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Capítulo 2 — O Encontro com o Desconhecido

Liz

Ainda eram seis da manhã.

Não fazia nem três horas que eu tinha me deitado para dormir quando minha irmã chegou bêbada, jogando minhas coisas no chão e gritando para eu sair do quarto.

— Acorda, sua nojenta! Por que não some dessa casa? Some da nossa vida! Eu te odeio! — ela gritava, atirando o que via pela frente.

Mas eu já sabia o verdadeiro motivo de tanta raiva: o namoradinho dela.

Aquele que se dizia apaixonado por Cristiana havia dado em cima de mim — sem saber quem eu era. Ele foi até a lanchonete onde eu trabalhava e começou a me cantar, e uma das amigas viu. Desde então, Cristiana passou a me infernizar todos os dias, tentando me expulsar da casa.

— O que foi dessa vez, sua louca? — falei brava, levantando e pegando a almofada no ar antes que me acertasse.

— Por que não some daqui? Não tá vendo que ninguém te quer nessa casa? — ela berrou, cambaleando.

— Não vou sair. E, pra sua informação, essa casa era da minha mãe, então eu também tenho direito! — respondi, firme.

A porta se abriu de repente.

Minha madrasta entrou, com o olhar furioso.

— O que diabos está acontecendo aqui? Liz, o que acha que está fazendo? Vai quebrar tudo agora? — perguntou, olhando a bagunça espalhada.

— Não fui eu que joguei nada! — tentei explicar, mas ela me interrompeu.

— Ah, claro. Você nunca faz nada, não é? — falou com deboche, olhando para a filha bêbada.

Virou-se para Cristiana e suavizou o tom:

— Cris, querida, seu pai está dormindo. Quer acordá-lo? Vai tomar um banho e descansar, ele não pode te ver assim, vai ficar bravo.

Cristiana me lançou um olhar de puro ódio.

— Tá bom, mamãe — respondeu, saindo em direção ao quarto dela.

— Ótimo! — disse Serafina. — E você, Liz, trate de arrumar essa bagunça e acorde cedo pra fazer o café! — completou, saindo e me deixando sozinha no meio do caos que a filha dela tinha causado.

Suspirei fundo.

Juntei minhas coisas em silêncio e voltei para o quartinho dos empregados, onde eu dormia desde que meu quarto pegou fogo.

Mas no fundo, eu já sabia: não pretendia mais voltar pra lá.

Queria sair daquela casa. Era maior de idade, e estava decidida a conquistar minha liberdade.

Na manhã seguinte, levantei cedo e fui trabalhar no hotel onde a mãe da minha amiga havia me arrumado uma vaga.

Era na área da limpeza, mas o salário era bom, e o hotel… era o mais luxuoso da cidade. Às vezes eu via celebridades de longe, e sonhava com uma vida diferente, mesmo que só por alguns segundos.

Por ser um hotel cinco estrelas, as regras eram rígidas — só podíamos limpar os quartos quando os hóspedes estavam ausentes, e sempre em dupla.

Mas aquele dia começou caótico.

Duas funcionárias faltaram, e eu e Amanda, minha parceira, ficamos atoladas de serviço.

— Liz, ainda tem o quarto VIP pra limpar. Acho melhor você subir e ir adiantando, senão não saímos daqui hoje — disse Amanda, cansada.

— Mas... a Clarice sempre fala que temos que limpar juntas.

— Esquece a Clarice, garota. Tô aqui há mais tempo. O quarto tá vazio, ninguém vai mexer com você. Vai, adianta lá!

— Tá bom... — murmurei, pegando meu carrinho de limpeza e seguindo para o elevador.

A suíte VIP ficava no último andar.

Quando a porta se abriu, caminhei até a entrada e passei o cartão.

Mesmo trabalhando ali há meses, eu nunca tinha entrado num quarto de luxo como aquele.

Assim que pisei dentro, fiquei maravilhada. Era outro mundo — a cama enorme, as cortinas automáticas, os comandos de voz, o perfume caro no ar...

Sem perceber, fui me deixando levar.

Me joguei na cama, sentindo o toque macio dos lençóis. Fechei os olhos e respirei fundo, imaginando como seria viver um dia como uma hóspede ali.

Foi quando uma voz grave cortou o silêncio:

— Quem é você? Como entrou aqui?

Meu corpo congelou. Dei um pulo, o coração disparado.

— Me... me desculpa! — gaguejei, completamente envergonhada, tentando me levantar. Eu sabia que estava encrencada. Ia ser demitida, com certeza.

— Como entrou aqui? — ele repetiu, a voz fria e autoritária.

Olhei para ele — e perdi o ar.

O homem à minha frente parecia ter saído de um sonho perigoso. Alto, olhar de gelo, rosto marcado pela força.

Lindo demais pra ser real.

E assustador de mais.

— Eu... sou a faxineira. Achei que o quarto estava desocupado, por isso vim limpar — respondi, trêmula.

Ele riu. Uma risada seca, debochada.

— Ah, veio limpar... foi isso o que eu acabei de ver?

Ele voltou a ficar sério, me encarando com um olhar que parecia atravessar a minha alma.

— Eu... eu só deitei por um instante. Me desculpa, vou trocar os lençóis! Juro que não sabia que tinha alguém aqui — tentei me explicar, aflita.

Ele deu alguns passos em minha direção.

A cada passo, o ar parecia ficar mais pesado.

— Entendo... então, além de faxina, vocês oferecem outros tipos de serviço? — disse, tocando meu cabelo de leve.

Meu corpo inteiro gelou.

Afastei-me rápido.

— Quem você acha que eu sou?! — perguntei, indignada.

Ele sorriu, com um olhar que misturava curiosidade e perigo.

Naquele instante, tive certeza:

Eu tinha acabado de me meter em uma enrascada.

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