Liguei o carro e fui embora, mas algo me dizia que essa noite ainda não acabaria para ele.

(…)

Do lado de dentro da igreja, André permanecia sentado na mesma cadeira, imóvel, os braços apoiados nos joelhos, as mãos entrelaçadas, mas sem rezar. Seus pensamentos estavam uma bagunça. O que tinha acabado de acontecer? Ela era… perigosa. Algo nela mexia com ele de uma maneira que nunca tinha experimentado antes.

Ele sentiu o calor dela quando o abraçou, o sussurro em seu ouvido ainda parecia ecoar em sua mente. E aqueles olhos verdes. Havia algo neles que o fazia se sentir exposto, como se ela pudesse ver mais do que ele estava disposto a mostrar.

“É o diabo, não há dúvida. Ele está tentando me seduzir, me afastar do caminho divino.” Pensou, a culpa e a vergonha se infiltrando em sua mente.

Ele se sentiu fraco, impotente diante de um sentimento que não deveria sentir. “Eu não posso cair nisso. Não posso.” Ele fechou os olhos com força, tentando afastar os pensamentos.

“Eu posso te ajudar a salvar sua alma.”

Aquelas palavras voltaram com mais intensidade, e ele sentiu o peso delas, como se fosse um lembrete de sua própria falha.

“Senhor, me perdoe,” ele sussurrou mentalmente. “Me perdoe por esses pensamentos impuros. Não posso ceder a isso. Não posso.”

Ele se levantou, a sensação de culpa o esmagando, e caminhou até o altar. Ajoelhou-se novamente, apertando o rosário entre os dedos, tentando buscar a paz que tanto desejava, mas as imagens de Angeline continuavam a invadir sua mente.

“Deus, me ajude. Me dê força para resistir a essa tentação. Me proteja do pecado, me guie de volta para o caminho da fé.” Ele orou fervorosamente, tentando combater o fogo que ardia dentro de si. Mas enquanto repetia a oração, tudo o que via na mente era o sorriso dela, provocante, perigoso. Tentador.

“Eu não sou assim, Senhor. Me liberte desse desejo carnal, antes que ele me consuma.”

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