Mundo de ficçãoIniciar sessão"O verdadeiro problema não é quando alguma coisa faz sentido. É quando não faz sentido nenhum e, ainda assim, você não consegue parar de pensar nela."
Irina passou o trajeto inteiro tentando convencer a si mesma de que estava exagerando.
Era a explicação mais lógica. A única que realmente deveria existir. Afinal, tudo o que tinha acontecido naquela tarde podia ser resumido de forma simples: ela havia entrado no escritório do presidente da empresa, ele tinha feito uma pergunta e, por algum motivo que não conseguia compreender, seu corpo reagiu de uma forma completamente desproporcional.
Era só isso.
Pelo menos era o que repetia para si mesma enquanto o elevador descia lentamente pelos andares da Romanov Group.
O problema era que nenhuma repetição parecia suficiente para transformar aquela explicação em verdade.
A sensação continuava ali, persistente e incômoda, como uma pergunta para a qual não existia resposta.
Levou a mão ao peito mais uma vez enquanto observava os números diminuírem no painel digital. O coração já não batia tão rápido quanto antes, mas ainda estava longe da normalidade, e aquilo a incomodava mais do que gostaria de admitir.
Porque não era apenas nervosismo. Irina sabia reconhecer aquela sensação quando aparecia, assim como sabia reconhecer constrangimento ou medo, mas o que havia sentido naquele escritório era diferente, como se alguma coisa adormecida dentro dela tivesse despertado no exato instante em que seus olhos encontraram os de Nikolai Romanov.
E essa era justamente a parte que não fazia sentido.
A porta do elevador se abriu no térreo e ela saiu imediatamente, quase rápido demais, como se permanecer ali por mais alguns segundos pudesse obrigá-la a continuar pensando em algo que estava desesperada para esquecer.
Não conseguiu.
Durante todo o caminho para casa, a lembrança continuou voltando.
O ônibus estava cheio, o trânsito avançava devagar e o barulho das conversas preenchia o ambiente, mas tudo parecia distante demais para alcançá-la, porque sua mente permanecia presa ao mesmo momento.
Ao mesmo olhar. À mesma pergunta.
“Qual é o seu nome?”
Ela fechou os olhos por um instante e apoiou a cabeça contra o vidro da janela.
Não era uma pergunta incomum e também não havia nada de especial nela, mas a forma como ele a tinha feito parecia carregar um peso que não deveria existir, como se a resposta fosse importante, como se ele precisasse ouvi-la ou estivesse procurando alguma coisa que nem ele próprio conseguia encontrar.
E, por mais absurda que aquela ideia parecesse, Irina teve a impressão de que ele havia ficado tão perturbado quanto ela.
A simples lembrança fez seus dedos se fecharem ao redor da bolsa.
Não.
Aquilo era ridículo.
Nikolai Romanov provavelmente já nem se lembrava do seu rosto. Era apenas o presidente da empresa sendo educado com uma funcionária, nada além disso, e qualquer tentativa de transformar aquele encontro em algo maior era apenas fruto da sua própria imaginação.
Precisava parar de transformar um encontro de poucos minutos em algo maior do que realmente tinha sido.
O apartamento que dividia com Ekaterina surgiu como um alívio quando finalmente chegou.
Pequeno.
Simples.
Cheio de imperfeições.
E exatamente por isso acolhedor.
Assim que abriu a porta, o cheiro do jantar tomou conta do ambiente e, normalmente, aquilo bastava para fazê-la relaxar, mas naquela noite nem mesmo a familiaridade do apartamento conseguiu afastar a inquietação que a acompanhava desde que havia saído da empresa.
Entrou em silêncio, deixou a bolsa sobre uma cadeira próxima e apoiou as costas na porta enquanto soltava o ar lentamente dos pulmões.
Talvez estivesse mais cansada do que imaginava.
— Você demorou.
A voz de Ekaterina veio da cozinha, familiar, confortável e segura.
— E com essa cara, ou você foi demitida ou acabou de descobrir que é herdeira de uma fortuna.
Um sorriso fraco apareceu nos lábios de Irina. O primeiro desde que deixou a empresa.
— Nenhuma das duas opções.
Ekaterina apareceu na porta da cozinha secando as mãos em um pano de prato. Mas bastou observá-la durante alguns segundos para perceber que alguma coisa estava errada.
O sorriso desapareceu dando lugar a preocupação.
— O que aconteceu?
Irina desviou o olhar. Porque aquela era uma pergunta muito mais difícil do que deveria ser.
Caminhou até o sofá e se sentou devagar.
Ekaterina observou tudo em silêncio antes de se aproximar.
Não insistiu.
Não pressionou.
Esperou.
Conhecia a amiga bem o bastante para saber que ela acabaria falando.
— Hoje eu fui limpar a sala da presidência.
Ekaterina arqueou uma sobrancelha.
— Certo.
Irina passou as mãos pelos cabelos. Tentando organizar pensamentos que nem ela compreendia completamente.
