“O corpo sente antes que o perigo tenha coragem de se mostrar.”
Clara Vasconcelos
Algumas noites não avisam quando vão mudar tudo.
Elas chegam como qualquer outra, silenciosas, aparentemente inofensivas, vestidas de rotina. Foi assim naquela noite. Lucca ainda não tinha chegado, e a casa estava mergulhada num tipo de calma que não era exatamente paz, era expectativa.
Eu estava sentada no sofá da sala, com as pernas recolhidas, uma manta leve sobre o corpo. A televisão estava ligada, mas eu não saberia dizer o que passava. As imagens se moviam sem realmente me alcançar. Meu pensamento estava em outro lugar, ou talvez em lugar nenhum.
Levei a mão ao ventre quase sem perceber.
Era um gesto automático agora. Instintivo, como respirar.
Havia dias em que eu sentia tudo com mais intensidade, os cheiros, os sons, as emoções. Como se meu corpo tivesse aprendido a escutar antes mesmo da minha mente compreender. E naquela noite… havia algo errado.
Não errado de forma concreta. Errado de forma su