— E ele estava lá.
A expressão de Ekaterina mudou imediatamente.
— O CEO?
Irina assentiu.
— E o que aconteceu?
Silêncio.
Ela demorou alguns segundos para responder porque era exatamente aí que o problema começava.
Não sabia explicar.
— Eu não sei.
— Isso não respondeu absolutamente nada.
Irina soltou uma pequena risada sem humor.
— Eu sei.
Ekaterina cruzou os braços esperando.
— Então tenta de novo.
Irina respirou fundo.
— Ele me olhou.
— Imagino que sim.
— Ekaterina…
— Estou ouvindo.
Ela fechou os olhos por um instante.
— Foi estranho.
Dessa vez a amiga não fez nenhuma piada.
— Estranho como?
Irina abriu a boca para responder, mas nenhuma explicação pareceu adequada porque todas pareciam absurdas.
— Eu … eu não sei.
A resposta saiu mais baixa e mais sincera.
Irina sempre encontrava explicações para as coisas. Sempre procurava lógica, causa e consequência, mesmo quando a vida insistia em ser complicada.
Mas, pela primeira vez em muito tempo, ela não tinha nenhuma.
— Foi como se...
Ela interrompeu a própria frase e Ekaterina observou a hesitação.
— Como se o quê?
Irina desviou os olhos.
— Eu não consigo explicar.
— Tenta.
Ela respirou fundo.
— Meu coração disparou.
O olhar de Ekaterina imediatamente caiu para o peito dela.
— Você ficou nervosa?
— Não foi isso.
A resposta saiu rápida demais. Rápida o suficiente para surpreender as duas.
Irina passou a mão pela nuca frustrada.
— Eu já fiquei nervosa antes.
— E isso foi diferente?
Ela demorou alguns segundos antes de responder.
— Sim.
Ekaterina continuou observando.
— Diferente como?
Irina ficou em silêncio. Porque aquela era a pergunta que vinha tentando responder desde que saiu do escritório. E ainda não conseguia.
— Eu não sei.
Mais uma vez.
Sempre a mesma resposta. Sempre a mesma incapacidade de explicar.
Ekaterina suspirou. Então se aproximou e se sentou ao lado dela.
— E ele?
Irina ergueu os olhos.
— O que tem ele?
— Você está falando da sua reação desde que entrou aqui. E a reação dele?
Irina demorou alguns segundos para responder. Porque aquela era outra parte do problema.
— Eu não sei.
Mas a resposta não convenceu nem ela mesma.
Porque, por mais irracional que parecesse, havia alguma coisa na forma como Nikolai Romanov a observou que tornava difícil acreditar que aquele momento tinha sido estranho apenas para ela.
Ekaterina percebeu a hesitação imediatamente.
— Irina…
Ela soltou o ar devagar.
— Parecia que ele estava tentando lembrar de alguma coisa.
A amiga franziu a testa.
— Lembrar de quê?
— Eu não sei.
— Você realmente não sabe muita coisa hoje.
Irina soltou uma pequena risada, mas ela desapareceu rápido porque aquilo não era engraçado.
Nada daquilo era.
Ekaterina permaneceu em silêncio durante alguns segundos antes de finalmente falar:
— A gente vai marcar uma consulta.
Irina virou o rosto imediatamente.
— O quê?
— Você fez um transplante.
A palavra pareceu ocupar todo o apartamento a deixando imóvel.
— Ekaterina...
— Eu estou falando sério.
O tom agora era firme.
— Se alguma coisa está diferente, a gente verifica.
— Eu estou bem.
— Você não sabe disso.
Silêncio.
Irina baixou os olhos.
Sabia que a amiga tinha razão, mas também sabia que aquilo não parecia físico.
Parecia...
Ela interrompeu o pensamento antes mesmo de concluí-lo porque não queria seguir por aquele caminho. Não queria começar a imaginar coisas.
— Eu só quero ter certeza — disse Ekaterina, suavizando a voz. — Só isso.
Irina respirou fundo e depois assentiu.
— Tá.
Ekaterina pareceu satisfeita com a resposta. Mas Irina não.
Porque, por mais que tentasse aceitar a explicação mais lógica, alguma coisa dentro dela continuava recusando aquela resposta.
Não era apenas sobre o coração, ela tinha certeza disso. O problema era que não conseguia explicar o motivo.
Permaneceu sentada em silêncio por alguns segundos, observando um ponto qualquer da sala enquanto a conversa desaparecia e uma única lembrança voltava a ocupar sua mente.
Os olhos de Nikolai Romanov. A forma como ele a observou. A estranha sensação de que aquele encontro havia significado alguma coisa.
Algo que ela não compreendia. Algo que não deveria existir.
E, pela primeira vez desde que deixou a presidência naquela tarde, uma pergunta começou a tomar forma dentro dela.
Se aquilo não era apenas sobre o coração...
Então o que era?







